Devora Lea era a segunda filha do Rabino Schneur Zalman de Liadi, também conhecido como Alter Rebe, fundador do movimento Chassídico Chabad.

Era o ano de 1792 e os ensinamentos do Chassidismo estavam sendo disseminados com grande sucesso. O movimento Chassídico crescia rapidamente e ganhava força a passos largos. Na vanguarda desse crescimento estava o Alter Rebe, que servia como um pilar do conhecimento. Era uma época que deveria ter sido repleta de exultação e alegria, pois o judaísmo se tornava cada vez mais significativo para um número crescente de judeus, à medida que abraçavam esses ensinamentos revolucionários.

Contudo, uma nuvem cinzenta pairava no horizonte. O Alter Rebe, ciente de que nos mundos espirituais existia forte oposição contra ele e a revelação dos profundos segredos da Torá, estava tomado de apreensão. Ele fez tudo o que pôde para evitar um decreto desastroso.

Ele enviou mensageiros cuidadosamente escolhidos aos túmulos do Baal Shem Tov, fundador do movimento chassídico, e do Maguid de Mezeritch, seu próprio mentor espiritual, para suplicar que intercedessem no céu em favor de seu povo.

Notificou seus colegas, alunos do Maguid, sobre o momento perigoso que se apresentava para eles e para a nação judaica. Pediu a um colega, Reb Nochum de Chernobyl, um dos discípulos mais estimados do Maguid, uma bênção. E então, como último recurso, trancou-se em seu escritório, não permitindo que ninguém entrasse, mergulhado em profunda oração e súplica ao Todo-Poderoso. Contudo, pressentia que todas as suas tentativas seriam em vão.

Certo dia, em meio à sua ansiedade, o Alter Rebe chamou sua filha, Devora Lea. Na privacidade de seu escritório, ele a informou sobre os tempos muito difíceis que estavam por vir e a forte oposição celestial contra a revelação dos aspectos mais íntimos da Chassidut. Ele descreveu a ela, em tom grave, que tivera uma visão dos rostos do Maguid e do Baal Shem Tov, e que eles estavam extremamente escuros e sombrios. Devora Lea compreendeu que a própria vida de seu pai estava em perigo.

Agindo por iniciativa própria, Devora Lea reuniu três dos chassidim mais antigos de seu pai. Ela pediu que prometessem cumprir tudo o que ela lhes solicitasse e jurassem não revelar seus pedidos a ninguém. Somente depois que eles concordaram com essas condições, ela prosseguiu.

Ela os lembrou de que todos eram chassidim de seu pai e, portanto, deveriam estar preparados para fazer o que fosse necessário para que a importante obra e os ensinamentos dele e do Baal Shem Tov florescessem. Emocionada, Devora Lea implorou: “Peço que façam um juramento solene, irrevogável, de que atenderão ao meu pedido, mesmo que uma vida humana esteja em risco”.

Como um dos chassidim ficou apreensivo em fazer tal compromisso, os outros dois o tranquilizaram, convencendo-o de que Devora Lea devia ter refletido bem sobre o assunto e certamente não agiria de forma imprudente.

O ar estava carregado de emoção quando Devora Lea informou os chassidim da urgência da situação e da ameaça que pairava sobre a vida do Rebe Schneur Zalman. Resolutamente, ela declarou: “Vocês três chassidim agora constituirão um beit din um tribunal da lei judaica. Decidi dar a minha própria vida em lugar da do meu pai. Eu morrerei e ele viverá.”

Na véspera de Rosh Hashaná daquele ano, após Minchá, as orações da tarde, Devora Lea entrou na pequena sinagoga onde sua família e alguns chassidim mais velhos estavam absortos em orações. Ela caminhou em direção à arca sagrada e proclamou em voz alta: “Todos vocês são testemunhas diante destes rolos da Torá de que eu, Devora Lea, filha de Sterna, aceito, de mente clara, trocar de vida com meu pai, Schneur Zalman, filho de Rivka. Eu, por meio da minha morte, serei a expiação.”

Naquela noite, a primeira noite de Rosh Hashaná, o Alter Rebe saiu de seu quarto particular para procurar Devora Lea. Quando ela se aproximou, ele começou a abençoá-la com a bênção costumeira de “leshaná tová” (“Que você seja abençoada com um bom ano”). Ela interrompeu abruptamente sua bênção com: “Pai, leshaná tová tikatev veteichatem (Que você seja inscrito e selado para um bom ano novo)”. Quando ele, por sua vez, estava prestes a terminar sua bênção para ela, ela implorou: “Pai, não diga mais nada!”

Ao término de Rosh Hashaná, o Alter Rebe chamou Devora Lea e seu marido, o Rabino Sholom Shachna. O Rabino Sholom desabou em lágrimas, perguntando: “O que faremos? Nosso filho pequeno, Menachem Mendel, é tão especial, e ainda assim tão jovem e delicado. Ele acabou de completar três anos.”

O último pedido de Devora Lea ao seu pai foi que ele se envolvesse pessoalmente na tarefa de educar e criar seu único filho, ainda jovem. Tranquilizando-a, o Alter Rebe prometeu: “Seu filho, Menachem [em hebraico, consolo], será uma nechamá (consolo) para mim, uma nechamá para você e uma nechamá para todo o povo judeu.”

No dia seguinte, no terceiro dia de Tishrei, a oração de Devora Lea foi atendida: ela adoeceu repentinamente e morreu de morte natural. Sua alma deixou seu corpo e ascendeu aos céus.

Durante os sete dias de luto (shivá), Menachem Mendel recitou o kadish por sua falecida mãe. Na véspera de Yom Kipur, o Alter Rebe, com seu jovem neto ao lado, orou no túmulo de Devora Lea.

O Alter Rebe declarou: “Ainda maiores são os justos em sua morte do que em suas vidas! O poder de suas bênçãos é maior quando sua alma ascende ao céu do que quando está confinada a seus corpos. Devora Lea, abençoe seu único filho agora, na véspera deYom Kipur! Esta criança — que seja abençoada com muitos anos — se tornará exemplar em seu conhecimento da Torá revelada, bem como da Chassidut, a Torá oculta, e em suas boas ações. Por favor, ore, Devora Lea, para que o Todo-Poderoso tenha misericórdia dos chassidim e dos ensinamentos do Baal Shem Tov.”

No dia seguinte ao Yom Kipur, o décimo primeiro dia de Tishrei, o Alter Rebe providenciou para que um chassid de caráter exemplar, chamado Rabi Avraham, fosse o professor particular de Menachem Mendel. Nesse mesmo dia, o Alter Rebe levou Menachem Mendel, acompanhado por seu pai, Rabi Sholom Shachna, ao túmulo de sua mãe.

“Mazel tov, Mazel tov !” anunciou o Alter Rebe. “Dévora Lea, hoje é o dia em que apresentamos seu filho à Torá. Abençoe-o para que, assim como foi apresentado à Torá, ele entre na chupá (pálio nupcial), pratique muitas boas ações e viva uma vida longa.” Todos os presentes responderam: “Amém”.

O Alter Rebe cumpriu fielmente sua última promessa a Devora Lea. Diariamente, estudava com Menachem Mendel, que mais tarde se tornou famoso por sua erudição e vasto conhecimento em todos os aspectos da Torá, e ficou conhecido como o “Tzemach Tzedek”, nome dado em homenagem a uma de suas obras magistrais. O Alter Rebe também decidiu que a cama de seu neto deveria ser colocada em seus aposentos privados. Daquela noite em diante, Menachem Mendel dormiu profundamente ao lado de seu avô.

Em certa ocasião, porém, em meio ao sono do menino, ele exclamou, entre soluços: “Mamãe, mamãe! Leve-me com você.” Devora Lea apareceu para Menachem Mendel e o tranquilizou suavemente: “Não, meu querido filho, durma em paz. Seu zaidy (avô) está bem aqui ao seu lado.”


Para substituir a vida de seu pai pela sua própria, Devora Lea teve que abrir mão do mais importante que alguém poderia dar: o dom da própria vida. Qualquer pessoa pode imaginar a imensa força de vontade espiritual necessária para um ato de tamanha magnitude. No entanto, somente uma mãe pode compreender o tremendo sacrifício necessário para escolher partir deste mundo e, ao fazê-lo, abandonar um filho tão jovem e tão dependente dela. Mas o legado de Devora Lea é ainda mais profundo.

Era necessário um nível espiritual magnificamente sublime para efetuar uma troca de tamanha importância. Ordenar ao céu que levasse a vida de uma pessoa e poupasse a de outra exigia um indivíduo muito especial. Permitam-me sugerir que, para realizar essa troca de vidas e manipular o decreto celestial de modo a substituir o pai, ela precisava estar, em certos aspectos, em pé de igualdade com seu santo pai.

Embora fosse uma mãe amorosa, Devora Lea sabia que, para o bem do povo judeu, os ensinamentos de seu pai eram de vital importância, ainda mais importantes que sua própria vida. Ela compreendia a necessidade inestimável de difundir esses ensinamentos sobre os aspectos mais profundos da Torá.

O movimento chassídico pôde prosseguir, com todo o seu ímpeto, graças ao sacrifício de Devora Lea em prol dos ensinamentos de seu pai e do Baal Shem Tov.

Seu pequeno Menachem Mendel tornou-se um dos maiores líderes judeus de sua geração. Após o falecimento de seu tio, o rabino Dov Ber, ele assumiu a liderança do Chassidismo Chabad e levou o movimento a um crescimento sem precedentes. Seus seguidores somavam bem mais de meio milhão, e ele era muito respeitado e reverenciado por toda a comunidade judaica, chassídica e não chassídica.

Menachem Mendel deu continuidade à tarefa pela qual sua mãe sacrificou não apenas a própria vida, mas também a única chance de ter com ele o vínculo íntimo que só uma mãe e um filho podem ter.

Devora Lea desempenhou um papel crucial na perpetuação dos ensinamentos essenciais da Dimensão Interior da Torá. Ela será lembrada por seu imenso sacrifício, realizado de forma tão silenciosa e passiva, mas com tamanha abnegação e bravura.

Assista: Rebetsin Devora Lea