Uma antiga estrada recentemente aberta ao público (começando no Parque Nacional da Cidade de David, em Jerusalém) permite que os visitantes percorrem o mesmo caminho que nossos ancestrais trilharam em suas peregrinações ao Templo, milhares de anos atrás.
As antigas pedras da Estrada da Peregrinação estão tão bem preservadas que torna-se difícil acreditar que ela foi construída no final da época do Segundo Templo. Ela ligava a entrada da antiga Jerusalém ao Monte do Templo. Três vezes por ano, multidões festivas de peregrinos, vindos de perto e de longe, subiam essa estrada até o Templo. Imagine os patriarcas e matriarcas caminhando lentamente, orgulhosos de seus filhos, crianças pequenas sentadas nos ombros dos pais e crianças maiores de mãos dadas com os pais... todos contemplando com admiração o magnífico Templo que se erguia à sua frente.
Hoje, só podemos tentar imaginar o Templo que um dia existiu no final da estrada. Mas, assim como nossos ancestrais, agora temos a oportunidade de percorrer toda a extensão da antiga estrada.
Os primórdios da estrada
A Estrada da Peregrinação começava logo após o portão sul que dava acesso à antiga Jerusalém. Pesquisadores acreditam que essa era a principal entrada da cidade na época. Os visitantes se deparavam primeiro com um grande reservatório, recentemente identificado pelo arqueólogo Nahshon Szanton como a Piscina de Salomão mencionada por Flávio Josefo. No lado norte da piscina, havia grandes degraus de pedra.
Quando um cano de esgoto no bairro estourou em 2004, os trabalhadores que faziam o reparo descobriram grandes degraus de pedra de uma época muito anterior. Quando os arqueólogos chegaram, descobriram que os degraus que subiam da piscina não terminavam no nível da rua, como se pensava anteriormente, mas continuavam subindo, formando uma estrada que levava até o Monte do Templo.
Em 2013, Szanton e o arqueólogo Joe Uziel começaram a escavar a antiga estrada, hoje conhecida como Rua dos Degraus ou Estrada da Peregrinação. A escavação, iniciada pela Autoridade de Antiguidades de Israel e patrocinada pela Fundação Cidade de David, começou pequena, mas logo se tornou a escavação mais complexa e cara de todo país.
“É uma área complexa”, diz Szanton. A Estrada da Peregrinação era “a rua principal de Jerusalém” no século I d.C. Durante as festas de peregrinação, ficava lotada de peregrinos, mas no resto do ano, servia aos moradores locais. Com cerca de 7,5 metros de largura, a rua era ladeada por casas em ambos os lados. Ela se estendia da Piscina de Salomão até o Monte do Templo, totalizando cerca de 600 metros.
As Escavações
Como a antiga estrada está localizada sob um bairro contemporâneo, os arqueólogos enfrentaram o desafio de realizar escavações sem perturbar os moradores.
“Tivemos que inventar uma nova metodologia”, diz Szanton. “Geralmente, as escavações arqueológicas são feitas verticalmente, começando pela camada mais recente e descendo uma camada após a outra. Mas começamos no subsolo e avançamos horizontalmente, de um lado da rua para o outro. Antes de prosseguir para a próxima etapa, tivemos que reforçar a área que acabávamos de concluir, construindo suportes estruturais para garantir que a camada superior não desabasse.”
Trabalhando lateralmente, os arqueólogos escavaram o meio metro superior do sítio. A partir daí, puderam continuar da maneira usual, verticalmente, até alcançarem os degraus de pedra originais.
A cada 1,5 a 2 metros, a escavação era interrompida e uma equipe de construção era acionada para instalar arcos de sustentação metálicos para suportar a rua acima. Outros especialistas instalavam a eletricidade e garantiam a ventilação adequada. Centenas de pessoas participaram desse processo. Devido à complexidade, as escavações levaram mais de uma década.
As Descobertas
Para os arqueólogos, o trabalho na Estrada da Peregrinação foi emocionante e significativo. “Quando você fica entre duas pedras de cada lado da rua, sabe que toda a nação judaica passou por ali há dois mil anos”, diz Szanton. “Todos os nossos ancestrais passaram por ali. É muito impactante!”
A descoberta mais surpreendente, segundo Szanton, foi “a própria rua. Cada metro que descobrimos é fascinante. A rua é monumental em escala.” Seu tamanho e a qualidade da construção atestam sua importância na época.
Com base em moedas encontradas sob a rua, os arqueólogos determinaram que ela foi construída na época do prefeito romano Pôncio Pilatos, o que a data entre 30 e 40 d.C. Essa descoberta foi inesperada, pois até recentemente a estrada era atribuída ao Rei Herodes. Com isso, os arqueólogos estão aprendendo mais sobre Jerusalém sob o domínio de Pilatos. Josefo menciona que Pilatos construiu um aqueduto usando dinheiro do tesouro do Templo — um ato sacrílego que provocou tumultos em Jerusalém. Parece que Pilatos também estava ocupado com outros projetos de construção na região.
A construção da Estrada de Peregrinação exigiu muito esforço e recursos. "Este é o segundo projeto urbano em Jerusalém, depois do Monte do Templo", diz Szanton. Cada laje de pedra usada na construção da estrada tem cerca de 2 metros de comprimento, 1,5 metro de largura e 0,5 metro de espessura, pesando 2,5 toneladas. As pedras foram extraídas ao norte de Jerusalém e transportadas para o local da construção. Ao todo, cerca de 10.000 metros cúbicos de pedra foram usados neste projeto. Isso por si só já foi uma grande empreitada.
Além disso, projetos de construção dessa escala exigem construtores experientes. Tanto para o aqueduto quanto para a estrada, "você precisa de profissionais do exército romano", diz Szanton. "Eles têm o conhecimento e o equipamento. Então, por um lado, Pôncio Pilatos era um governante muito cruel, mas, por outro lado, era um construtor monumental, assim como Herodes, o Grande."
Além de informações sobre os governantes de Jerusalém, a escavação também forneceu pistas sobre o cotidiano dos habitantes da cidade. Por exemplo, entre os achados, havia restos botânicos. "Agora sabemos o que eles comiam", afirma Szanton. Atualmente, um estudo sobre o assunto está sendo preparado para publicação.
Durante as temporadas de peregrinação, os comerciantes montavam barracas ao longo dessa Estrada, onde os visitantes podiam comprar tudo o que precisavam, desde comida para suas famílias até animais vivos para sacrifício no Templo.
Outra estrutura descoberta ao longo da estrada é uma plataforma escalonada que leva a outra pequena plataforma. Embora seu propósito exato seja desconhecido, os pesquisadores levantam a hipótese de que ela possa ter servido como ponto de encontro, bem como para objetos perdidos e achados.
Aproximadamente a dois terços do caminho percorrido nas escavações, os arqueólogos chegaram a uma seção onde as grandes pedras que margeavam a estrada desapareceram. O restante da estrada está sem lajes de pedra até chegar ao canto sudoeste do Monte do Templo. Ali, é possível ver pedras semelhantes às que cobriam os dois primeiros terços da estrada. O motivo do desaparecimento dessas pedras ainda é tema de debate entre os pesquisadores. Szanton sugere que as pedras podem ter sido saqueadas em um período posterior e utilizadas em construções em outro local.
Sistema de Drenagem de Água
Sob a Estrada da Peregrinação, pesquisadores encontraram um canal de drenagem construído na mesma época. Seu propósito era drenar a água da chuva da estrada principal durante a estação chuvosa.
Arqueólogos acreditam que, na época da Grande Revolta e da conquista romana de Jerusalém, combatentes judeus usaram esse canal de drenagem como esconderijo. Eli Shukron, o arqueólogo que conduziu as escavações no canal, encontrou ali uma espada romana.
Outros objetos descobertos no canal foram moedas e fichas antigas (provavelmente usadas na troca de animais para sacrifícios no Templo), bem como uma romã dourada, talvez feita para a túnica do Sumo Sacerdote.
Camada de Destruição
Durante as escavações, os arqueólogos descobriram a camada de destruição resultante do cerco e da captura de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.
Os romanos incendiaram Jerusalém, e os edifícios ao longo da Estrada da Peregrinação desabaram sobre a estrada. "Tudo o que havia nessas construções, estamos encontrando nesta camada de destruição, os pequenos objetos que pertenciam às pessoas que viviam em Jerusalém naquela época", explicou Szanton. Entre os achados estão moedas cunhadas na Judeia na época, bem como cerâmica, vidro, pedra e vasos de madeira.
O Destino
A estrada termina aos pés do Monte do Templo, ao sul da Praça do Muro das Lamentações, dentro do Parque Arqueológico Davidson. Ali, os peregrinos encontrariam uma fileira de lojas. Eles virariam à direita para seguir até os Portões de Hulda, que davam acesso ao complexo do Templo.
Hoje, ao sair da Estrada da Peregrinação, podemos avistar uma pilha de pedras da antiga muralha destruída pelos romanos. Mas podemos imaginar dias melhores, quando o povo judeu viverá em paz em nossa terra e viajará três vezes por ano ao Templo Sagrado reconstruído para se reconectar com D’us.
Que possamos vivenciar isso muito em breve!
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