Um marco histórico na oftalmologia e avanço na medicina regenerativa acaba de ser registrado: pela primeira vez, uma córnea bioimpressa em 3D com células humanas devolveu a visão a uma paciente de 70 anos que havia perdido a visão em um dos olhos.

O procedimento foi realizado no Rambam Medical Center, em Haifa (Israel), em parceria com a Precise Bio, empresa que desenvolveu o implante PB-001, uma córnea funcional produzida em laboratório a partir de bioimpressão. A paciente recuperou a capacidade de enxergar após receber o implante. A cirurgia integrou um estudo de fase 1, com foco em segurança, clareza do implante e recuperação funcional inicial.

De acordo com os comunicados oficiais da empresa e do hospital:

  • O implante foi posicionado como um enxerto corneano, em procedimento conduzido por cirurgiões de córnea experientes, utilizando princípios já consolidados nas ceratoplastias.
  • A paciente apresentou melhora funcional da visão nas semanas subsequentes, recuperando a capacidade de perceber detalhes e contornos antes ausentes.
  • O procedimento é o primeiro de uma série planejada de 10 a 15 pacientes em um estudo de fase 1, com resultados mais robustos previstos para 2026.

A córnea usada no procedimento israelense é formada totalmente por células derivadas de uma córnea real, que são então organizadas camada por camada pela impressora 3D. Isso significa que uma única córnea pode dar origem a várias outras.

O transplante de córnea é um procedimento marcado pela escassez mundial de tecidos. Relatórios recentes sugerem que, em alguns cenários, há apenas uma córnea disponível para cada 70 pacientes que necessitam de transplante, e mais da metade da população mundial não tem acesso efetivo à cirurgia por falta de infraestrutura de bancos de olhos e de políticas de doação estruturadas.

Como funciona o implante

A PB-001 é produzida combinando células humanas com materiais que dão sustentação à estrutura do tecido. A ideia é criar uma córnea que imite, o máximo possível, as características de uma córnea natural. Diferentemente do transplante convencional, que depende de tecido de doadores, o implante é resultado de uma plataforma de biofabricação capaz de expandir células corneanas em larga escala. A partir de uma única córnea doadora é possível gerar centenas de enxertos, o que pode alterar profundamente o cenário mundial, o que é algo revolucionário.

O estudo inclui pacientes com alterações na córnea que não têm indicação para o transplante tradicional. Ainda não há informações suficientes sobre como esse tecido cicatriza ao longo do tempo e sua durabilidade. Uma córnea doada costuma durar cerca de 30 anos, mas ainda não é possível avaliar o desempenho do implante bioimpresso. Os primeiros dados de eficácia devem ser avaliados após seis meses de acompanhamento, e a divulgação dos resultados está prevista para o segundo semestre de 2026.

Um dos pontos mais destacados pela empresa e pelos cirurgiões é a capacidade de expandir uma única córnea doadora em cerca de 300 implantes bioimpressos, multiplicando de forma exponencial o impacto de cada doação.

O Professor Michael Mimouni, Diretor da Unidade de Córnea do Departamento de Oftalmologia do Rambam que liderou a equipe cirúrgica explica:

“Pela primeira vez na história, testemunhamos uma córnea criada em laboratório, a partir de células humanas vivas, devolver a visão a um ser humano. Foi um momento inesquecível — um vislumbre de um futuro onde ninguém precisará viver na escuridão por falta de tecido para transplante. Isso é revolucionário.”

A conquista reflete anos de desenvolvimento científico, planejamento clínico preciso e forte colaboração entre médicos, pesquisadores e parceiros da indústria. Também reforça o compromisso do Rambam em promover o cuidado com o paciente por meio de terapias inovadoras com potencial para mudar vidas em Israel e no mundo todo. O conceito de tecidos fabricados sob demanda a partir de células humanas tem o potencial para impactar não apenas a oftalmologia, mas outras áreas como cardiologia, nefrologia e hepatologia.