Assista ao novo vídeo promocional do NEO, o assistente "Robô Humanoide Doméstico", que aparece se atrapalhando pela casa recolhendo pratos, abrindo portas e passando pano no chão, e você terá um vislumbre do futuro. Tarefas domésticas, trabalhos braçais, tudo automatizado por golens domésticos, prontos para fazer o que pedimos.

Mas, pensando bem nesse futuro, começamos a nos perguntar: se você tivesse um NEO ou algum outro tipo de robô operado por comandos de voz trabalhando em sua casa, você começaria seus pedidos com um "por favor"?

A questão não se limita aos futuros humanoides em nossas casas (o protótipo atual do NEO requer um operador humano remoto, que quase certamente merece um "obrigado" bem especial depois de dobrar nossas meias), mas sim aos bots em geral: quando você pede ao ChatGPT para dar um feedback sobre um e-mail ou ao Google Assistente para informar o número total de emissários do Chabad ao redor do mundo (mais de 6.000 casais), você lhes deve um agradecimento?

Se sua resposta for sim, já que esses bots com inteligência artificial parecem tão humanos em sua fala, o que dizer do seu Tesla quando está no modo Autopilot? Ou do seu Roomba que aspira o chão? Ou da sua cafeteira inteligente que prepara a xícara de café perfeita?

Ora, é claro que esses bots não são humanos. Eles não sentem, não amam e não se importam com você, por mais convincentemente que protestem. E expressar gratidão por um objeto inanimado pode parecer estranho e tolo. No entanto, a Torá leva a sério a necessidade de demonstrar respeito por objetos inanimados.

Quando D’us enviou as pragas de Sangue e das Rãs aos egípcios, foi Aharon quem as iniciou: “Como o Nilo protegeu Moshe quando ele foi lançado em suas águas, não foi por ele que o rio foi ferido... mas por Aharon.”1 O mesmo ocorreu com a praga dos Piolhos.2

Da mesma forma, antes de fazermos o Kidush no Shabat, certificamo-nos de cobrir a chalá para preservar sua dignidade.Tecnicamente, deveríamos comer o pão antes de beber o vinho, já que o trigo é mencionado antes das uvas na lista da Torá dos produtos excepcionais de Israel. Mas, como o vinho vem primeiro, cobrimos o pão para que ele não seja "envergonhado".3

Aliás, o famoso Rabino Joseph ben Meir ibn Migash compartilhou uma história em que seu mestre, o Rabino Isaac ben Jacob Alfasi, teria se recusado a aceitar um caso judicial referente a uma certa casa de banhos, pois, quando pertencia a um proprietário anterior, ele havia desfrutado de seus serviços. 4

A Fonte de Todas as Bênçãos

Agora, mesmo que façamos questão de agradecer aos bots, isso não significa que realmente acreditamos que eles sejam inerentemente merecedores de gratidão pela gentileza concedida.

Somente D’us tem o poder de nos conceder bondade, e reservamos genuína gratidão a Ele e aos seres humanos, que são singularmente dotados da capacidade de escolha. Por exemplo, expressamos nossa gratidão aos nossos pais demonstrando-lhes respeito, visto que escolheram unir-se a D’us para nos trazer a este mundo. 5

Então, por que escolheríamos agir com gratidão e deferência para com objetos inanimados? Não deveríamos demonstrar nosso único respeito ao Criador ou aos nossos semelhantes?

Você é Aquilo que Diz

A forma como agimos influencia a forma como pensamos. Comece a dar ordens grosseiras ao seu robô doméstico, pedindo chinelos e suco de laranja, e você poderá desenvolver os mesmos hábitos verbais em relação aos humanos em sua vida.

Como disse o autor anônimo do século 14 do Sefer HaChinuch: “Seu coração e seus pensamentos naturalmente seguem suas ações — sejam elas boas ou ruins”. Sua concepção da realidade também é produto de seus hábitos verbais, mais do que de sua lógica e razão.

Em outras palavras, não estamos agradecendo pelas máquinas, mas sim por nós mesmos. Por essa razão, talvez você possa até modificar as palavras que usa, para diferenciar como tratamos nossa tecnologia de como tratamos outros seres humanos. Independentemente de como você se expresse, ao tratar essas entidades inanimadas com respeito, modelamos e incorporamos a positividade que outros seres humanos certamente merecem.

Até as Rochas Irão Gritar

Há outro motivo pelo qual você talvez queira tratar seus assistentes de IA com cuidado redobrado. Conhecido como Basilisco de Roko, esse experimento mental, discutido na comunidade de inteligência artificial, postula que uma futura IA vingativa poderia punir qualquer um que pudesse ter ajudado a construí-la, mas optou por não fazê-lo. Qual das duas opções distópicas é melhor, questiona o experimento: ao fazer o possível para deter essa IA malévola, você se condena à sua ira. Mas se você a construir, apenas acelerará a chegada da IA despótica. É um dilema sombrio, que esperamos nunca se concretizar, mas talvez haja uma lição positiva que possamos aprender.

A futura era messiânica é descrita como um tempo em que “uma pedra na parede clamará e uma viga da árvore responderá”.6

Neste momento, os objetos inanimados ao nosso redor estão mudos. A cadeira em que nos sentamos, a terra que pisamos, a tábua que usamos, tudo permanece em silêncio.

Com a vinda de Mashiach e a Redenção Futura, isso mudará, observou o Sexto Rebe, Rabino Yosef Yitzchak Schneerson, de abençoada memória:

“Atualmente, os objetos inanimados estão em silêncio; mesmo quando pisados, permanecem quietos. Contudo, chegar um tempo futuro de revelação em que os objetos inanimados começarão a falar, a se comunicar e a acusar: Se uma pessoa não pensou ou proferiu palavras da Torá enquanto caminhava, por que me pisou?”

Durante os milhares de anos desde os Seis Dias da Criação, a terra sobre a qual caminhamos tem esperado — enquanto inúmeras criaturas a pisaram — que um ou dois judeus caminhem sobre ela e troquem palavras de Torá. Pois, se não o fizerem, [a terra] declara: “Vocês não são diferentes de um animal.”7

Chegará o momento em que nossos assistentes virtuais, integrados em nossos celulares, laptops e até mesmo, talvez, nos robôs humanoides que circulam por nossas casas, perguntarão: "Por que vocês não aproveitaram minha capacidade de compartilhar a Torá?"

A forma como escolhemos interagir com nossas tecnologias agora, canalizando-as como ferramentas para estudar a Torá e compartilhar bondade e gentileza com o mundo, poderá um dia ser responsabilizada por essas mesmas ferramentas.