Pergunta:

Recentemente, compareci ao funeral do meu ex-marido. Eu não teria ido por ele; ainda estou com raiva. Fui pelos meus filhos.

Fiquei surpresa ao saber que, embora tenhamos nos divorciado civilmente há muito tempo, já que nunca me preocupei em obter o divórcio judaico, ainda somos considerados casados e, agora, preciso observar as leis de luto, desde o ato da kriá [rasgar um pedaço da vestimenta] até ashivá (luto judaico).

Faz sentido eu cumprir as leis do luto por um homem com quem mal falei durante 17 anos, só porque já fomos casados, conforme a lei judaica?

Resposta:

No judaísmo, não temos cerimônias. Temos cirurgias.

Uma cerimônia é um ato simbólico que marca algo que já aconteceu, mas nada realmente muda do antes para o depois. Considere uma cerimônia de formatura. A formatura aconteceu quando você passou nos exames. A cerimônia apenas a celebra. Se você perdeu, ainda assim se formou.

Uma cirurgia, por outro lado, não é simbólica. Você precisa estar presente e sai diferente. O judaísmo não lida com símbolos. Lida com realidades. Nossos rituais são operações espirituais.

Considere um brit milá. A criança não é a mesma antes e depois. Ela é circuncidada fisicamente e espiritualmente unida em uma aliança com D’us. Isso não é uma cerimônia. É uma cirurgia espiritual.

O mesmo se aplica a um casamento. A chupá não é uma cerimônia; é uma operação espiritual. Sob o dossel, as almas da noiva e do noivo são unidas. Além do vínculo emocional já existente, forma-se uma nova conexão, um vínculo metafísico no nível das almas. Vocês chegam à chupá como dois e saem como um.

Esse vínculo é duradouro. Mesmo que o casal viva separado, suas almas permanecem ligadas. Para dissolver esse vínculo espiritual, é necessária outra operação, o guet, um divórcio judaico. A Torá chama o divórcio de keritut, um corte. Ele rompe a conexão da alma.O relacionamento pode ter terminado há muito tempo, mas sem um guet as almas ainda estão unidas. Isso significa que sua alma não pode se conectar plenamente com outra até que o vínculo anterior seja desfeito. É por isso que o judaísmo não permite que você se case com outro homem até que esse relacionamento seja rompido. E também significa que, quando a alma dele deixa este mundo, a sua também sente.Isso porque o luto judaico não é uma cerimônia. É a resposta da alma à perda.

Familiares próximos são unidos por sangue e por espírito. Pode-se dizer que, quando um deles falece, sua alma deixa este mundo e leva consigo uma parte daqueles que estavam conectados a ele. Lamentamos não apenas a ausência deles, mas também a parte da nossa alma que se foi com eles. É por isso que devemos lamentar até mesmo parentes distantes ou cônjuges separados. O vínculo emocional pode não existir mais, mas o vínculo espiritual permanece. Ele se foi, e com ele se foi aquela parte da sua alma que estava ligada à dele. Você precisa cumprir a shivá, se não tanto por ele, pela parte de você que estava conectada a ele e agora foi libertada.

Que isso lhe traga paz e conforto. A alma dele ascendeu a um lugar lá em cima. Você pode fazer o mesmo aqui embaixo.

Nota:

Negar o divórcio (guet), seja para impedir que o cônjuge se case novamente ou para "forçá-lo" a cumprir a shivá, é cruel e contrário aos valores judaicos. Observe também que a halachá é complexa e nem todos os casos são idênticos. Em caso de falecimento de um cônjuge separado, consulte um rabino sobre como proceder.

Fontes:

Zohar, Parte II, 102b
Arizal Shaar Hamitzvot Parshat Vayechi
Talmud Shabbat 106a: “Quando um membro do grupo morre, todo o grupo deve lamentar