Os Dez Dias de Arrependimento são o santo dos santos do calendário judaico. Eles começam na noite de Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, e culminam dez dias depois com Yom Kipur, nosso Dia da Expiação. Em nenhuma outra ocasião eu me sinto tão próximo de D'us, e suspeito que o mesmo ocorra com a maioria dos judeus.
Esses dias constituem um drama no tribunal como nenhum outro. O juiz é o próprio D'us, e estamos em julgamento pelas nossas vidas. Começa em Rosh Hashaná, com o toque do shofar, o chifre de carneiro, anunciando que a corte está em sessão. O Livro da Vida, no qual nosso destino será inscrito, agora está aberto. Conforme ronunciamos na prece: “Em Rosh Hashaná está escrito, e em Yom Kipur é selado, quem viverá e quem morrerá...” Em casa, comemos uma maçã mergulhada em mel como um símbolo de nossa esperança para um ano novo doce.
Em Yom Kipur, a atmosfera atinge um pico de intensidade num dia de jejum e prece. Confessamos repetidamente nossos pecados, as litanias alfabéticas deles, incluindo algumas que provavelmente não tivemos tempo nem imaginação para abordar. Nós nos colocamos à mercê do tribunal, o que equivale a dizer, ao próprio D'us. “Inscreva-nos,” dizemos, “no Livro da Vida”. E ao final de um dia longo e estressante, terminamos como começamos 10 dias antes, com o som do chifre de carneiro- dessa vez não com lágrimas e temores, mas com esperança cautelosa porém confiante. Admitimos o pior sobre nós mesmos e sobrevivemos.
Abaixo da superfície desse longo ritual religioso está uma das histórias mais transformadoras do espírito humano. O sociólogo Philip Rieff disse que o movimento do paganismo ao monoteísmo foi uma transição do destino para a fé. Ele quis dizer que no mundo do mito, as pessoas eram colocadas contra forças poderosas, caprichosas personificadas como deuses que eram na melhor das hipóteses indiferentes, na pior das hipóteses hostis, à humanidade. Tudo que você podia fazer era tentar propiciar, batalhar ou vencer a eles. Era uma cultura de caráter e destino, e sua expressão mais nobre foi a literatura da tragédia grega.
Os judeus passaram a ver o mundo de maneira totalmente diferente. O Livro Bereshit, Gênesis, começa com D'us fazendo os seres humanos “à Sua imagem e semelhança”.
Esta frase se tornou tão familiar para nós que esquecemos como é paradoxal, pois para a Torá, D'us não tem imagem nem semelhança. Como a narrativa logo deixa claro, o que seres humanos têm em comum com D'us é liberdade e responsabilidade moral.
O drama judaico é menos sobre caráter e fé que sobre vontade e escolha. Para a mente monoteísta, as verdadeiras batalhas não são lá fora”, contra forças externas de trevas, mas”aqui dentro”, entre os anjos maus e melhores de nossa natureza.
Como o escritor Jack Miles disse certa vez, você pode ver a diferença no contraste entre Sófocles e Shakespeare. Para Sófocles, Édipo deve batalhar contra o destino cego, inexorável. Para Shakespeare, escrevendo numa era monoteísta, o drama de Hamlet está entre “a cor nativa da resolução” e “o pálido jogo do pensamento”.
O problema é, obviamente, que quanto temos escolha, com frequência fazemos a errada. Se tivessem uma segunda chance, Adam e Chava provavelmente não pegariam o fruto. Caim poderia trabalhar um pouco mais para controlar sua raiva. E há uma linha reta a partir desses episódios bíblicos até a destruição deixada pelo Homo sapiens: guerra, assassinato, devastação humana e destruição ambiental. Este ainda é nosso mundo hoje. O fator chave sobre nós, segundo a Bíblia, é que somente num universo governado por lei, podemos quebrar a lei – um poder que nós também com frequência deixamos de exercer.
Isso traz um forte dilema teológico. Como vamos reconciliar as grandes esperanças de D'us para a humanidade com nosso registro moral fraco e surrado? A resposta curta é perdão.
D'us escreveu perdão no script. Ele sempre nos dá uma segunda chance, e mais. Tudo que temos de fazer é reconhecer nossos erros, pedir desculpas, fazer consertos e resolver nos comportar melhor, e D'us perdoa. Isso nos permite ter simultaneamente aspirações morais mais elevadas enquanto admitimos sinceramente nossas falhas morais mais profundas. Este é o drama dos Sagrados Dias Judaicos.
No centro de nossa visão está quilo que o escritor pós-Holocausto Viktor Frankl chamou de nossa “busca pelo significado”. As grandes instituições da modernidade não foram construídas para prover significado. A ciência nos diz como o mundo chegou a ser mas não por quê. A tecnologia nos dá poder mas não pode nos dizer como usá-lo. O mercado nos dá escolhas mas nenhuma orientação sobre quais escolhas fazer. As modernas democracias nos dão um máximo de liberdade pessoal mas um mínimo de moralidade compartilhada. Podemos reconhecer a beleza de todas essas instituições, porém a maioria de nós procura algo mais.
O significado vem não dos sistemas de pensamento mas de histórias, e a história judaica está entre as mais incomuns de todas. Ela nos diz que D'us procurou nos tornar Seus parceiros na obra da criação, mas O desapontamos repetidas vezes. Porém Ele nunca desiste. Ele nos perdoa sempre. O real mistério religioso para o Judaísmo não é nossa fé em D'us mas a fé de D'us em nós.
Isso não é, como ateus e céticos às vezes alegam, uma ficção confortadora mas sim o oposto. O Judaísmo é o chamado de D'us para a responsabilidade humana, para criar um mundo que é um lar merecedor da Sua presença. É por isso que judeus com tanta frequência são encontrados como médicos lutando contra doenças, economistas lutando contra a pobreza, advogados contra a injustiça, professores lutando contra a ignorância e terapeutas lutando contra depressão e desespero.
O Judaísmo é uma fé supremamente ativista para a qual o maior desafio religioso é curar algumas das feridas do nosso mundo profundamente fraturado. Como disse Frankl: A verdadeira questão não é o que queremos da vida, mas o que a vida quer de nós.
Esta é a pergunta que nos é feita em Rosh Hashaná e Yom Kipur. Quando pedimos a D'us para nos inscrever no Livro da Vida, Ele nos pergunta: O que você tem feito com sua vida até agora? Já pensou sobre os outros ou apenas sobre si mesmo? Levou cura a um local de sofrimento humano ou esperança onde encontrou o desespero? Você pode ter sido um sucesso, mas também foi uma bênção? Já inscreveu outras pessoas no Livro da Vida?
Fazer essas perguntas uma vez ao ano na companhia de outros desejando publicamente confessar suas falhas, elevados pelas palavras e música de preces antigas, sabendo que D'us perdoa toda falha que reconhecemos como falha, e que Ele tem fé em nós mesmo quando perdemos a fé em nós mesmos, pode ser uma experiência que muda a vida.
É quando descobrimos que, mesmo numa era secular, D'us ainda está aqui, aberto a nós sempre que estamos dispostos a nos abrir para Ele.
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