Por Jay Litvin
Algo estranho aconteceu desde meu diagnóstico meses atrás. Parece que a voz de D’us ficou ainda mais alta. Alta demais, às vezes. Sempre inesperada. Algumas vezes, até intrusa.

Estou sentado tomando uma xícara de café. Resolvi dar-me este presente, alguns minutos sozinho num café para ler e apreciar meu anonimato. De repente, do nada, surge uma sensação, fazendo-me olhar ao redor – tanto dentro quanto fora – para descobrir a causa.
Nada.

Abaixo meus olhos novamente para ler, e a sensação parece diminuir.
Então, surge novamente – desta vez mais forte – fazendo meus olhos arderem.
O que está acontecendo?
Mais uma vez examino meu ambiente, meus pensamentos, uma frase no livro que tenha, talvez, despertado alguma lembrança ou associação de idéias.

Olho em torno, com medo que alguém note as lágrimas em meus olhos, preocupado que a garçonete se aproxime, descubra minha situação, e ponha em dúvida minha sanidade ou meu equilíbrio.

Uma vez mais eu luto para recuperar minha normalidade, prestar atenção às palavras do livro, limpando, quase com violência, as lágrimas dos olhos, furioso comigo mesmo, confuso, assustado.

Ficar tenso com o surgimento dessas emoções infundadas não ajuda a aliviá-las. Elas carregam uma insistência contra a qual eu sou impotente. Submisso, cubro meu rosto com as mãos, e deixo meu coração se expandir, escondendo as lágrimas que rolam uma a uma pela minha face, grato por eu não estar soluçando, mas apenas transbordando com sentimentos mais expansivos do que posso conter, do que meu coração consegue conter.

Encontro conforto na neblina que se forma por trás dos meus olhos. Embora capaz de estancar a experiência, não temo mais que ela vá me tornar indefeso e fora de controle. Respiro profundamente, à medida que minha consciência penetra em meu coração, a fonte dessas sensações e as lágrimas que elas provocam.

E ao fazê-lo, as sensações começam a fluir por todo o meu corpo, animando, fortalecendo os caminhos que elas percorrem. Sem pensar, tiro as mãos dos olhos e os levanto para contemplar o café, a rua, as pessoas, o tempo todo sentindo a umidade nos olhos, o aperto no coração, as sensações pulsando através do meu corpo.

Fico perplexo pela beleza e pela simplicidade, não de qualquer coisa em especial, mas de tudo que parece se mesclar num mosaico abstrato.

Mais uma vez levo as mãos até os olhos, desta vez não para ocultar, mas para recolher-me dos estímulos para um local calmo e quieto onde eu possa alimentar estas sensações, absorvê-las e me deleitar com elas. E então as palavras surgem em meus pensamentos: Na doença a voz de D’us fica mais alta.

Não apenas alta, mas invasiva, respondo. E com um tremor, volto a um estado de espírito mais apropriado àquilo que me cerca, porém ainda frágil demais para levantar-me e caminhar.

Desde que fiquei doente, tenho tido muitas experiências fora do comum. Algumas vezes senti uma extraordinária proximidade com D’us; em outras, uma distância assustadora. Pouca coisa que eu faça parece afetar o relacionamento. Às vezes, D’us está puxando os cordões. Repleto de surpresas, Ele parece Se deliciar em apanhar-me desprevenido. Às vezes eu acho que Ele se aproveita da minha condição, que Ele é oportunista e procura aqueles momentos em que eu menos espero que Ele me visite. É a risada d’Ele que estou escutando?

Mas poderia ser de outra maneira? Se não fosse pela Sua zombaria, eu (ou qualquer um de nós) pararia para escutar? A lógica da minha mente prosaica prestaria atenção ao mundo como ele é, sem considerar como eu me lembro dele? Poderia a beleza estonteante contida no comum ser percebida por olhos que mecanicamente reconfiguram os pedaços num padrão repetitivo desde a infância? Se esta torrente de emoção chegasse quando ponho meu filho pequeno para dormir à noite, então teria sido apropriado. Mas estas experiências, como amor sentado num café, sem rima ou motivo para causá-las, permite-me tocar, mesmo que brevemente, o amor infundado com o qual o Todo Poderoso, aparentemente, preenche e cerca o universo o tempo todo, em todos os lugares, totalmente caprichoso, certamente com um sorriso, e talvez até uma risada… uma risada, que quando experimentada pelo homem, é suficiente para fazê-lo chorar.

Para mim, esta risada é a voz de D’us que fica mais alta em minha doença. É aquilo que ocorre nas rachaduras que a doença provocou na certeza da minha vida. É a surpresa que emerge, à medida que as peças, antes mecânicas, agora se reagrupam de maneiras novas e inesperadas.

A voz não é uma voz, ou pelo menos não apenas uma voz, mas sensações e emoções, visões e sonhos, uma cascata sempre cambiante de perspectivas e compreensões únicas, e sim, a beleza simples de um café repleto de pessoas, localizado numa rua movimentada, barulhenta, cheia de poeira. Uma beleza que, quando contemplada através das rachaduras, acompanhada por um pouco de zombaria e uma risada travessa, simplesmente te deixa de ponta cabeça.

A voz de D’us fala mais alto durante a doença porque ela existe em minha vida, e existem todos os eventos que parecem nos chocar, despertar-nos da arrogância e auto-importância com as quais criamos o mundo segundo o nosso conforto.

Eu escuto a voz de D’us nessas sensações e emoções que brotam nos poucos momentos de relaxamento que busco num café? Ou é apenas o exagero e a dramatização de uma pessoa cuja doença abalou tanto o seu equilíbrio a ponto de provocar ataques emotivos nas horas mais inesperadas?

Isso importa, realmente? Não estamos todos interpretando constantemente nossa existência e experiência, e dando-lhe um significado da melhor maneira possível? Você privaria um homem doente da oportunidade de fingir que ele está encontrando a D’us? Será realmente tão errado atribuir o latejar do meu coração ao amor com o qual D’us preenche o mundo?
Tenho apenas uma queixa, na verdade.

Ora, eu gostaria que D’us pelo menos me deixasse tomar uma xícara de café em paz. É constrangedor sentar aqui, amando o universo, os olhos cheios de lágrimas, fingindo ser uma pessoa normal tomando um café.