Por Steve Hyatt
O sol da manhã estava a alguns minutos de fazer sua espetacular aparição sobre as montanhas debruadas de prata ao redor da minha casa em Reno, Nevada, quando minha mulher Linda e eu abrimos caminho pela passarela do terminal B no Aeroporto Internacional Reno-Tahoe. Naquela manhã estávamos prontos para começar a longa viagem até a cidade de Linda, Pittsburgh na Pensilvânia. Nosso ambicioso plano de viagem incluía um vôo de 6 horas, dando-nos tempo suficiente para chegar e jantar com sua família.

No dia anterior à viagem eu tinha aberto o jornal e consultado a página do tempo para conferir a previsão para Reno e Pittsburgh. Enquanto eu escaneava a página, fiquei contrariado ao descobrir que o nascer do sol não se daria antes das 5:45 da manhã. Um tanto preocupado, telefonei para Rabi Mendel Cunin do Chabad local, perguntando sobre a Halachá que decreta quão cedo pela manhã a pessoa pode começar a rezar. Ele informou que a Lei Judaica decreta que não se pode começar a rezar até 52 minutos antes do nascer do sol. Quando desliguei e ponderei sobre suas palavras, o pânico me envolveu. Fiz um cálculo rápido e vi que nossa partida matinal me impediria de rezar dentro dos limites confortáveis do meu lar, antes de sair para o aeroporto.

A percepção de que eu poderia ter de colocar meu talit e tefilin na frente de centenas, ou mesmo milhares de estranhos era mais do que eu podia suportar. Preocupado, liguei novamente para Rabino Cunin, implorando por alguma espécie de dispensa especial. Ele me disse que se eu queria fazer a coisa certa, não poderia começar a rezar antes de chegar ao aeroporto. Disse também que se eu ficava pouco à vontade com isso, sempre poderia esperar e rezar no avião. Com o sarcasmo emanando de cada poro do meu corpo, eu pensei: "Obrigado, Rabino, esta sugestão é muito, muito melhor."

Ora, não sou tímido por natureza, mas sim, tive momentos difíceis para enfrentar situações desse tipo. Em casa, pouco antes da viagem, enquanto eu ponderava sobre o que fazer, as palavras do meu bom amigo e mentor Rabi Chuni Vogel do Chabad de Delaware pipocaram em minha mente. Em muitas ocasiões ele tinha me lembrado: "Shlomo Yacov, ninguém jamais disse que uma mitsvá tinha de ser fácil!" Minha mente respondia: "Sim, mas ninguém jamais disse que você tinha de cumpri-la na frente de milhares de viajantes estressados, homens de negócio, pessoas estressadas em férias e crianças gritando e sisudos membros da tripulação."

Quando chegamos ao aeroporto na manhã seguinte, fomos saudados pelo que parecia uma fila interminável de viajantes esperando o check-in no balcão da companhia. Quando finalmente abrimos caminho através da segurança, eu tinha me convencido de que simplesmente teria de esperar para rezar até chegarmos, naquela tarde, à casa dos meus sogros em Pittsburg. Quando me sentei no terminal apinhado para ler meu jornal, Linda olhou-me e disse: "Temos cerca de 90 minutos antes do embarque. Você não vai arrumar um local para rezar?"

Francamente, eu não sabia o que dizer. Ali estava ela, olhando-me com olhos inquiridores, e tudo o que eu queria fazer era sair correndo e gritando do aeroporto, porque tinha medo de parecer tolo na frente de estranhos. Mais uma vez o sagaz conselho de Rabi Vogel apareceu em minha mente: "Shlomo Yacov, ninguém jamais disse que uma mitsvá tinha de ser fácil." Olhei para minha mulher, ponderei novamente sobre as palavras do Rabino, e após um profundo suspiro apanhei relutante minha bolsa do talit e fui procurar um lugar "calmo" no aeroporto. Enquanto eu atravessava o terminal, calculei estar cercado por mais de 30.000 metros quadrados de espaço. Mesmo assim, não havia um só lugar que não estivesse lotado de pessoas.

Continuando a andar, percebi que a lanchonete do terminal ainda não estava aberta. Para minha surpresa e alegria, havia uma grande área adjacente à loja que estava totalmente desocupada. Como um homem sedento em busca de um regato fresco, encaminhei-me para a área vazia. Recitei as berachot da manhã, coloquei meu talit, o tefilin no braço e cabeça, e com um sorriso no rosto e uma prece de agradecimento a Hashem por proporcionar-me um oásis espiritual em meio à multidão, comecei a rezar.

Enquanto eu balançava para frente e para trás com o talit cobrindo minha cabeça, literalmente me esqueci onde estava. Não prestava mais atenção ao que se passava em torno, e minha timidez tinha desaparecido. Continuei virando as páginas, recitando as palavras familiares e deleitando-me na oportunidade de cumprir corretamente a mitsvá. "Por que eu estava com tanto medo" – perguntei a mim mesmo. Isso, como gostamos de dizer na família Hyatt, era uma moleza!
Quando concluí minha reza e abaixei o talit da cabeça, fiquei chocado e surpreso com o que vi.
Aparentemente eu estivera tão concentrado naquilo que estava fazendo, que não tinha percebido que a lanchonete fora aberta e agora eu estava cercado pelo menos por umas cem pessoas que mastigavam, tomavam café e liam jornais. Não apenas eu tinha falhado em encontrar o lugar mais calmo do aeroporto, como também dera um jeito de achar o local mais movimentado.

Enquanto eu estava ali de pé como uma estátua num museu, não pude deixar de perceber que nenhum dos fregueses do café estava prestando a menor atenção à minha pessoa. Embora eles provavelmente tivessem lançado um olhar rápido quando chegaram, logo ficou aparente que estavam mais interessados nas manchetes do dia e no sabor do café do que em mim. Ao ver que estava quase na hora de pegar o avião para Pittsburg, tirei meu talit e tefilin e voltei ao portão de embarque.

Quando atravessei o terminal lotado, não pude deixar de me maravilhar pelo fato de ter encontrado aquela pequena área vazia quando procurei. Eu estava convencido de que, se tivesse chegado apenas dez minutos depois, teria visto toda aquela multidão na lanchonete e seguido em frente.
Provavelmente teria dado ouvido aos meus temores, não rezado naquela manhã e me sentido culpado pelo resto do dia. Em vez disso, Hashem me presenteara com uma oportunidade de enfrentar meus receios, superá-los, aprender uma lição importante e cumprir a mitsvá. Descobri que a única coisa que se colocava entre eu e meu desejo de levar uma vida mais religiosa era eu mesmo. Desde que descobri Chabad, tenho tido incontáveis experiências espirituais pela primeira vez. Algumas foram fáceis, outras mais desafiadoras. Mas em cada caso, a alegria e a satisfação que senti após realizar algo que eu jamais sonhara fazer, eram extraordinárias.

Obviamente, rezar num aeroporto não é fácil. Ninguém se levanta pela manhã e procura de propósito maneiras de se sentir pouco à vontade. No entanto, minha experiência na lanchonete ensinou-me que a alegria de cumprir a mitsvá supera muito o desconforto momentâneo do desafio.
Com um sorriso no rosto e uma canção no peito eu trotei até o portão. Linda levantou o olhar do jornal e perguntou: "E aí, foi difícil achar um local sossegado para rezar?" Com um sorriso e uma piscadela, eu disse: "Nenhum problema, foi moleza. A que horas sai o avião para Pittsburg?