Por David Sacks
A decisão fatídica de meu pai abriu portões no Paraíso para seus futuros descendentes.

É uma daquelas histórias em um milhão. Do tipo que meu pai gosta, de fazer o computador entrar em colapso. Tudo começou em1946. Meu pai havia acabado de concluir o serviço militar e estava morando em Los Angeles, uma escolha um tanto exótica para um Newark, um garoto de New Jersey, e estava apenas começando um semestre na Universidade da Califórnia.

Era verão, o novo semestre estava prestes a começar, e meu pai procurava um local onde pudesse se instalar. Foi até o dormitório mais próximo ao campus, pagou o depósito e começou a desembalar suas coisas.

Pouco depois escutou uma batida na porta. Era um dos alunos do último ano que pertencia àquele grupo, uma das repúlicas entre tantas espalhadas pelo campus. Ele rapidamente avaliou a situação, e começou a sugerir que meu pai deveria “procurar um local mais confortável”.

Aquilo pareceu estranho. Meu pai tinha acabado de achar o lugar mais próximo do campus que era possível encontrar – o que poderia ser mais confortável que isto? Meu pai assegurou-lhe que estava feliz ali, mas o homem insistiu, que seria mais agradável ter a sua volta pessoas “mais do seu estilo”. Como exemplo, ele mencionou a república judaica que era próxima.

Ingenuamente, meu pai explicou que tendo servido no exército americano, estivera exposto a todo tipo de pessoas, e gostado – foi até muito gratificante – esta diversidade.
O homem repetiu que meu pai se sentiria melhor em outro lugar, mas desta vez não soou como uma sugestão. Foram suas palavras de despedida. Devolveu o depósito ao meu pai e saiu.
De repente meu pai compreendeu. Judeus não eram permitidos.

Meu pai relembra nitidamente que, enquanto descia as escadas, o jogo de ping-pong travado no salão de recreação parou abruptamente, e todos ficaram num desconfortável silêncio. Assim permaneceu até ele deixar o prédio.

Mas a verdadeira história começa com o que ocorreu depois.

Havia muitos locais onde meu pai poderia ter se instalado logo após este episódio. Embora o anti-semitismo ainda fosse uma forte corrente na sociedade americana, a onda de assimilação estava aberta, levando centenas de milhares de judeus a deixarem seu Judaísmo para trás. Teria sido um momento perfeito para meu pai fazer o mesmo. Afinal, se isso era o que significava ser judeu, então quem precisava disto?

Porém meu pai fez exatamente a escolha oposta. Ele seguiu em direção da comunidade judaica na avenida Gayley, 741, e lá se estabeleceu.

Estamos em Yom Kipur, 40 anos depois. Após uma sucessão de eventos bastante improváveis, eu também acabei em Los Angeles. Morando numa casca de ovo, enquanto estudava em Harvard, eu comecei a escrever para o Lampoon, apesar das escassas probabilidades decidi seguir carreira como escritor de comédias.

Quando me formei, com ainda menores probabilidades de trabalho, voltei ao meu antigo emprego como ascensorista no edifício onde meus pais moravam na esquina da Rua 79 com a Broadway. Então o telefone tocou.

Um show na HBO, "Não Necessariamente Notícias", chamou-me, oferecendo um período de três semanas de experiência na equipe de escritores. (Aquilo levou a um segundo período de experiência, mais três semanas, e finalmente a um contrato de quatro semanas. Aquela foi minha introdução à segurança do trabalho, bem ao estilo Hollywood.)

Eu não fora criado como observante, mas meus pais incutiram em mim um forte senso de identidade judaica. Quando criança, lembro-me de escutar minha mãe recitar o “Shemá” comigo antes de me pôr na cama. Aos oito anos, recordo-me de ter lido histórias chassídicas em "Talks and Tales", uma revista chassídica que um vizinho religioso dera ao meu irmão mais velho como presente de bar mitsvá. Aos 11 anos, comecei a freqüentar o Camping Ramah, um acampamento conservador, e aos 14 lembro-me de ter dançado com um Rolo de Torá na sinagoga de Reb Shlomo Carlebach em Simchat Torá, sentindo-me absolutamente completo e sabendo que tinha me conectado com a essência de minha vida.

Nos anos seguintes, eu sempre quis agir mais judaicamente, porém de alguma forma permiti-me ficar estagnado.

Então chegou Yom Kipur.

Embora eu não fosse "religioso", queria ir a uma sinagoga ortodoxa para a qual pudesse caminhar. A mais próxima naquela época era a Chabad de Westwood. Ao final de um longo dia de serviços, Rabino Baruch Cunin concluiu com uma declaração de que todo judeu do sexo masculino acima de 13 anos deveria colocar tefilin diariamente, exceto no Shabat, e que toda mulher judia devia acender velas de Shabat antes do pôr-do-sol das sextas-feitas. Tudo que eu conseguia pensar era – ele está certo. Eu possuía tefilin. Já os colocara durante o acampamento de verão, aquilo era tudo, Mesmo assim, eles eram incrivelmente preciosos para mim. Aonde quer que eu fosse, mesmo que apenas para o fim de semana, sempre os levava comigo. "Quem sabe?" pensei. "Talvez eu queira colocá-los, e se não estiverem comigo, o que farei?"

Após aquele Yom Kipur, comecei a colocar tefilin e jamais parei.

Aquela mitsvá transformou minha vida. Não demorou muito, e eu estava guardando o Shabat, casando-me com uma maravilhosa moça judia e enviando meus filhos à yeshivá.
E agora, a parte que ainda continua a me surpreender. Aquele fatídico encontro na Chabad House em Yom KIpur aconteceu na Avenida Gayley, 741, o local exato da república judaica da universidade onde meu pai tinha reafirmado seus vínculos judaicos 40 anos antes.

É incrível o quão precisamente D'us governa o mundo. Além desse sincronismo, porém, creio que há uma lição ainda mais profunda. Quando fazemos algo sagrado, não somente elevamos a nós mesmos e nosso passado, como também abrimos portões no Céu para o nosso futuro, e não apenas o nosso – mas de nossos filhos e dos filhos de nossos filhos até o final dos tempos.
Aprendi com Rabi Simcha Weinberg que quando vivenciamos momentos de transcendência, devemos usá-los para rezar pelos nossos futuros descendentes.

Não sei se consciente ou inconscientemente, meu pai me tinha em mente quando reafirmou seu compromisso de ser judeu, mas sou a prova viva de que ele abriu para mim portas que continuo a atravessar até hoje.

Pouco depois de eu escrever este artigo, meu pai, Dr. Leonard Sacks, Leib ben Tzvi Hirsh HaLevi, deixou este mundo. Que esta seja uma elevação para sua alma.