Por Chana Weisberg
A incongruência de dois eventos era muito fulgurante para ignorar. Nossa participação em um brunch de Sheva Berachot na manhã de domingo foi planejada com bastante antecedência. Na noite anterior, só fomos dormir quando todos os arranjos tinham sido providenciados: babá, transporte e outros detalhes. Acordamos, no entanto, com a notícia do funeral da mãe de uma amiga, marcado exatamente para o mesmo horário.

Por um lado, uma celebração marcando a promessa de um novo início, de uma vida em conjunto repleta de potencial, sonhos e esperanças. De outro lado, uma cerimônia marcando uma perda, o final da vida como conhecemos aqui em nosso mundo, uma separação impenetrável entre pessoas que se amam.

No dia anterior, esta amiga tinha feito uma reunião de estudos no Shabat em sua casa, comemorando o yahrtzeit de seu pai, que tinha falecido um ano antes naquela data. Ela pediu que os estudos de Torá fossem feitos também em mérito da sua mãe, por uma rápida recuperação de sua doença. Ela falou sobre o ano que tinha passado desde a morte do pai, de certa forma encerrando um período de cicatrização da ferida.
Agora, bem quando a dor da perda estava diminuindo, a ferida era aberta novamente, e ela tinha de enfrentar a morte da mãe. Apenas na véspera, ela estava cheia de esperança com a recuperação da mãe de uma doença, e hoje estava sentindo o choque arrasador pela sua perda irreversível.

Neste domingo, eu estaria participando desses dois eventos. Deixaria para trás os sorrisos, espíritos alegres e risos joviais dos noivos, para tentar transmitir empatia e compaixão aos enlutados que estariam em lágrimas, desolação e luto.

Fiquei ali de pé na porta da minha casa, acenando uma despedida para o meu bebê.
"Mamã vai tchau", anunciou Sara Leah, surpreendendo-me mais uma vez com seu recém-adquirido talento de combinar mais de uma palavra em frases simples, mas completas. Há poucos dias estávamos celebrando a primeira palavra de Sara Leah, "Mamã", e agora, ela estava progredindo depressa a um vocabulário maior e talentos de linguagem.

Percebendo intuitivamente como sua mãe estava orgulhosa, e esforçando-se para manter minha atenção concentrada nela e não na porta, Sara Leah astutamente continuou a demonstrar seu talento dramático, graciosamente entoando "Torá, Torá, Torá siva…"

Sara Leah estava cantando uma de nossas canções favoritas – que cantamos juntas todas as manhãs, como fazem milhares de pais e filhos judeus em todo o mundo. As palavras são de um versículo fundamental da Torá, Torá tzivah lanu Moshe morasha kehilat Yaakov – "Moshê nos ensinou a Torá: esses ensinamentos são um legado para os filhos de Yaacov."

Ouvir Sara Leah cantar nossa canção especial lembrou-se de outra amiga, Rachel, que tinha me repreendido furiosamente ao me ouvir ensinando este versículo ao bebê.

"Chana, você é uma mulher esclarecida", Rachel começou sua tirada. "Como pode fazer lavagem cerebral em sua filhinha com essa propaganda? E tão novinha, ainda por cima? Pelo menos deixe a criança ficar um pouco maior e pensar primeiro por si mesma! As primeiras palavras que ela memoriza têm de ser estes slogans de fé?" explodiu minha amiga.

Agora, ali de pé à porta da minha casa, cheia de orgulho maternal pelas crescentes habilidades da minha filha, preparando-me para ir a um sheva brachot e depois apressar-me para comparecer ao funeral, pensei sobre a fragilidade de nossa vida.

Num momento, estamos repletos de esperança, e no próximo temos sentimentos de desespero e futilidade. Nosso riso alegre e os sorrisos se transformam facilmente em lágrimas de desapontamento e gritos por uma perda.

Todo o pai quer proteger seu filho dos sofrimentos da vida. Desde o primeiro instante em que seguramos aquele corpinho junto ao nosso, prometemos guardá-lo dos golpes e tristezas da vida, mesmo sabendo como nosso poder é limitado para cumprir nossa promessa. Apesar de nossas melhores intenções, os ventos da vida continuarão a soprar fortemente, trazendo com eles o bem e o mal, os sonhos realizados mas também as perdas.

Ali de pé na entrada com minha filha, a ponto de viver a incongruência desses dois eventos contrastantes, ocorreu-me como é importante gravar este versículo da Torá na minha filha. Embora eu não possa salvaguardar meu bebê, ou nenhum dos meus filhos, das perdas inevitáveis da vida, eu posso inculcar nela o poder da fé – uma fé que aprofundará nela a apreciação pelos tempos felizes e lhe dará força para resistir aos difíceis.

Posso instilar dentro dela a confiança, a certeza, a certeza absoluta, de que há um D'us que orquestra os funerais e as celebrações. Em seus primeiros anos, à medida que sua mente forma os axiomas mais básicos, posso ajudá-la a definir-se como filha de D'us, cujos caminhos talvez ela não entenda às vezes, ou com os quais talvez não concorde, mas mesmo assim, ela sabe que Ele está lá assistindo e protegendo-a o tempo todo, em todas as circunstâncias.

Como mãe, armada do firme senso de proteção materno, não consigo pensar num presente melhor para minha filha que este eterno legado de Yaacov.

É uma herança que estará com ela aonde quer que a vida a leve. Um legado que permanece, num mundo onde um sheva brachot pode ser seguido por um funeral.