Por Melody Masha Pierson
Sou insone de carteirinha (há muitos anos) e como tal, já precisei recorrer a medicamentos para dormir, que não funcionam, mas na verdade nunca considerei certo ser "viciada" neles. Tudo bem, sei que há coisas piores, mas mesmo assim não me orgulho disso.

Tentei todos os rituais para dormir recomendados pelos profissionais. Luzes fracas, não fique no quarto até que seja hora de dormir, tome um banho, ouça música suave ou sons da natureza. Nada. Nadinha. Nada disso funciona. Estou acordada. Sem aquelas pílulas, eu seria um zumbi ambulante.

Ora, numa noite desafortunada, precisei ir ao hospital por causa de alguns problemas no pulmão que estava sentindo. Foi um frenesi de excitação e por aí vai; não muito agradável para ninguém e, obviamente, eu ainda estava acordada para tudo, sedada ou não, nada me derrubava. Eu estava exausta. Com dor, medicada, exausta, mas desperta. De que maneira pode haver mais um agravante?

Um dia depois, uma das mulheres que ajudam a cuidar da sinagoga, Henya, foi visitar-me e levou fitas cassete com as palestras do meu Rabino, juntamente com um toca-fitas portátil e fones de ouvido. Sabe, foi engraçado. Havia tanta coisa acontecendo naquele quarto, com medicação intravenosa e todo o aparato que existe nestes lugares, mas agora eu tinha um toca-fitas e fones de ouvido.

Vamos direto ao assunto. É noite. Não consigo dormir. Estou com dificuldade para respirar. Há outros pacientes neste quarto. O que vou fazer? Os médicos não me dão mais qualquer medicação. Procuro e encontro a bolsa com o toca-fitas, os fones de ouvido e as gravações; arrumo tudo e aperto o PLAY.

Não me lembro o tema da palestra. É muito provável que eu mesma já a tenha ouvido quando freqüentava as aulas do Rabino, que por falar nisso, eram e ainda são estimulantes e divertidas, e de forma alguma entediantes. Quero dizer, você precisa ouvi-lo falar. Você deve. Isso é algo que sempre digo a qualquer pessoa que cruza o meu caminho Vá assistir à aula do Rabino. Não vai se arrepender. É impressionante. Ele é maravilhoso.

Então aqui estou eu no hospital, penhoar verde, uma intravenosa e respirando mal, sem conseguir dormir e ouvindo os outros pacientes roncarem, tendo um toca-fitas pedindo para ser ligado. Pelo menos, raciocino, aprenderei mais alguma coisa. Talvez haja algum conhecimento oculto nesta palestra que não entendi da primeira vez.

O oxigênio está ligado, mexo devagarinho o braço livre e coloco os fones de ouvido. Encaixo a fita, aumento o volume e finalmente aperto PLAY.

Escuto o Rabino começando a falar sobre alguma coisa. Francamente, enquanto escrevo isso, não consigo me lembrar qual era o tema. Porém lembro-me de ter escutado. Lembro-me de ter ouvido sua voz; a entonação, a pronúncia, as pinceladas de yidish e hebraico e o som melodioso das palavras. Ouço seu tom e timbre de voz. Escuto quando ele faz algumas pausas para respirar, ou pensar sobre o que vai falar em seguida.

Escuto, escuto, de olhos fechados. E caio num sono profundo. Estou dormindo e respirando, os fones de ouvido e o toca-fitas ainda ligados. E quem se importa e quem sabe porquê, mas o rabino me fez dormir.

Pode-se dizer algo sobre aquilo que o corpo precisa. Quando a alma está alimentada, o corpo paga na mesma moeda. Quando meu ser está comprometido por algo físico ou emocional e não estou me sentindo "bem", aprendi que minha melhor fonte de "remédio" num nível praticamente cósmico é o som da voz do rabino, ensinando Torá.

Tenho certeza de que há explicações bastante científicas para isso. Não estou particularmente interessada. Na verdade acho um tanto intrigante o fato de ser preciso uma dose cavalar de remédio para me derrubar, mas apenas 5 minutos do Rabino para me fazer dormir. E, devo confessar, um sono excelente, profundo.

Esta deve ser uma combinação de elementos celulares, orgânicos, cósmicos e Divinos que fazem a pessoa sentir-se em casa, no lugar perfeito, onde todas as coisas se combinam com equilíbrio.

Meu rabino me pôs para dormir. Agora, isso é empolgante.