Por Melody Masha Pierson
Estes dias têm sido muito movimentados. Tenho recebido bastante atenção por causa de uma doença que estou enfrentando, Obstrução Pulmonar Crônica – OPC. Nos últimos dias só tenho falado sobre isso, sendo entrevistada pela televisão e mídia impressa.

Ali estava eu, ao vivo na TV e nos jornais, com palavras e imagens, minhas e dos jornalistas, explicando como pessoas com OPC lidam com a vida diária. Talvez meu caso fosse um pouco mais atraente para a mídia porque estou esperando um transplante duplo de pulmão. Isso atrai as manchetes, se você entende o que quero dizer. Além disso, sou relativamente jovem (49 anos) e falo os dois idiomas oficiais aqui em Montreal, Quebec.

Em seguida, recebi e-mails e telefonemas e fui almoçar com algumas amigas que não via há 25 anos ou mais. Foi um almoço maravilhoso, não tenho como explicar como o tempo pára quando estamos com aqueles que amamos, e assim foi este almoço. Algumas delas não sabiam que eu estava lutando contra uma doença tão grave, mas não nos concentramos nisso. Apenas trocamos reminiscências e rimos, conversando sobre política, religião e tudo que acontecera a todas nós.

Francamente, foi um intervalo delicioso sobre este foco quase interminável na minha saúde. Fiquei muito feliz por ter minhas amigas ao redor. Pensei que aquela era a melhor parte do dia. Não foi apenas o artigo no jornal ou a cobertura da TV que visava às pessoas educadas, mas sinceramente, a certa altura, eu senti que tinha uma voz novamente.

Mais tarde naquele dia, uma amiga relativamente nova veio aqui em casa para um café. Conversamos sobre os acontecimentos do dia, sobre a entrevista, e então passamos a conversar sobre nossos filhos. Ah, falar sobre os filhos. Fiquei contente em dizer a ela que nenhum dos meus filhos (20 e 22 anos) tinha visto o artigo no jornal ainda, ou a entrevista na TV. Eu estava contente porque não queria que eles se assustassem. Achei que ver minha vida e minha batalha mostrada na TV não seria bom para seu senso de segurança. Proteger os filhos. Esta parecia ser a maneira certa de fazer as coisas.

Enquanto conversávamos, o telefone tocava, surgia outro e-mail e começamos a discutir assuntos de vida e morte. Eu estava calma, realmente calma. Estou acostumada a isso. Tinha acabado de fazer um discurso e várias entrevistas. Eu estava calma. E de qualquer forma, agora falávamos sobre nossos filhos.

Então a campainha tocou. Abri a porta e ali estava uma vizinha que morava no final da rua. Trazia uma planta embalada com um cartão e colocou o pacote nos meus braços. Ela disse: "Vi você na TV a noite passada. Você é tão corajosa. Cuide-se…" Eu fiquei perplexa. Creio que disse "obrigada". Entrei com a planta e olhei o cartão. "Querida Melody, você é tão corajosa. Meus melhores votos de boa saúde. Carinhosamente…"

Comecei a chorar. Há apenas alguns anos, esta mulher perdera o filho de maneira horrível. Lembrei-me da ambulância na frente da casa dela. Lembrei-me dos dias em que a via passando por ali. Senti-me muito mal por ela. Não podia imaginar o que é perder um filho, algo além do imaginável em termos de sofrimento. Porém eu nunca disse nada para ela esse tempo todo. Era a vizinha do final da rua a quem eu dizia bom dia quando ela passava, perguntando-me como ela estava se sentindo. Mas nunca perguntei. Afinal, eu não a conhecia realmente. Era apenas a vizinha do final da rua.

E ali fiquei eu, soluçando em cima da planta e do cartão, com minha amiga que tinha vindo tomar um café. Por quê? Como eu sou corajosa? Esta mulher tinha passado por muito mais do que eu podia imaginar. Minha amiga, sabiamente, disse: "Creio que ela compreende o sofrimento e conhece a coragem, e quis que você soubesse que ela se importa, que esteve aqui."

Ou seja, ela "agiu". Fez alguma coisa. Veio aqui e colocou o lindo pacote nos meus braços e desejou-me o melhor. Deu-me um pacote de amor, força e ternura, e tocou-me tão profundamente num lugar que eu nem sabia que tinha. Ela conectou-se comigo. Cumpriu a mitsvá de bicur cholim, de visitar e consolar aqueles que não estão bem. Ela cumpriu o mandamento. Ora, eu acho que ela cumpriu mais de um.

Enquanto escrevo isso, um senso de gratidão e reverência rodopia ao meu redor. Não sei bem como agradecer a ela. Não testou certa de que ela sabe como mudou meu mundo com a sua bondade.

Apenas uma vizinha no fim da rua. Apenas alguém que mostrou a outro ser humano o que carinho e bondade podem fazer.

James Barrie, escritor, disse certa vez: "Seja sempre um pouco mais bondoso do que tem de ser…" Ele estava certo.