Conforme relato feito a Sara Esther Crispe
Tive uma boa infância. Venho de uma família amorosa, com pais ótimos e bons amigos. Formei-me com honras e freqüentei uma universidade de elite, e quando terminei os estudos conquistei um excelente emprego. Basicamente, eu tinha tudo e a vida parecia muito fácil.

As coisas ficaram ainda melhores alguns anos depois quando encontrei o amor da minha vida e decidimos nos casar. O meu casamento parecia um conto de fadas, com damas de honra perfeitas, um vestido lindo e a cerimônia feita numa tarde ensolarada com vista para a praia.

Durante os primeiros anos de nosso casamento, continuei a trabalhar em período integral e meu marido, que tinha um ótimo cargo, foi então promovido a vice-presidente da empresa, e recebeu um aumento respeitável. Com seu novo salário, parecia que tinha chegado a hora de tentarmos ter um bebê.

Consultamos o calendário, como tínhamos feito antes de marcar a data do casamento, e encontramos a data que parecia ser perfeita. Vimos que se quiséssemos ir ao Havaí em maio, provavelmente teríamos de esperar até junho para eu engravidar, então eu daria à luz por volta de março, na primavera, época ideal.

Mal sabia eu que minha vida perfeita, meus planos perfeitos e a gravidez perfeita existiam apenas nos meus sonhos.

Fomos ao Havaí e a viagem foi fantástica. Começamos então a tentar conceber. Eu pensei que engravidar seria tão fácil para mim como tudo o mais tinha sido em minha vida. Afinal, quando eu realmente queria algo e trabalhava por aquilo, tudo parecia sempre dar certo. Então tentamos, passaram-se alguns meses, e nada aconteceu. Eu fiquei um pouco surpresa, mas nem um pouquinho preocupada. Quando muito, meu maior temor era que se eu não engravidasse logo, não daria a luz até o verão, e eu não queria estar grávida no calor.

Mais meses se passaram. Então um ano. E dois, três quatro, cinco.

Durante este tempo fomos a todos os médicos possíveis. Nada havia de errado, pelo menos nada que pudessem encontrar. Os médicos não estavam ansiosos, pois afinal eu ainda era jovem. Relativamente.

Eu não me importava se era jovem, não me importava se ainda tinha tempo. Tudo que eu queria era um bebê, e estava querendo um bebê há anos. O estresse, tanto emocional quanto o físico com tantas consultas e tratamentos médicos, era esmagador. Meu marido era carinhoso e me dava apoio, certamente era difícil para ele, mas não creio que ele pudesse entender o que significava para mim quando eu ficava menstruada todo mês. Ele sabia que significava que eu não concebera, mas jamais poderia saber como eu me sentia quando meu estômago doía e então aquilo começava, e então eu tinha de olhar para aquele sangue cruel, lembrando-me que eu não estava grávida.

Após seis anos de tentativas, finalmente engravidei. Ficamos extasiados. Eu não conseguia acreditar que estava realmente carregando um bebê. Parei imediatamente de trabalhar, pois queria assegurar que poderia dormir quando tivesse sono, comer aquilo que precisava e não ter qualquer estresse desnecessário em minha vida. Felizmente, meu marido estava indo muito bem financeiramente, portanto eu não precisava trabalhar por razões monetárias.

À medida que as semanas passavam, eu via meu corpo começar a mudar. Primeiro tudo parecia tão macio, depois notei aos poucos um pequeno inchaço na barriga. Com o passar dos dias, a cintura foi engrossando. Eu estava encantada com o meu bebê e com a gravidez. Toda manhã, eu acordava com um sorriso no rosto, grata por ser capaz de carregar esta criança. Já tínhamos escolhido nomes. Eu já estava procurando carrinhos de bebê e lojas de roupas.

Todos estavam empolgados. Por volta do quarto mês, era óbvio que eu estava esperando e onde quer que eu fosse, as pessoas falavam sobre isso. Eu sempre fora muito discreta sobre as dificuldades que tínhamos para engravidar. Eu não percebi que enquanto estávamos fazendo de tudo por um bebê, os outros apenas presumiram que decidíramos esperar. Agora que era aparente, comecei a ouvir os comentários. "Uau, vocês finalmente decidiram ter um filho!" Eu não sabia como reagir. Não podia acreditar que os outros pensavam que essa fora minha opção. E outra vez, antes que eu soubesse o quanto seria difícil, eu também pensava que tudo estava em minhas mãos.

Eu fazia tudo certinho. Comia os alimentos indicados, fazia a quantidade recomendada de exercício, dormia bem e tomava as vitaminas diariamente. Ia às consultas médicas como um relógio, e todos ficavam aliviados ao descobrir que tudo estava exatamente como deveria estar. Quando ouvimos os batimentos cardíacos do bebê pela primeira vez no consultório, nós dois choramos, Tínhamos esperado tanto por isso.

À medida que a data do parto se aproximava, eu lia todos os livros sobre trabalho de parto que conseguia. Eu conhecia cada termo médico e estava confiante no médico que escolhera. Minha mãe tinha vindo para ficar conosco para ajudar com o bebê. Meus sogros também estavam por perto para assegurar que cada capricho meu fosse satisfeito.

Eu sabia que mães pela primeira vez não dão à luz na data programada, portanto fiquei chocada quando na manhã exata minha bolsa rebentou. Meu marido brincou que nossa filha parecia estar seguindo os meus passos – sempre pontual e muito organizada.

Esperamos até as contrações chegarem com cinco minutos de distância, e então fomos para o hospital. Tudo era rotina. Tudo corria bem. Eu estava progredindo conforme o esperado e pela intensidade do trabalho de parto achei que não demoraria muito.

As enfermeiras eram prestativas e tentavam afivelar corretamente o monitor para checar os batimentos do bebê. Eu estava com 8 centímetros e todos diziam como eu estava indo bem. Mas por algum motivo eles não conseguiam ler o monitor. Tentaram de diversas maneiras antes que um olhar de preocupação passasse pelo rosto deles.

Antes que eu soubesse o que acontecia, aquele ambiente calmo tornou-se frenético e à beira do pânico. Comecei a chorar e a rezar, não sabendo o que estava acontecendo. Fui levada à ala cirúrgica para uma cesárea de emergência. Não havia tempo para explicar, mas estava claro que eles tinham de tirar o bebê imediatamente.

Eu não sentia dor, embora isso não fizesse sentido porque não houvera tempo para me dar muita anestesia. Mesmo se doesse, eu não me importaria, pois tudo que eu desejava era que minha filha estivesse viva e saudável.

Meu marido estava de pé num canto, chorando, sabendo que precisava ser forte mas temendo não conseguir. Eles fizeram a incisão e os médicos gritaram um ao outro sobre o cordão. Assisti num estupor enquanto eles tentavam desenrolar o cordão que rodeava minha filha. Eu podia vê-la, mas ainda não a escutara. Ela não chorou.

Continuei esperando que removessem o cordão, pois achei que era isso que a impedia de chorar. Naquele momento ninguém sabia ainda, mas o cordão se enrolara tão apertadamente ao redor do seu pescoço que ela fora estrangulada. Eles retiraram o cordão. Porém minha filhinha não estava mais lá.

Ninguém precisou dizer-me o que tinha acontecido. As lágrimas que rolavam pelos rostos foram o suficiente. Os médicos choravam enquanto tentavam explicar que quando ela desceu pelo canal de nascimento, o cordão apertou cada vez mais. Não havia nada que eles pudessem ter feito. Não havia nada que eu pudesse ter feito.

Perguntaram se eu queria ver e segurar meu bebê. Eu disse que sim. Nós dissemos que sim. As enfermeiras a lavaram e vestiram, com amor e carinho. Então me entregaram a minha filha, calma e linda, como se ela estivesse dormindo.

Ficamos um pouco com nosso bebê, segurando-a e chorando. Ela era perfeita. Tudo estava desenvolvido, dez dedinhos nas mãos e dez dedinhos nos pés. Ela era exatamente como eu a imaginara. Só que não estava viva.

Decidimos chamá-la de Bracha, que significa bênção, pois sentíamos que apesar de todo o nosso sofrimento, ela foi realmente uma bênção, e rezamos para que nossa viagem com ela fosse também o início de futuras bênçãos. Quando sentimos que havíamos nos despedido, beijei minha Bracha e entreguei-a à enfermeira.

Não posso explicar, mas não era desespero. Eu não estava histérica. Estava desolada, mas não de uma maneira destrutiva. Estranhamente, eu senti que meu tempo com Bracha tinha sido completo. Lá no fundo, eu de alguma forma sabia que ela tinha vivido pelo tempo exato que precisara. E embora aquela fosse a experiência mais excruciante que eu vivera, senti que tinha sido abençoada por ter podido carregá-la, amá-la e tê-la por nove meses. Tínhamos sido abençoados por vê-la, segurá-la e dizer a ela que a amávamos.

O mais estranho era que esta força não vinha de dentro. Meu marido e eu sabíamos que Bracha estava nos ajudando a passar por tudo e era responsável por esta atitude. Embora eu possa ter desejado passar o ano seguinte na cama chorando e sentindo pena de mim mesma, Bracha instilou-me um senso de objetivo e responsabilidade que até então eu jamais tivera.

Poucos dias depois deixei o hospital, uma mãe sem um filho. Porém sendo mãe, eu estava repleta de amor e carinho, que precisavam ser doados. E eu sabia que precisava encontrar uma criança ou crianças para partilhar aquele amor.

Depois da nossa perda, tentamos novamente ter filhos. Mas qualquer que seja o motivo, nunca mais engravidei. Porém Bracha era nosso lembrete de que precisávamos ter esperança e precisávamos dar esperança.

Eu achava que se tinha sofrido uma experiência assim, deveria haver um motivo e um significado. Eu sabia o quanto eu amava Bracha, e sabia como eu teria cuidado dela se estivesse viva. E mesmo assim, enquanto eu pranteava a minha perda, lia horrorizada histórias de mulheres que tinham abandonados seus bebês, deixado que morressem, ou os maltratado terrivelmente. Aqueles bebês eram mais afortunados que Bracha, pois conseguiram viver, mas algo tinha de ser feito para assegurar que ele teriam uma vida de alegria e não de sofrimento.

Além disso, toda aquela experiência aproximou ainda mais meu marido e eu do Judaísmo, pois durante a gravidez sentimos o desejo de ter um significado espiritual em nossa vida. Nosso estudo de Torá e cumprimento prático deu a nossa vida a estrutura e segurança para um período que de outra forma teria sido difícil e traumático. E com nosso estudo, começamos a entender e acreditar que nossa provação tinha um propósito mais elevado, embora nos fosse difícil enxergar.

Conversamos com nosso rabino sobre nossa decisão de dedicar tempo e energia para ajudar crianças. Ele sugeriu que eu entrasse em contato com uma organização judaica que cuidava de crianças cujos pais tinham morrido ou não podiam cuidar delas. Dentro de uma semana, eu estava trabalhando com os bebês. Meu novo emprego de tempo integral era cuidar dessas preciosas almas, alimentando-as, banhando-as, brincando com elas e lhes dando amor.

Jamais esquecerei a primeira vez que uma dessas crianças me abraçou e me chamou de "mamãe". Eu quis corrigi-lo, dizer que eu não era sua mãe, mas então percebi que na verdade eu era. Para elas, eu era a mãe. E para mim, elas eram meus filhos. Não, eu não as dera à luz, mas tinha lhes dado segurança, amor e os cuidados que eu teria dado à minha própria Bracha. E Bracha tinha me dado a capacidade de fazê-lo.

Trabalho com essa organização há mais de 20 anos. Mês que vem, Bracha completaria 21 anos. No decorrer desses anos, tenho ajudado a criar centenas de bebês lindos e preciosos, e vi-os crescer e se tornarem jovens adultos.

Há vinte e um anos Bracha fez de mim uma mãe. Porém foram as crianças às quais dediquei o resto da minha vida que me fizeram uma mamãe. E graças à esperança e capacidade que minha Bracha instilou em mim, agora posso orgulhosamente receber o título de Bubby (vovó), pois uma das meninas que criei acaba de ter sua primeira filha.

Você pode imaginar como chorei quando segurei nos braços a menininha enquanto davam a ela um nome na Torá. E a chamaram de Bracha.