Por Professor Jonathan Sachs, Rabino Chefe da Inglaterra
Adeus 2003. Você deu o melhor de si, mas não foi um ano dos melhores. Foi o ano da guerra no Iraque e do terremoto no Irã; o ano no qual Vladimir Putin e George Bush fizeram visitas oficiais à Grã-Bretanha, lembrando-nos como mudou a paisagem política, mas também da violência no Zimbabwe e terror em Istambul, lembrando-nos que continuamos os mesmos. Maio viu o Mapa da Paz no Oriente Médio, mas viu também a publicação de um mapa rodoviário de Londres impresso de cabeça para baixo, com o sul na parte superior, presumivelmente para o benefício das pessoas que enxergam o mundo de cabeça para baixo.

E – saiba você – talvez o façamos. Às vezes faço uma pequena experiência quando estou fazendo uma palestra sobre felicidade. Seguro uma folha de papel em branco com um pequeno ponto negro no centro, e pergunto às pessoas o que elas vêem. Todos dizem: um ponto preto. Digo então que aquele ponto representa menos de um por cento da página. Eles deixaram de ver os noventa e nove por cento do papel que está em branco.
É por isso que as más notícias são notícia, ao passo que as boas novas raramente são notadas. Somos geneticamente condicionados a perceber as coisas diferentes, discrepantes ou incomuns. O próprio fato de que notamos o mal nos diz que estamos rodeados pelo bem. É que simplesmente não o percebemos, assim como não vimos o papel em branco ao redor do pontinho negro. Se as boas notícias se tornarem novidade, então teremos motivos para nos preocupar.
Portanto, este ano, por que não tentar ver o mundo na posição certa? Vá a algum lugar sem seu telefone celular. Observe as crianças num parque, chutando as folhas caídas e lembre-se como o mundo parecia quando você tinha aquela idade, e saiba que ele não mudou; por que então você deveria?

Quando você estiver num engarrafamento no trânsito, sorria. Isso o animará, deixará todos furiosos, e o fará lembrar que o humor é sempre mais humano que a raiva. Na próxima vez em que for bombardeado por propaganda lhe dizendo aquilo que você ainda não tem, lembre-se daquilo que tem: o puro milagre de que estamos aqui, que o mundo é aqui, e temos o privilégio de vê-lo.
Respire fundo e deixe o encanto do mundo dominar você. Lembre-se que o maior dos atos criativos de D'us, o mundo, é bom. Ou como declarou W. H. Auden numa frase encantadora: "Na prisão de seus dias, ensine o homem livre a louvar."