Por Professor Jonathan Sachs, Rabino Chefe da Inglaterra
Acabei de chegar de uma das missões mais comoventes que jamais participei. Fomos a Israel com dois cantores e um coro para elevar o espírito das pessoas com canções.

Visitamos escolas, lares de idosos e centros comunitários, porém o mais importante, fomos a hospitais passar algum tempo com as vítimas dos ataques terroristas e suicidas. Foi de cortar o coração ver crianças mutiladas para o resto da vida porque o ônibus no qual iam para a escola tinha explodido, matando seus amigos e mudando sua vida para sempre.

Um tinha perdido a família quando uma bomba explodiu no restaurante onde estava almoçando, e ele agora estava cego. Uma garotinha sorriu bravamente para nós e disse que estava indo bem. Estivera na UTI por uma semana, e os médicos nos contaram que se a ambulância que a levara ao hospital tivesse demorado mais alguns minutos, ela teria morrido.

Cantamos em memória de Yoni Jesner de Glasgow, de 19 anos e um dos nossos melhores líderes jovens, que morreu num ataque suicida num ônibus em Tel Aviv. Dedicamos um concerto ao falecido David Applebaum, um pioneiro em Medicina de Emergência que salvou a vida de muitas vítimas do terror, judeus, cristãos e muçulmanos.

Homem profundamente religioso, Applebaum dedicou sua vida a salvar vidas. O dia seguinte ao de sua morte teria sido um dos mais felizes – o casamento de sua filha. Ele a tinha levado para tomar um café na noite anterior, quando uma bomba explodiu. Em vez de ficarem juntos sob a canópia nupcial, eles foram queimados juntos.

O terror chega às manchetes por um momento e então a atenção da mídia se volta para outra coisa. O que nos abala é ver o que fica para trás – os ferimentos, as cicatrizes, as vidas despedaçadas, o trauma e a dor que jamais passará por completo. As crianças que conhecemos e que não estiveram envolvidas em alguma tragédia pessoal, todas têm amigos ou parentes que passaram por isso. Elas foram corajosas, mas este é um assunto que não gostam de comentar. É doloroso demais.

Foi quando eu percebi que este é o supremo terror – não a violência e a morte em si, mas o fato de ser tão aleatória, atingindo o inocente sem qualquer motivo, pois não há nada que o terror tenha conseguido que não seja melhor conseguido por outros meios. É a destruição pela destruição pura e simples.

Não havia nada que pudéssemos dizer, por isso tocamos música em vez de palavras, e isso fez muita diferença. Há uma esperança, um júbilo, uma afirmação que pode ser expressa numa canção e não pode ser comunicada de qualquer outra maneira. Se as palavras são a linguagem da mente, então a música é a linguagem da alma. De alguma maneira misteriosa, quando o ritmo e a melodia envolvem você com seu abraço, o espírito voa livre.

E portanto cantamos com os feridos e os abandonados. Dançamos com pessoas em cadeiras de rodas. O garoto cego cantou um dueto com o membro mais jovem de nosso coro, levando as enfermeiras e ou outros pacientes às lágrimas.

Alguma coisa fluía entre nós e por um breve e abençoado momento as crueldades do destino pareciam bem distante dali. Beethoven escreveu no manuscrito do terceiro movimento de seu quarteto em Sol Menor as palavras Neue Kraft Fühlend: "Sentindo uma nova força". Era isso que eu sentia naquelas enfermarias dos hospitais.

O que há na música que a torna um sinal de transcendência?

Roger Scruton escreve que é "um encontro com o tema puro, libertado do mundo de objetos, e se movendo em obediência somente às leis da liberdade." Ele cita Rilke: "As palavras ainda vão suavemente na direção do indizível/ E a música, sempre nova, de pedras palpitantes,/constrói no espaço inútil seu lar Divino."

Enquanto estava naquelas enfermarias, lembrei-me do grande músico de Israel, o Rei David, que cantou a D’us estas palavras: "Tu transformaste minha dor em dança; Tu tiraste minha estopa e me vestiste de júbilo, que meu coração cante a Ti e não fique silente."

E eu sinto a força do espírito humano que nenhum terror consegue destruir.