Por Jay Litvin

Há um exercício terapêutico em que a pessoa deita de costas e imagina que acabou de morrer e está em um caixão, cercada de entes queridos. Fala com eles, refletindo sobre seu relacionamento com cada um, expressando seus arrependimentos e avaliações. Quando emprego este exercício, isso me faz lembrar que minha vida terá um fim, e que terei de enfrentar este momento.
Dentre as pessoas ao meu redor em minha fantasia estão meus filhos. Penso comigo mesmo: O que quero ser capaz de dizer e ouvir? O que me faz sentir orgulhoso e satisfeito? O que desejo ter conseguido fazer com meus filhos?
Chego sempre à mesma conclusão: intimidade. Desejo ter conhecido meus filhos, e quero que eles me conheçam. Quero ter estado próximo deles, ser amigo deles. Desejo ter sido uma fonte de prazer, segurança, orientação e amor por eles - e deles por mim.
Quero ser capaz de dizer que em nosso mútuo abraço de amor, compartilhamos alegrias e tristezas, prazeres e dificuldades. Desejo dizer que rimos e choramos juntos, que compartilhamos a dança da vida, que encontramos tempo para penetrar no âmago um do outro, e dividir abertamente o que ali encontramos. Se eu puder dizer isso, e se meus filhos puderem dizer o mesmo, creio que eu (e eles) ficaremos satisfeitos.
Tenho lido muitos livros sobre criação de filhos, a arte da comunicação e como instilar valores em nossas crianças. Participei de workshops sobre criar filhos responsáveis e bons; sobre como ajudá-los a ter sucesso na escola e com amigos; sobre como ajudá-los a superar conflitos e entenderem as verdadeiras prioridades da vida; sobre como aumentar sua habilidade intelectual e sua força emocional.
Porém nenhum destes workshops versou sobre a questão da intimidade. E sem intimidade como um requisito, imagino se estas técnicas funcionam, ou se, na verdade, têm alguma importância.
Acredito no amor. Acredito que quando nos sentimos amados e somos capazes de amar, o melhor dentro de nós aflora, e o pior se retira. Creio que, como dizem os Sábios, as palavras vindas do coração penetram no coração, portanto as palavras faladas sem amor, não importa se bem-intencionadas, não penetrarão. De forma contrária, com amor, mesmo a mais desajeitada das palavras deixará sua marca.
Como pais, não precisamos ser poetas ou terapeutas, professores ou rabinos; precisamos amar. O amor de que falo não é o amor instintivo de pai para filho e de filho para pai. Falo de um amor nascido da intimidade, o tipo de amor que desenvolvemos com nosso cônjuge, a espécie de amor que cresce com os anos e com o esforço, o amor que brota da comunicação e da sinceridade. O amor entre pai e filho é natural, amor concedido por D'us, mas a intimidade é cultivada. E a partir desta intimidade com nossos filhos brota um tipo diferente de amor, revelando o que há de melhor em nós.
O amor natural que sentimos por nossos filhos diz: "Amo-o apesar daquilo que é." O amor que nasce da intimidade afirma: "Amo-o por tudo aquilo que é." Este amor pode apenas vir depois que sabemos "tudo" que nossos filhos são, ou pelo menos aquilo que desejam nos revelar. A intimidade pode ser ensinada? Existem "técnicas de intimidade?" Claro que não. Mas se examinarmos as relações íntimas em nossas vidas adultas, vemos que a intimidade pode ser encorajada. Falta de expectativa, suspensão de julgamento, aceitação incondicional, certas palavras ou gestos - tudo isso ajuda no crescimento da intimidade.
A intimidade com nossos filhos desenvolve-se quando paramos de medi-los através de uma escala de qualidades, virtudes ou comportamentos, quando cessamos de tentar afiná-los para que atinjam um padrão externo de excelência em habilidade. A intimidade vem do intenso desejo de conhecê-los pelo que são, e da coragem de deixá-los ver quem nós somos.
Nossos filhos serão então aquilo que desejamos que sejam? A pergunta torna-se irrelevante. Em vez disso, perguntaremos: "Sejam eles quem forem, eu os conheço? Seja eu quem for, eles me conhecem? Durante nossas vidas, temos nos compartilhado totalmente um com o outro?