Por Jonathan Sacks - Rabino chefe da Inglaterra
Ao final de seu notável livro, "Uma Breve História do Tempo," Stephen Hawking escreveu uma das frases mais famosas da atualidade. Se apenas pudéssemos descobrir uma teoria completa das forças que governam o Universo "seria o supremo triunfo da razão humana - pois então conheceríamos a mente de D'us." O Professor Hawking é um cientista que dispensa apresentações. Porém, até ele poderia admitir que não é o maior teólogo do mundo.
Li recentemente uma observação muito mais profunda de uma mãe com filhos pequenos. "Desde que me tornei mãe" - disse ela - "descobri que posso entender D'us muito melhor. Agora sei o que é criar algo que você não pode controlar!" Que maravilhosa percepção, e como é verdadeira.
A maioria das pessoas sabe que a Bíblia Hebraica começa com a mais famosa narrativa da Criação que jamais foi escrita:
"No princípio D'us criou..." Mesmo atualmente, três mil anos depois, é uma passagem de poder sem igual, desde que, é claro, lembremo-nos de que é um poema, cuidadosamente construído como tal, e não uma teoria científica.
O que muitas vezes não percebemos - na verdade não consigo lembrar-me de que alguém jamais escreveu sobre isso - é que toda a história da Criação do Universo é feita com apenas 34 versículos. Daí em diante a Torá volta sua atenção à humanidade. Isso é estranho, realmente intrigante.
O antigo mundo mitológico, como a ciência de hoje, era profundamente absorvido pela cosmologia, a questão de como o universo foi criado. Fascinou os mesopotâmios, que escreveram pitorescos mitos sobre a criação onde Marduk, o jovem deus, assassinou Ti'amat, deusa do mar, e lançou os alicerces do céu e da terra sobre os despojos de seu corpo dividido. A cosmologia científica de hoje é menos dramática, mas não menos distante da vida de todos os dias.
Em contraste, a Torá menciona rapidamente a Criação em apenas um capítulo, e então volta-se para Adão e Eva, Caim, Abel, solidão, relacionamentos, a situação humana. Isso nos conta um fato muito interessante. A Torá não é um livro do homem sobre D'us. É o Livro de D'us sobre a humanidade.
Isso me leva de volta à jovem mãe que estava tão gloriosamente certa. A Torá não chama D'us de grande cientista. Chama-o de "Pai". Isaías diz, em nome de D'us: "Assim como aquele que é confortado pela mãe, assim Eu o confortarei."
D'us é um Pai, e aproximamo-nos de D'us quando nos tornamos pais. O milagre da Criação do ponto de vista da fé não trata de mecânica quântica. Trata de trazer vida nova a este mundo.
É difícil ser pai. Assim pensa a maioria de nós, e assim pensa D'us. Temos de estar presentes constantemente quando as crianças são pequenas, porém temos que abrir espaço para elas quando crescem. Vez por outra, elas se rebelam. Isso é parte do processo de auto-descoberta, mas magoa. Temos de lhes dar orientação, mas também temos de permitir que cometam erros.
Nossos filhos são à nossa imagem, mas também são diferentes de nós, e temos de dar-lhes espaço para que escrevam sua própria história. É assim que a Torá descreve o relacionamento de D'us com a humanidade.
O mundo de hoje valoriza o sucesso, as realizações, o trabalho, a carreira, mas tem também - mais que qualquer outra cultura nos últimos 2000 anos - desvalorizado a paternidade. Isso é um erro.
Ser pai é o maior desafio que jamais enfrentamos, estressante às vezes, mas extremamente recompensador. É também o mais perto que podemos chegar da mente de D'us.