Infelizmente, há aqueles que lêem a narrativa bíblica dos anos de Yaacov na casa de Laban e se entusiasmam com o que consideram o tipo de assunto que produz romances campeões de vendas ou filmes de sucesso. Uma magnífica trama recheada de intriga, romance e suspense é, deploravelmente, o que muitos consideram ser a intenção da Torá ao descrever os eventos que rodearam os primórdios da família da qual descende o povo judeu.

Entretanto, aqueles que estudam a história de nossos patriarcas e matriarcas através das lentes de nossos Sábios e comentaristas clássicos da Torá adquirem profunda visão dentro da condição humana, aprendem princípios fundamentais do pensamento da Torá, e são apresentados a objetivos elevados aos quais aspirar.

Tal lição é enfatizada por Rashi, em um comentário que sem uma cuidadosa análise quase passa despercebido.

A Torá relata como Yaacov descobre que fora enganado por Laban ao casar-se com Lea e não com Rachel, pela qual havia trabalhado tão diligentemente por sete anos. O forte protesto de Yaacov a Laban cai no vazio, e o esperto Laban oferece sua filha Rachel a Yaacov em troca de outros sete anos de trabalho contratado. Yaacov não tem outro recurso a não ser concordar com as condições de Laban.

Pode-se bem imaginar a profunda frustração que Yaacov deve ter sentido. Além disso, o Midrash, ao relatar a respeitável espiritualidade de Yaacov, nos informa que sua imagem está gravada no trono celestial de D'us.

Sua personalidade era um balanço perfeito das qualidades de seu avô, Avraham, e Yitschac, seu pai. Yaacov certamente vivia num plano espiritual inatingível a nós. A confusão de ter de trabalhar como pastor por uma razão aparentemente não justificável, foi para privar o mundo da espiritualidade que de outra forma Yaacov investiria, caso pudesse servir a D'us livre das responsabilidades e tensões envolvidas na fiel guarda do rebanho de Laban. E Yaacov certamente sabia disso.

Mesmo assim, ao descrever a concordância de Yaacov aos termos de Laban, a Torá declara: "E ele trabalhou para ele por outros acheirot, sete anos". Rashi diz que a palavra acheirot parece ser redundante. O texto poderia simplesmente dizer: "E ele trabalhou para Laban sete anos", e teria o mesmo significado. Na explicação, Rashi registra um notável Midrash, que Yaacov serviu a Laban durante o segundo estirão de sete anos com o mesmo zelo e devoção demonstrados durante os primeiros sete anos. Foi na verdade um outro período de sete anos, uma duplicação do primeiro contrato de sete anos com Laban. Nenhuma queixa, nenhuma má vontade, nenhum prejuízo para Laban ficou evidente.

O mesmo extraordinário comprometimento com a tarefa que assinalou os primeiros sete anos, quando pensou que estava trabalhando por Rachel, foi a característica do segundo período de sete anos que Laban enganosamente impôs sobre Yaacov pelo direito de desposar Rachel. A crença fundamental de Yaacov que tudo que D'us coloca na vida da pessoa é para o melhor, neutralizou qualquer resposta negativa para com Laban. Afinal, como pode alguém reclamar ou resmungar sobre o bem que recebe!

Isso por si só poderia ser uma lição importante para nós. Mas Rabi Yossef Salant faz outra observação espantosa. O Midrash ou Echá relata que na época da destruição do Primeiro Templo, os Patriarcas e até Moshê imploraram a D'us para conceder misericórdia e terminar logo com o exílio. Entretanto, estas preces não foram levadas em consideração. Rachel então aproximou-se do Trono Divino e fez um apelo emocionado. Desafiou o severo julgamento de D'us ao recordar como ela, uma simples mortal de carne e osso, permaneceu em silêncio quando sua irmã Lea foi à chupá (pálio nupcial) em seu lugar.

Rachel sofreu a dor de compartilhar Yaacov com outra mulher, em vez de causar humilhação à irmã. Por que então, exige ela, D'us não pode tolerar o comportamento rebelde dos judeus quando se voltaram a outros deuses. O Midrash prossegue dizendo que foi na verdade a súplica de Rachel que provocou a misericórdia Divina e que permitiu aos judeus retornar à Terra de Israel e construir o Segundo Templo.

Trabalhar por mais sete anos por Rachel pode parecer a uma pessoa menos elevada como uma "exploração". Mas foi esta "exploração" que preparou o cenário para os eventos que provocariam mais tarde a salvação do povo judeu.

Que mereçamos ver brevemente em nossos dias como toda a aparente dificuldade e os sombrios capítulos de nossa história formam a tapeçaria dos eventos que trarão nossa Redenção suprema.