Há mais de mil anos, viveu um notável e santo professor e líder, chamado Rabi Saadia Gaon (892-942). O Gaon (como eram chamados os Sábios do judaísmo na Babilônia daquele tempo) tinha muitas centenas de alunos e todos eles tinham grande sede de conhecimento. Até mesmo um movimento ou palavra de seu respeitado mestre lhes fornecia uma lição de vida.

Certa manhã de inverno, dois dos alunos estavam andando nas montanhas quando ouviram um som estranho do outro lado de uma colina. Ao se aproximarem do pico viram, com grande surpresa, seu mestre sentado no chão coberto de neve, chorando, rezando e fazendo outros atos de penitência. Do que precisaria um tsadic (justo) como o professor arrepender-se? Teria ele cometido algum pecado, D'us não o permitisse? Afastaram-se rapidamente daquele local. Porém mais tarde naquele dia, não conseguiram mais refrear-se e perguntaram ao professor o significado da cena que tinham testemunhado.

"Faço isso todos os dias" - respondeu ele. "Todos os dias eu me arrependo e imploro a D'us para perdoar meus erros e faltas em meu serviço a Ele."

"Suas faltas?" perguntaram eles. "De que faltas o Gaon está falando?"

"Deixe-me contar-lhes uma história" - disse Rabi Saadia. "Algo que me aconteceu há algum tempo."

"Em certo ponto de minha vida, decidi que toda a honra e atenção que estava recebendo de todos ao meu redor estavam interferindo com meu serviço ao Criador. D'us deve ser servido com júbilo, e sem completa humildade, o júbilo é impossível. Portanto, decidi que passaria vários meses em um lugar onde ninguém me reconhecesse."

"Vesti roupas simples e comecei meu auto-decretado exílio, vagando de cidade em cidade. Certa noite, eu estava em uma pequena estalagem cujo proprietário era um judeu idoso. Era um homem muito bom e simples, e conversamos um pouco antes que eu me retirasse para dormir. Cedinho na manhã seguinte, depois de rezar shacharit (a prece matinal), despedi-me dele e novamente me pus a caminho.

"O que eu não sabia era que diversos alunos meus tinham estado à minha procura, e muitas horas depois que deixei a estalagem eles apareceram, seguindo em meu encalço. 'O senhor viu Rabi Saadia Gaon?' perguntaram a ele. 'Temos motivos para acreditar que esteve aqui.'

"'Saadia Gaon?' replicou o confuso judeu. 'O que estaria o grande Rabi Saadia Gaon fazendo num lugar como esse aqui? Rabi Saadia Gaon em minha estalagem? Não... estou certo de que estão muito enganados! Aqui não passou nenhum Saadia Gaon!'

"Porém quando os jovens me descreveram, e explicaram a ele sobre meu exílio e 'disfarce', o velho judeu pôs as mãos na cabeça e chorou: 'Oh! Rabi Saadia esteve aqui! Vocês estão certos! Oh, oh!' E ele correu para fora, pulou dentro de sua carroça e começou a apressar o cavalo para ir o mais rápido possível na direção que eu tomara.

"Após algum tempo, ele me alcançou, saltou da carroça e caiu a meus pés, chorando: 'Por favor, perdoe-me, Rabi Saadia. Por favor, perdoe-me, eu não sabia que era o senhor!'

"Fiz com que se levantasse e limpei sua roupa, dizendo-lhe: 'Mas meu caro amigo, tratou-me muito bem, foi muito gentil e hospitaleiro. Por que está tão sentido? Nada tem a se desculpar.'

"'Não, não, Rabi' - replicou ele. 'Se eu tivesse sabido quem era o senhor, tê-lo-ia servido de forma completamente diferente!'

"De repente, percebi que aquele homem estava me ensinando uma lição muito importante no serviço de D'us, e que o propósito de meu exílio tinha sido cumprido. Agradeci-lhe e abençoei-o, voltando então para casa.

"Desde então, todas as noites, quando recito a prece antes de dormir, repasso em minha mente como servi a D'us naquele dia. Penso então no velho estalajadeiro, e digo comigo mesmo: 'Oh! Se eu tivesse sabido sobre D'us no começo do dia aquilo que sei agora, tê-Lo-ia servido de forma completamente diferente!'

"É sobre isso que eu estava me arrependendo esta manhã."