O texto a seguir foi preparado pelo Rabino Schochet como material para uma série de palestras sobre o Baal Shem Tov, para o Jewish.tv, o site de vídeos do Chabad.org. O Rabino Schochet — que faleceu no Shabat, dia 20 de Av de 5773, 27 de julho de 2013 — não chegou a concluir as filmagens da série.
O Baal Shem Tov (lit. “Mestre do Bom Nome”) foi e continua sendo uma personalidade singular na história judaica. Seus ensinamentos impactaram toda a nação judaica, tanto os eruditos quanto os leigos. Para compreender a profundidade de seu impacto, precisamos primeiro entender o contexto histórico do movimento chassídico que ele fundou.

O Baal Shem Tov, assim como muitos estudiosos e luminares antes e depois dele, não escreveu livros. Como bem observou, ele “criou almas, não livros”.

Dizimação física e espiritual

O Baal Shem Tov nasceu em 18 de Elul de 5458 (1698), durante um período extremamente difícil da história judaica. O século anterior ao seu nascimento foi marcado por grandes convulsões. A perseguição aos judeus na Europa Oriental era bastante comum, causando muito sofrimento.

Tempos turbulentos sempre suscitam especulações messiânicas; além disso, textos místicos sugeriam que o ano de 1648 seria um ano muito especial, interpretado por muitos como uma predição da redenção messiânica. De fato, aquele ano foi especial, mas não da maneira alegre esperada – pelo contrário. Seus ensinamentos impactaram toda a nação judaica, tanto os eruditos quanto os leigos.

A Guerra dos Trinta Anos acabara de terminar na Europa, deixando um rastro de caos. Um líder ucraniano implacável, o notório antissemita Bogar Chmielnicki, aproveitou-se desse período caótico e liderou seus bandos em ataques assassinos contra judeus e assentamentos judaicos. Historiadores estimam que eles massacraram cruelmente cerca de 200.000 judeus. Esse evento ficou conhecido na história judaica como Guezerat Tach-Tat, a tragédia de 1648-1649. Como se isso não bastasse, logo em seguida eclodiu a guerra entre a Polônia e a Suécia. Durante a guerra, inúmeros judeus foram novamente assassinados a sangue frio pelo general polonês Czarnikl.

Essas tragédias intensificaram significativamente o fervor messiânico entre os judeus da Europa Oriental. Então, em 1665, um homem na Grécia chamado Shabatai Tzvi proclamou-se o Messias há muito esperado. Houve vários outros falsos messias na história judaica, mas poucos conseguiram tantos seguidores quanto ele.

O movimento de Shabtai Tzvi se espalhou do Oriente Médio para a Europa. Inicialmente, rabinos proeminentes foram atraídos por ele, mesmo enquanto outros o denunciavam. Em uma espécie de histeria coletiva, inúmeros judeus venderam tudo o que possuíam na expectativa de se mudarem para a Terra Santa para desfrutar da era messiânica. Mesmo depois de Shabatai Tzvi ter sido preso pelas autoridades turcas e convertido ao islamismo para salvar a própria pele, muitos de seus seguidores permaneceram fiéis a ele, supondo que sua apostasia fosse algum tipo de artimanha.

No fim, inúmeros judeus por toda a Europa ficaram não apenas desiludidos, mas também destituídos, material e espiritualmente. Foram dias terrivelmente tristes e sombrios. Os estudiosos da Torá encontraram conforto em prosseguir seus estudos na yeshivá ou bet hamidrash, apesar da pobreza desenfreada. Mas as massas foram deixadas à própria sorte, como navios sem leme. De fato, havia uma grande divisão entre a elite intelectual e os judeus simples, que eram pobres demais para dedicar muito tempo ao estudo.

Além da elite intelectual e dos judeus pobres da classe trabalhadora, existia um outro grupo especial que servia de ponte entre os dois. Eram místicos, estudiosos da Cabala, mas que se preocupavam profundamente com o bem-estar de seus irmãos judeus. Disfarçavam-se de pessoas simples e vagavam de aldeia em aldeia, subsistindo com o mínimo necessário. Esse exílio voluntário, chamado em iídiche de oprichten golus, tinha como objetivo uma espécie de expiação para a nação judaica.

Alguns desses místicos se organizaram e assumiram uma tarefa especial: confortar as massas devastadas, incentivar sua fé e práticas religiosas e ajudá-las o máximo possível, tanto espiritual quanto materialmente. Eles ficaram conhecidos como tzadikim nistarim, homens santos anônimos.

No auge dessa era sombria, nasceu Israel Baal Shem Tov. Ele nasceu em 18 de Elul de 5458 (1698), em uma pequena vila chamada Okup, perto da cidade de Tluste, na antiga província polonesa da Podólia. Seus pais eram pessoas santas que foram abençoadas com seu único filho em idade avançada. Sua mãe, Sara, faleceu quando ele ainda era bebê, e alguns anos depois, seu pai, o Rabino Eliezer, também faleceu. Tudo o que o jovem Israel herdou foram as últimas palavras de seu pai para ele:

Israel, saiba e lembre-se, ao longo de sua vida, que D’us Todo-Poderoso está sempre com você. Lembre-se de não temer nada nem ninguém, exceto seu Pai Celestial! E lembre-se também de amar, do fundo do seu coração, cada judeu, independentemente de quem ele seja ou do que represente!

O órfão ficou sob a tutela da comunidade local, que cuidou de todas as suas necessidades por reverência ao seu santo pai. Após alguns anos, um grupo de tzadikim nistarim adotou Israel e o instruiu na Torá, incluindo a tradição mística. Ainda adolescente, ele se envolveu nas atividades do grupo e eventualmente se tornou seu líder, iniciando novos esforços para incentivar a fé judaica, as práticas e o conhecimento da Torá entre os judeus mais simples.

Um casamento feito no céu

Na época em que o Rabino Israel ganhava a vida como professor, um homem proeminente chamado Reb Efraim visitou sua aldeia para resolver uma disputa pessoal com um morador local. Os dois decidiram que o professor local, o Rabino Israel, arbitrária a questão, o que ele fez para a satisfação de ambos. Reb Efraim ficou profundamente impressionado com o jovem professor e sugeriu que o Rabino Israel se casasse com sua filha. Rabi Israel concordou e, juntos, assinaram um documento nesse sentido.

Pouco tempo depois, Reb Efraim faleceu. Seu filho, o Rabino Avraham Guershon de Kitov, chefiava um tribunal rabínico em Brody, o principal centro judaico da Galícia, e era muito respeitado como um grande estudioso do Talmud e da Cabala. Após o falecimento de seu pai, o Rabino Avraham Guershon encontrou o contrato que seu pai havia assinado com um desconhecido Israel ben Eliezer, mas, não reconhecendo o nome do noivo, não sabia o que fazer com ele.

Pouco tempo depois, um homem simples, vestido com trapos, apareceu na corte do Rabino Avraham Guershon. O rabino pensou que fosse um mendigo e ofereceu-lhe uma doação, mas o estranho disse que queria vê-lo em particular para tratar de um assunto importante. Quando se retiraram para uma sala, o estranho, o Rabino Israel, tirou sua cópia do contrato de casamento e disse que viera buscar sua noiva. Desnecessário dizer que o Rabino Avraham Guershon ficou chocado. O que seu pai havia feito? Tentou convencer o Rabino Israel a desistir do compromisso, mas sem sucesso. A única concessão que o estranho estava disposto a fazer era encontrar-se com a irmã do Rabino Avraham Guershon e deixar a decisão para ela.

Quando o rabino Israel e a moça se encontraram em particular, ele revelou sua verdadeira identidade, mas pediu que ela mantivesse segredo. Ela concordou com a condição e informou ao irmão que consentia com o casamento. Não havia mais nada que o rabino pudesse fazer para impedir a união, e eles se casaram. O rabino, profundamente envergonhado pela ignorância de seu cunhado, instalou-os em uma aldeia próxima. Nos anos seguintes, o rabino Israel continuou seus estudos em completo anonimato, enquanto sua esposa trabalhava para sustentá-los.

Vários anos mais tarde, o Baal Shem Tov revelou sua verdadeira identidade ao seu cunhado, e o Rabino Avraham Guershon tornou-se um de seus principais discípulos.

A Fundação do Chassidismo

Os primeiros mestres do Baal Shem Tov foram os místicos tzadikim que o adotaram. Posteriormente, ele mergulhou nos estudos talmúdicos e cabalísticos, incluindo manuscritos de ensinamentos que lhe foram transmitidos pelo líder destes justos ocultos. Aos 26 anos, já um grande erudito, teve uma experiência extraordinária.

Muitos místicos relataram ter tido contato com almas de falecidos. Existem inúmeras histórias, que remontam ao Talmud e ao Midrash, de indivíduos santos aos quais o profeta Eliyahu apareceu. Da mesma forma, o Baal Shem Tov afirmou que o profeta Achiyah Hashiloni lhe apareceu em seu 26º aniversário e lhe ensinou os segredos da Torá ao longo de dez anos, conforme atestado por seus discípulos.

Em 1734, quando o Baal Shem Tov completou 36 anos, seu novo mestre lhe disse que havia chegado a hora de revelar sua verdadeira identidade ao mundo. Essa data marca, na verdade, a fundação do movimento chassídico.

Depois disso, as atividades antes secretas dos tzadikim nistarim passaram a ser realizadas publicamente. O Baal Shem Tov viajou de cidade em cidade para inspirar o povo com fé e confiança em D’us, elevar seus padrões religiosos e enchê-los de orgulho em sua identidade. Ele os imbuía de um senso de valor próprio, enfatizando que até mesmo o indivíduo mais simples é amado por D’us como um filho único. Embora o estudo da Torá seja central para a vida judaica, ele ensinou o valor supremo da sinceridade, que “D’us busca o coração”.

O Baal Shem Tov também dava grande valor à alegria, incentivando os judeus a se alegrarem pelo fato de serem o povo escolhido por D’us e abençoado com a Torá. Frequentemente, ele contava histórias e parábolas que continham profundos valores morais e inspiração. Onde quer que fosse, as pessoas eram atraídas por ele e profundamente inspiradas. Ele literalmente reavivava seus espíritos, levando-as a assumir um maior compromisso com a Torá e os mandamentos.

Muitos estudiosos também foram atraídos pelos ensinamentos do Baal Shem Tov. Alguns dos maiores rabinos da época ficaram tão impressionados com ele que se tornaram seus discípulos. Entre eles estavam o já mencionado Rabino Avraham Guershon de Kitov; o Rabino Yaakov Yosef, rabino de Sharigrod e posteriormente de Polnoy, que incorporou muitos dos ensinamentos do Baal Shem Tov em seus escritos; o Rabino Meir Margolius, rabino-chefe de Ostroha e autor das responsa Meir Nesivim; o Rabino Dov Ber, Maguid de Mezritch, que se tornou o sucessor do Baal Shem Tov como chefe do movimento chassídico; o Rabino David Heilperin, rabino de Ostroha e posteriormente de Zaslov; o Rabino Israel Charif, rabino de Satanov e autor de Tiferet Yisroel; o Rabino Yosef Yoel Heilperin, rabino de Stefan; e assim por diante. O Baal Shem Tov teve cerca de 60 discípulos principais que transmitiram seus ensinamentos a outros.
Onde quer que fosse, as pessoas eram atraídas por ele.

Por fim, o Baal Shem Tov se estabeleceu na cidade de Mezhibush, embora mesmo assim continuasse a fazer muitas viagens. À medida que sua fama crescia, muitos vinham para ouvir seus ensinamentos e se inspirar, e muitos mais vinham para receber suas bênçãos e conselhos. Aqueles que buscavam sua ajuda não eram apenas judeus, mas também gentios que ouviram falar desse santo milagroso. Em arquivos civis e registros de impostos de Mezhibush recentemente descobertos, o Baal Shem Tov é mencionado em documentos que datam de 1742, identificado como “Baal Shem Doktor”, vivendo em uma casa isenta de impostos da comunidade.

Oposição

Nem todos estavam satisfeitos com o movimento incipiente. Muitos rabinos e líderes comunitários viam o Chassidismo como revolucionário e perigoso. Temiam que o amplo apelo popular do Chassidismo ameaçasse sua autoridade. Também se preocupavam com o fato de o movimento colocar em risco o valor judaico fundamental do estudo e da erudição da Torá, devido à ênfase chassídica no amor incondicional por todos os judeus, independentemente de seu nível de conhecimento da Torá.

Aos olhos deles, os próprios ensinamentos místicos chassídicos não eram menos perigosos. No contexto do recente e traumático episódio de Shabatai Tzvi e seus seguidores, que utilizaram muitos ensinamentos distorcidos da Cabala para atingir seus objetivos, um movimento que tornava pública essa sabedoria secreta era visto com extrema suspeita. Alguns chegaram a pensar que o novo chassidismo era um ramo do movimento shabateano.

Embora esses temores fossem totalmente infundados, muitos rabinos e líderes comunitários emitiram proclamações de denúncia contra o Baal Shem Tov e seus seguidores. O próprio Baal Shem Tov, quando confrontado diretamente, respondia refutando essas acusações, mas não se deixava envolver em discussões e disputas públicas. Para ele, era mais importante espalhar luz e conforto.

O legado do Baal Shem Tov

O Baal Shem Tov continuou a ensinar e inspirar, e obteve muito sucesso durante sua vida. Ele prosseguiu com seus esforços até o sexto dia de Sivan, o primeiro dia da festa de Shavuot, no ano de 5520 (1760), quando sua alma retornou ao seu Criador. Ele faleceu em Mezhibush e foi sepultado lá; seu túmulo é um local de peregrinação até hoje. A obra do Baal Shem Tov foi continuada por seus discípulos, que difundiram sua filosofia amplamente em seus escritos e ensinamentos.

O Baal Shem Tov deixou dois filhos: Rabino Tzvi, que tornou-se seu sucessor interino por um ano, até que a liderança fosse passada para o Rabino Dov Ber, o Maguid de Mezritch. O Rabino Tzvi não liderou uma corte chassídica e acabou se mudando para Pinsk, a cidade de seus sogros, onde faleceu em 1780. Seus três filhos, no entanto, tornaram-se líderes chassídicos.

O Baal Shem Tov também deixou uma filha, Odel, que se casou com o Rabino Yechiel Ashkenazi e teve três filhos. O primeiro, o Rabino Moshe Chaim Ephrayim, nasceu na década de 1740 e passou seus anos de formação na presença de seu avô, o Baal Shem Tov. Ele escreveu um dos textos chassídicos fundamentais, Deguel Machaná Efraim, no qual cita muitos ensinamentos de seu avô.

O segundo filho de Odel, o Rabino Boruch de Mezhibush, nasceu vários anos depois do irmão. Uma antologia de seus ensinamentos foi publicada sob o título Butzina Dinehura. Tanto o Rabino Mosheh Chaim Efraim quanto o Rabino Boruch estão sepultados perto do Baal Shem Tov. A terceira filha de Odel foi uma menina chamada Feiga. Ela se casou com o Rabino Simchá, filho de um dos primeiros discípulos do Baal Shem Tov, o Rabino Nachman de Horodenka, e eles foram os pais do famoso líder chassídico, o Rabino Nachman de Bratslav.

Existem inúmeras histórias e lendas sobre o Baal Shem Tov. Muitas delas apareceram em um livro chamado Shivchei HaBesht, “Em Louvor ao Baal Shem Tov”. Este livro foi publicado pela primeira vez em 1814-1815. O conteúdo principal consiste em um manuscrito escrito pelo Rabino Dov Ber de Lintz, que era genro do Rabino Alexander, escriba do Baal Shem Tov. O Rabino Dov Ber, que conheceu o Baal Shem Tov pessoalmente, registrou muitas histórias que ouviu de seu sogro e de outros discípulos do Baal Shem Tov, bem como do que ele chama de “outras fontes confiáveis”.

O Baal Shem Tov, assim como muitos estudiosos e luminares antes e depois dele, não escreveu livros. Como bem observou, ele “criou almas, não livros”.

Grande parte de seus ensinamentos foi registrada por seus discípulos e publicada em antologias especiais. As mais antigas e famosas são: Tzavo'at Horivash, publicada pela primeira vez em 1793; e Keter Shem Tov, um livro em duas partes baseado nas obras do Rabino Yaakov Yosef de Polnoy, publicado pela primeira vez em 1794. Mais recentemente, Sefer Baal Shem Tov, publicado em 1938, é uma antologia abrangente baseada em mais de 200 textos e manuscritos chassídicos.

As Origens do Chassidismo

O Chassidismo baseia-se na tradição mística do Judaísmo, a Cabala, e em particular na sua escola dominante, os ensinamentos do Rabino Isaac Luria, conhecido como Arizal.

A Cabala é essencialmente o aspecto esotérico da Torá. A Torá possui quatro dimensões: peshat, remez , derush e sod, conhecidas pela sigla PaRDeS, que significa literalmente "pomar". A primeira dimensão, peshat, é o significado simples e literal da Torá Escrita. No entanto, peshat não é tão simples assim, pois seu significado e diretrizes são frequentemente difíceis de entender. A Torá Shebe'al Pê, a Torá Oral, explica e esclarece o peshat. A Torá Oral é a tradição oral que Moshê recebeu juntamente com a Torá Escrita, a qual explica o significado prático das mitsvot e foi finalmente registrada no Talmud e no Midrash. O peshat é elaborado por meio de remez, ensinamentos da Torá que são meramente aludidos no texto em si, e derush, ensinamentos da Torá que são derivados por métodos hermenêuticos autorizados.

Contudo, como palavra Divina, cada mandamento, história e nuance da Torá contém um significado muito mais profundo que não é de todo óbvio no texto em si ou em suas interpretações hermenêuticas. Essa dimensão é chamada de sod, a dimensão oculta, mística ou esotérica. Sod explora os aspectos filosóficos, e não legalistas, da Torá. Explica como pessoas, lugares e eventos na Torá aludem simbolicamente a conceitos espirituais. Sod discute a natureza, por assim dizer, de D’us e Sua relação com a Sua criação, as origens e o propósito da criação em geral e dos seres humanos em particular, e como toda a criação é um sistema muito preciso e inter-relacionado. Sod oferece uma perspectiva totalmente diferente daquela normalmente obtida a partir de um estudo literal do texto.

Essa sabedoria mística é profundamente inspiradora, mas também é um sistema muito complexo, de difícil domínio. Por necessidade, a Cabala utiliza muitos antropomorfismos, que podem ser facilmente mal interpretados por aqueles que não são versados no vocabulário e nos princípios cabalísticos. Para evitar distorções e interpretações equivocadas, o estudo e o ensino da Cabala eram tradicionalmente restritos a indivíduos de extraordinária piedade, imersos no conhecimento da dimensão exotérmica, do Talmud e da Halachá . Para preservar sua pureza, a tradição mística era transmitida principalmente de forma oral, de mestre para discípulo.

Ao mesmo tempo, porém, as antigas fontes místicas também ensinavam que em ikvessa de Meshicha, o período que antecede a era messiânica, especificamente a partir do século 16, a dimensão sod da Torá se tornaria cada vez mais revelada e acessível.

De fato, no século 16, os ensinamentos e escritos do Rabino Moshe Cordovero (o Ramak) e do Rabino Isaac Luria revolucionaram o estudo da mística judaica. Esses estudiosos e seus discípulos produziram obras que explicavam a Cabala de maneira bem ordenada e sistemática. Além disso, enfatizaram que a popularização da Cabala é um prelúdio e um pré-requisito para a tão aguardada era messiânica.

Nesse contexto, podemos compreender a origem e o desenvolvimento do movimento Chassídico.

Filosofia Chassídica

O judaísmo se centra em D’us, Torá e o povo de Israel. O Zohar, texto fundamental da Cabala, explica que esses três elementos estão interligados, e cada um possui uma dimensão revelada e uma oculta.

Conhecemos D’us conforme Ele se revela a nós através do funcionamento da criação, o que podemos chamar de imanência Divina no mundo. Além disso, existe a transcendência Divina, que podemos discutir em um nível teórico, mas que, em última análise, está além da compreensão humana.

Como discutimos anteriormente, a dimensão exotérmica da Torá, a forma como foi dada e registrada em termos e linguagem humanos, serve como guia para a conduta humana. É essencialmente uma revelação da vontade de D’us em relação ao homem. D’us, contudo, é uma unidade absoluta. Assim, D’us, Sua vontade e Sua sabedoria são absolutamente um, uma unidade indivisível. Consequentemente, ao compreendermos os níveis mais profundos da Torá, podemos chegar a compreender D’us em um nível mais profundo.

Israel, descendente de Avraham, Yiztchak e Yaacov, é a nação escolhida por D’us para ser Suas testemunhas. Recebemos a Torá para cumprir nossa missão na Terra: transformar o mundo em uma morada digna de D’us. Embora toda a espécie humana tenha sido criada por Ele à Sua imagem, Israel foi escolhido para ser um “reino de sacerdotes e uma nação santa”, referido especificamente como “filhos de D’us” e “Israel, meu primogênito”.

Recebemos a Torá para cumprir nossa missão na Terra.
Essa condição não se trata de privilégios especiais, mas de obrigações especiais — os preceitos da Torá relativos aos judeus são muito mais exigentes do que os relativos aos não judeus. Para esse fim, fomos imbuídos de uma alma especial, uma nefesh Elokit, que é uma centelha da verdadeira Divindade.

Partindo desse fundamento, os ensinamentos do Baal Shem Tov revitalizaram algumas das ideias mais básicas do judaísmo. Segue um breve resumo de algumas delas.

D’us criou o mundo a partir do puro nada, como relatado no primeiro capítulo da Torá. Tudo surgiu pelo ato Divino da criação e, portanto, depende totalmente da força Divina que o origina e sustenta sua existência. Essa fonte Divina é a alma que anima e sustenta toda a existência, e se fosse removida de qualquer entidade, essa entidade deixaria de existir, assim como a presença de nossa alma é a própria fonte de nossa vida.

D’us permeia tudo. Em termos filosóficos, isso se chama panenteísmo, que significa que D’us está em tudo. Isso não deve ser confundido com o panteísmo herético, que afirma que D’us e o mundo são uma só coisa. Nas palavras de nossos sábios: “D’us é o lugar do mundo, mas o mundo não é o lugar de D’us”. Isso significa que D’us está literalmente em todos os lugares e em tudo, “não há lugar desprovido de Sua presença”, mas, ao mesmo tempo, D’us também transcende tudo.

Todo objeto neste mundo contém uma centelha Divina. Certamente, existem coisas consideradas más ou impuras. Estas também contêm centelhas sagradas que lhes permitem existir com o propósito de nos dar o livre-arbítrio. Como D’us afirma na Torá, devemos vencer e destruir o mal e nos distanciar daquilo que é impuro, mesmo enquanto buscamos e estabelecemos firmemente aquilo que é bom e puro.

Quando nos relacionamos com o mundo ao nosso redor de acordo com as diretrizes de D’us na Torá, a bondade e a pureza se tornam predominantes. Objetos e forças negativas, malignas ou impuras se dissolvem, à medida que as faíscas sagradas que as sustentam são extraídas e elevadas por nossas ações. Seguir a Torá não significa simplesmente praticar os "deveres e proibições". Para realmente seguir a Torá, é preciso mergulhar profundamente na sua essência, reconhecer sua Divindade e inspirar-se em suas camadas ocultas. Por meio do estudo e da observância da Torá, nos conectamos, por assim dizer, ao núcleo e à fonte da Torá, que é o próprio D’us. De fato, o Chassidismo ensina que o estudo da Torá e as mitsvot são a única maneira pela qual o ser humano pode se conectar com D’us e alcançar seu propósito final: deveikut, apego a D’us.

O princípio de deveikut, a profunda consciência e o apego à onipresença do Criador, não se aplica apenas a atos religiosos ou rituais. O Baal Shem Tov enfatizou o versículo da Torá: "Em todos os teus caminhos, reconhece-O". Isso significa que a consciência de D’us deve permear tudo o que fazemos, incluindo as atividades físicas e cotidianas que são parte integrante de nossa existência terrena, como comer, beber, dormir, caminhar, fazer negócios e assim por diante.

Por fim, um dos ensinamentos mais poderosos e abrangentes do Baal Shem Tov foi sua visão inovadora sobre hashgachá pratit, a providência Divina individualizada que se estende a tudo o que acontece no mundo. Ele explicou que, como toda a criação depende completamente de D’us para que Ele a traga constantemente à existência, nada acontece por acaso. A providência Divina se estende até aos mínimos detalhes em todos os níveis da criação — humana, animal, vegetal e mineral. Como os mestres chassídicos costumavam dizer, nem mesmo uma folha cai de uma árvore sem a mão Divina por trás dela.

As fontes

Hoje, a filosofia chassídica permeia todas as esferas do pensamento judaico, moldando nossa concepção de D’us e do universo. Graças ao Baal Shem Tov e seus sucessores, todos os judeus têm acesso à dimensão interior da Torá.

Em uma carta ao seu cunhado, o já mencionado Rabino Guershon de Kitov, o Baal Shem Tov descreveu uma visão na qual ascendeu ao céu e procurou a câmara espiritual de Mashiach.

“Quando o Mestre virá?”, perguntou ele.

E Mashiach lhe respondeu:

“...Quando suas fontes [os ensinamentos do Chassidismo] jorrarem até os confins da Terra”.

Que seja em breve!