O objetivo final é o conhecimento, e não a mera tradição.

A fé em D’us é o fundamento do judaísmo... A fé não é apenas a expressão de palavras, mas uma crença e convicção firmes na mente e no coração. É também um compromisso que se manifesta em ações, com uma adesão sincera ao caminho prescrito por D’us. É por isso que a mera crença sem obediência a Ele é um absurdo...

Nossa fé começa com as tradições que nos foram transmitidas por nossos ancestrais e em nossa literatura sagrada. Através delas, conhecemos a D’us, Suas obras e Seus ensinamentos. A Torá nos diz: "Pergunte a seu pai, e ele lhe dirá; pergunte a seu avô, e ele lhe informará" (Devarim 32:7). Ela também declara [no Shemá]: "Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso D’us, o Senhor é Um" (Devarim 6:4), o que implica que devemos aceitar essas verdades com base no que ouvimos e compreendemos.

Há quem defenda que este é apenas um primeiro passo, enquanto o nível mais elevado de fé provém da comprovação filosófica dessas verdades. Segundo essa opinião, quem tem capacidade para tal deve tentar provar os fundamentos da nossa fé. Isso é sugerido em passagens como "Saibam que D’us é o Senhor; Ele nos fez e somos Dele" (Tehilim 100:3), que indicam que o objetivo final é o conhecimento, e não a mera tradição.

Há outros, porém, que sustentam que a fé mais elevada é aquela derivada unicamente da tradição, caso em que a comprovação metafísica só deve ser usada como último recurso para evitar a descrença. De acordo com essa opinião, uma fé bem fundamentada e um profundo conhecimento de D’us podem ser obtidos somente pela tradição.

Em última análise, devemos nos esforçar para aprender os fundamentos da nossa fé e adquirir uma compreensão profunda deles, visto que a crença baseada em mero hábito e tradição cega é uma fé frágil, que pode ser atacada por dúvidas e refutada por argumentos.

Uma fé forte, portanto, baseia-se tanto na razão quanto na tradição, como ensinou o profeta: "Acaso não sabeis? Acaso não ouvistes? Não vos foi dito desde o princípio? Acaso não compreendeis como foi fundada a terra?" (Yeshayáhu 40:21). De maneira semelhante, somos ensinados: "Conhecei o D’us de vosso pai" (1 Crônicas 29:9). Em cada caso, somos instruídos a conhecer e compreender racionalmente aquilo que nos foi ensinado e recebido pela tradição.

Se alguém tem a capacidade, deve usar seu conhecimento para acrescentar ao que foi derivado da tradição. Assim, lemos: "Este é o meu D’us, e eu o glorificarei; o D’us de meu pai, e eu O exaltarei" (Shemot 15:2), o que indica que Ele é o meu D’us segundo o meu próprio entendimento, ao mesmo tempo que é o D’us de meu pai segundo a tradição. De forma similar, oramos: "Nosso D’us e D’us de nossos pais", e os judeus são chamados de "crentes, filhos de crentes".

Perguntas e Dúvidas

Se alguém tiver condições, deve aprender o suficiente em ciência para reconhecer o mundo como uma obra Divina e compreender Sua grandeza, conforme declara o profeta: "Levantai os vossos olhos para as estrelas e vede quem as criou" (Yeshayáhu 40:26). Se alguém for estudioso, deve fazer isso quando não puder se dedicar a estudos religiosos.

Ao mesmo tempo, deve-se evitar especulações metafísicas inúteis, bem como o estudo da filosofia em geral, pois tendem a minar a fé. Se alguém se encontrar em uma posição em que precise se dedicar a tais estudos, pode fazê-lo, mas com a máxima cautela.

O caminho para a verdadeira fé passa pela observância e pelo estudo dos nossos ensinamentos religiosos. Mesmo que alguém sinta que sua fé está fraca, deve continuar suas observâncias e estudos, e eles o trarão de volta a Sua fonte. Somos ensinados que D’us disse: "Se eles Me tivessem abandonado, mas guardado a Minha Torá, a luz inerente dela os teria trazido de volta a Mim".

Por outro lado, se alguém não estudar nossos ensinamentos religiosos, poderá se ver deixando de observar os mandamentos. Isso o levará a desprezar aqueles que os observam e até mesmo a odiar nossos mestres. Ele poderá então tentar impedir que outros observem, pois terá encontrado uma maneira de negar a própria origem Divina. A Torá adverte sobre esse tipo de progressão quando diz: "[Mas isto é o que acontecerá] se vocês não Me ouvirem e não guardarem todos estes mandamentos: vocês passarão a denegrir Meus decretos e se cansarão das Minhas leis. Vocês não guardarão todos os Meus mandamentos e acabarão por anular a Minha aliança" (Vayicrá 26:15).

Se alguém se depara com perguntas e dúvidas a respeito dos fundamentos de nossa religião, deve ter fé de que essas perguntas podem ser respondidas. Nada pode resistir à fé absoluta, como nos ensinou o profeta: "O justo viverá pela sua fé" (Habakuk 2:4).

Se alguém sente que sua fé está vacilando, deve ponderar cuidadosamente a possível perda que a descrença acarretará em relação a qualquer benefício que ela possa trazer. Deveria confiar nas próprias convicções e não duvidar de seus próprios motivos.

Nível Mais Elevado de Fé

Alguns descrentes tentam explicar nossa crença psicologicamente. No entanto, o mesmo argumento pode ser usado em relação à descrença deles. Além disso, há considerável evidência objetiva da veracidade de nossa religião.

Há muitos ensinamentos em nossa religião que são conhecidos apenas pela tradição e não podem ser comprovados de forma alguma. Há um limite além do qual a prova racional falha e se desfaz, e é aí que devemos nos apoiar na fé e na tradição.

“A Torá não nos obriga a acreditar em absurdos.”

Contudo, a Torá não nos obriga a acreditar em absurdos, e devemos examinar cuidadosamente as fontes de crenças comuns absurdas para determinar se elas realmente têm fundamento na tradição. A respeito disso, está escrito: "O insensato crê em tudo, mas o prudente segue o caminho reto" (Mishlê 14:15).

Portanto, devemos estudar cuidadosamente e confiar nas palavras e nos escritos de nossos profetas e sábios. A crença em nossos grandes líderes, que são os pastores de nossa fé, equivale à crença no próprio D’us. Assim, somos ensinados que "crer no fiel pastor é como crer naquele que falou e trouxe o universo à existência". Da mesma forma, está escrito: "Creiam em D’us e vocês serão firmados; creiam nos Seus profetas e vocês prosperarão" (2 Crônicas 20:20).

O nível mais elevado de fé, alcançado apenas por indivíduos como nossos profetas e homens santos, é a transcendência de sua própria natureza física até que eles realmente experimentem o Divino e possam dizer: "Este é o meu D’us" (Shemot 15:2). Uma vez que uma pessoa tenha experimentado isso, não poderá haver dúvidas em sua mente, pois ela ultrapassou a mera fé e crença e alcançou o conhecimento inequívoco do Criador. Para quem nunca experimentou isso, é tão inimaginável quanto a cor é para um cego.

Respondendo ao Não-Crente

A fé em D’us e em nossos fundamentos religiosos é nossa posse mais preciosa e deve ser guardada como tal. A Torá reconhece o ateu e o chama de tolo, como está escrito: "Diz o insensato no seu coração: Não há D’us" (Tehilim 14:1).

Portanto, somos instruídos a não deixar que pensamentos ateístas ou desejos materiais minem nossa fé, como declara a Torá: "Não te desvies segundo o teu coração, nem segundo os teus olhos" (Bamidbar 15:39).cs

Este é um mandamento negativo, que depende do pensamento, e pode ser observado a qualquer momento, afirmando a própria vontade e recusando-se a ser desviado da nossa fé...

Deve-se estar suficientemente familiarizado com os fundamentos da nossa religião e seus argumentos racionais para saber como responder ao descrente. No entanto... deve-se, portanto, participar de um debate religioso apenas quando este for iniciado pelo descrente e houver o perigo de que ele possa influenciar outros, e mesmo nesse caso, não se deve debater a menos que se esteja completamente familiarizado com a questão e seja hábil em debater. Se alguém tem confiança de que pode prevalecer, pode debater, como nos é ensinado: "Responda ao tolo segundo a sua tolice, para que ele não se julgue sábio aos seus próprios olhos" (Mishlê 26:5).

Confiar em Milagres

Fé e confiança em D’us são parceiras, visto que aquele que crê em um D’us onisciente, onipotente e benevolente também deve crer que Ele proverá para os Seus fiéis. Portanto, deve-se confiar em D’us e não se preocupar excessivamente com o futuro. Assim está escrito: “Entregue o seu caminho a D’us. Confie nele, e ele agirá” (Tehilim 37:5) e “Bem-aventurado o homem que confia em D’us; D’us será o seu refúgio” (Yirmiyáhu 17:7).

Portanto, não se deve buscar prever o futuro por meio de adivinhação, astrologia ou outras superstições. A respeito disso, a Torá nos ordena: “Seja fiel a D’us, seu Senhor” (Devarim 18:13), o que algumas autoridades consideram um mandamento positivo.

Confiar em D’us não significa negligenciar planos para o futuro, nem significa ficar de braços cruzados esperando que Ele o alimente milagrosamente ou que negligencie a própria saúde, esperando que D’us o mantenha saudável. Sobre isso, está escrito: “A insensatez do homem perverte o seu caminho; no seu coração, ele acaba culpando a D’us” (Mishlê 19:3).

Certamente, ninguém deve se colocar em perigo e depois confiar em um milagre para salvá-lo. Mesmo em situações onde milagres eram prováveis, nossos sábios não dependiam deles e até se recusavam a se beneficiar deles.

Não devemos testar a D’us exigindo recompensa imediata por nossas boas ações. Se alguém está praticando uma boa ação, pode confiar em D’us e ignorar um possível perigo. Ainda assim, se o perigo for provável, é necessário que esteja atento.

Somos ordenados a não testar a D’us pedindo um milagre ou exigindo uma recompensa imediata por nossas boas ações, como está escrito: "Não ponha à prova o Senhor teu D’us" (Devarim 6:16). A única exceção a isso é o mandamento da tsedacá, caridade, sobre o qual D’us diz: "Trazei todos os dízimos... e com isso ponham-me à prova, diz o D’us dos Exércitos, para ver se eu abro as janelas do céu e derramo sobre vós uma bênção abundante" (Mal’Achi 3:10).

Alguns defendem que se pode pedir a D’us um sinal para ajudar a tomar uma decisão difícil, caso não haja outros meios lógicos disponíveis, mas isso só deve ser usado como último recurso...

Muito grande é a recompensa da fé. Assim, vemos que nossos ancestrais foram redimidos do Egito por causa de sua fé e confiança em D’us.

(Do "Manual do Pensamento Judaico" (Vol. 2, Editora Maznaim. Reproduzido com permissão.)