O judaísmo não acredita na liberdade de expressão. Existem certas maneiras de falar sobre outras pessoas que são proibidas ou desencorajadas. Essa sensibilidade aguçada à linguagem se baseia em um profundo respeito por seu poder. Em última análise, as palavras importam.

A Cabala ensina que a própria fala tem um efeito que vai além do simples evento em que uma pessoa diz algo para outra. O próprio fato de as palavras serem pronunciadas tem um certo significado e deixa uma marca energética. Um exemplo negativo desse fenômeno é o caso de lashon hara, que se traduz literalmente como língua má, mas inclui qualquer tipo de discurso prejudicial, incluindo fofoca, mesmo que seja verdadeira e/ou bem-intencionada.

A Torá proíbe falar1 ou mesmo ouvir lashon hara. Além disso, os Sábios nos dizem2 que, além de afetar negativamente quem fala e quem ouve, a fofoca tem um impacto negativo sobre a pessoa sobre quem se fala, além da óbvia difamação de caráter, mesmo que ela não a tenha ouvido. Podemos entender por que tanto quem fala quanto quem ouve lashon hara são punidos; eles cometeram uma grave transgressão.

Mas por que a pessoa de quem se fala deveria ser afetada negativamente?

Os cabalistas explicam que, ao falar sobre as qualidades negativas de alguém, evoca-se a sua manifestação. Embora a pessoa possa nem estar ciente de que estão falando dela, o fato de seus defeitos de caráter estarem sendo discutidos concretiza seu conteúdo em certo nível.

Em seu livro Hayom Yom, o Rebe ilustra o efeito deletério de tal discurso negativo com uma história sobre o Baal Shem Tov, o fundador do Chassidismo:3 “Certa vez, dois homens discutiram na sinagoga do Baal Shem Tov, e um deles gritou que despedaçaria o outro como um peixe.

Em resposta, o Baal Shem Tov disse a seus discípulos que dessem as mãos e ficassem perto dele com os olhos fechados. Então, ele colocou suas mãos sagradas sobre os ombros dos dois discípulos ao seu lado. De repente, os discípulos começaram a gritar em grande terror: tinham visto aquele homem desmembrando seu oponente.

“Este incidente demonstra que todo potencial tem um efeito — seja na forma física ou em um plano espiritual que só pode ser percebido com sentidos mais elevados e refinados.”

Com base nessa compreensão sutil do poder da fala para impactar negativamente os outros, podemos apenas imaginar os efeitos positivos que nossas palavras podem ter se proferidas com consciência e compaixão. Nesse espírito, nossos Sábios nos dizem para “julgar a todos para o bem”, incluindo tentar empaticamente compreender a origem das falhas das outras pessoas e “andar 1km em seus sapatos”.

Além disso, podemos encontrar ativamente maneiras de elogiar cada pessoa. O efeito espiritual de tal lashon tov, a fala positiva, é permitir que as boas qualidades de uma pessoa — que podem estar escondidas em seu interior — venham à tona.4 Se lashon hara tem como objetivo final destruir alguém, lashon tov tem como objetivo edificar.

Há inúmeros exemplos registrados do Rebe praticando lashon tov. De fato, concentrar-se conscientemente e verbalizar explicitamente o bem que encontrava em cada indivíduo era uma característica de todos os encontros do Rebe. Mais do que uma simples troca de gentilezas, o Rebe via essas palavras positivas como um fortalecimento ou ativação dos recursos ocultos de cada pessoa com quem conversava e interagia. Suas palavras positivas constantemente encorajavam as pessoas e tinham o propósito de lhes proporcionar um efeito espiritualmente fortalecedor.

Nas palavras de R. Mordechai Eliyahu, ex-rabino-chefe de Israel:5 “Durante nossos quatro encontros, o Rebe sempre buscava o mérito dos outros. Independentemente do assunto em discussão, o Rebe conduzia a conversa de forma a poder elogiar os outros.”

Neste capítulo, veremos inúmeros exemplos de como o Rebe expressava esse aspecto metalinguístico de sua inclinação para a positividade por meio do uso consistente do lashon tov (elogios positivos).

Elogios

Uma maneira particular pela qual o Rebe impactava positivamente os outros em conversas ou correspondências era sempre buscar uma oportunidade para elogiá-los. Receber um elogio de qualquer pessoa é edificante, quanto mais de um líder espiritual mundial.

Hoje, Você Foi o Professor

Após ficar noivo de uma moça da comunidade Lubavitch no Brooklyn, Jack Hardoff e sua noiva foram convidados para um encontro particular com o Rebe.

O Rebe contou que, assim como Jack, também havia estudado engenharia elétrica, concluindo sua graduação na Sorbonne, em Paris, e que, ao chegar da Europa durante a guerra, trabalhou como engenheiro no estaleiro naval do Brooklyn. O Rebe então pediu a Jack que o atualizasse sobre todos os novos desenvolvimentos na área da engenharia elétrica. O que deveria ser uma reunião de quinze minutos durou duas horas. Ao final, o Rebe abençoou o jovem casal com muitos anos de felicidade conjugal. Então, ele disse algo inesperado:

“Sabe, Yaakov ben Eliezer (nome hebraico de Jack), [normalmente] quando as pessoas vêm aqui me ver, eu sou o ‘rabino’ e elas são os ‘alunos’, mas hoje você foi o professor e eu o aluno.”

Nas próprias palavras de Jack:6 “Nunca me esquecerei deste elogio que ele me fez. É algo que lembrarei por toda a minha vida.”

Melhor que o Original

Raphael Nouril nasceu no Irã e formou-se como artista clássico. Mais tarde, mudou-se com a família para Londres, onde morou ao lado de uma família Lubavitcher que convidou os novos vizinhos para uma refeição.

Ao entrar na casa, Raphael foi imediatamente atraído por um retrato do Rebe que estava pendurado na parede. Inexplicavelmente comovido, decidiu ali mesmo que queria pintar um retrato do Rebe.

Sempre que Raphael pintava o retrato de alguém, procurava conhecer a pessoa de alguma forma antes de começar seu trabalho. Este retrato em particular, no entanto, apresentou um problema singular para Raphael.

“Eu me sentia distante em vários níveis. Além de estar a milhares de quilômetros de distância do Rebe, como uma pessoa secular, eu não sentia que conseguia me conectar com ele em um nível pessoal. Na minha busca por me aproximar dele, comecei a rezar, a usar tefilin e até mesmo a observar o Shabat e as festas.”

Após a conclusão do retrato, Rafael viajou para Nova York com seu vizinho para mostrar ao Rebe sua obra. Depois de comentar sobre a posição de suas mãos na pintura, Rafael perguntou ao Rebe o que ele achava do rosto.

“Muito bom!”, disse ele três vezes, e então acrescentou com um sorriso:

“Melhor que o original!”7

Elogie-o Adiante

Em uma carta à Sra. Rachel Altein, Ima [mãe em hebraico] do Acampamento Gan Israel em Swan Lake, NY, o Rebe escreveu:

“Durante minha recente visita de inspeção ao Acampamento, fiquei satisfeito ao ver como as crianças pareciam felizes e a evidência do bom cuidado e atenção que estão recebendo. Sem dúvida, a senhora tem uma parte substancial disso, como Mãe do Acampamento. Embora eu saiba que seu trabalho no Acampamento é motivado pelos mais altos ideais, de modo que uma expressão de agradecimento pode ser supérflua, particularmente porque conheço sua educação e formação, bem como a de seu marido. No entanto, quero compartilhar com vocês minhas impressões sobre a visita ao Acampamento, pois espero que o conhecimento do sucesso de vocês redobre seus esforços em prol das crianças e do Acampamento.

Empoderamento

Outra maneira pela qual o Rebe impactava positivamente as pessoas por meio da palavra era fortalecendo-as em suas virtudes que já expressavam, ou mesmo apontando-lhes algum potencial ainda não revelado.

Um General no Exército do Rebe

David Chase, um empresário americano bem-sucedido, tinha uma relação muito próxima com o Rebe e buscava constantemente apoiar seus projetos.

Certa vez, na reunião anual do Fundo de Desenvolvimento Machané Israel, ele disse ao Rebe o quanto se sentia honrado por ser “um dos soldados do seu exército”.

O Rebe o elogiou com esta resposta rápida: “Você não é apenas um soldado; você é meu general!”

Pouco tempo depois, o Sr. Chase encontrou o Rebe durante o a fila do dólar. Após cumprimentá-lo, recebeu prontamente outra promoção: “[Eu o considero] um general de quatro estrelas”.

Nesses dois breves diálogos,8 o Rebe expressou sua confiança nas habilidades de liderança do Sr. Chase, encorajando-o a deixar de lado o papel de soldado e vestir o uniforme de general. Ele havia cumprido ordens por tempo suficiente; agora era hora de se tornar um líder.

Bonita por Dentro

Susan Schuster cresceu em um ambiente secular em Nova York. Estudou, tornou-se enfermeira e casou-se com um cirurgião plástico bem-sucedido. Pouco tempo depois, mudaram-se para a Flórida e começaram a ter filhos. Um de seus filhos fez amizade com uma família Lubavitcher em sua escola judaica, o que incentivou sua própria família a se tornar mais religiosa. Eventualmente, fizeram uma viagem ao Brooklyn para conhecer o Rebe, o que, segundo Susan, foi “indescritível”.

Após esse primeiro encontro com o Rebe, eles retornaram muitas vezes e continuaram a se envolver mais religiosamente. Em um encontro posterior, o Rebe disse a Susan: “Seu marido é cirurgião plástico; ele torna as pessoas bonitas por fora. Sua missão deve ser tornar as pessoas bonitas por dentro”.

Susan levou essas palavras a sério e começou a convidar pessoas para sua casa para refeições de Shabat, em um esforço para ajudá-las a encontrar significado espiritual em suas vidas. Em suas próprias palavras:

“Eu me esforçava muito para preparar essas refeições e para deixar a mesa muito bonita, para que refletisse a beleza interior do judaísmo”.

Graças ao constante incentivo e apoio do Rebe, os Schusters chegaram a iniciar e administrar um minyan de sucesso em sua vizinhança por muitos anos, proporcionando a outros a oportunidade de se reunirem e se conectarem a um propósito maior.9

O Que Há em um Nome?

Uma maneira muito pessoal pela qual o Rebe reforçava os outros era vinculando seus incentivos e bênçãos para o sucesso ao nome deles. Essa prática se baseia na afirmação talmúdica de que R. Meir encontrava referências ao caráter de uma pessoa em seu nome, e na ideia cabalística que afirma que qualquer pessoa ou coisa é, em algum nível espiritual, definida e revelada através da(s) palavra(s) pela(s) qual(is) é chamada, o que significa que sua essência interior pode ser explicada criativamente através do prisma de seu nome.

Para Influenciar o Mundo Inteiro

Durante um dos muitos encontros na Fila do Dólar, Rabi Yitzchak Kaduri, um influente cabalista e professor sefardita, pediu ao Rebe uma bênção para o sucesso de seu novo projeto: uma yeshivá cabalista em Israel. O Rebe respondeu com abundantes bênçãos pelo sucesso do projeto e seu potencial impacto, “para influenciar o mundo inteiro, o que é apropriado para o seu nome, Kaduri (que significa global). [Através da sua yeshivá] vocês poderão influenciar não apenas a Terra Santa, mas o mundo inteiro.”10

De um Lugar de Amor

Pouco depois dos distúrbios de Crown Heights em 1991, o senador americano Alfonse D’Amato visitou o Rebe com o então Procurador dos Estados Unidos para o Distrito Leste de Nova York para assegurar-lhe que estavam cientes dos problemas no bairro e que levavam a proteção do povo judeu muito a sério.

O Rebe ofereceu muitas palavras de sabedoria e bênçãos, que ele sempre expressava como sendo destinadas a “todo o povo de Nova York e dos Estados Unidos”, e então acrescentou um comentário pessoal dirigido ao senador D’Amato.

“Você sabe que a palavra ‘Amato’ tem uma conexão com a palavra amor [em italiano]”, disse o Rebe.

Ele então prosseguiu: “Que D’us os abençoe abundantemente para que façam todas essas coisas com amor interior, e então certamente [toda] a população de Nova York responderá a vocês [e seus colegas] com seu sentimento de amor verdadeiro.”11 Nas palavras de nossos Sábios:12 “Palavras que vêm do coração, entram no coração.”

Unificando a Multidão

Rabi Guedalya Schreiber serviu como diretor-geral do Ministério de Assuntos Religiosos em Israel, entre outros cargos. Em 1980, ele veio a Nova York para um casamento e durante a viagem, aproveitou a oportunidade para se encontrar com o Rebe.

Um tópico específico que surgiu foi a questão da unidade judaica. “Existem tantos campos separados — Ashkenazita, Sefardita, direita e esquerda — mas a chave para o nosso futuro é a unidade”, disse o Rebe.

Ele queria saber o que o Rabino Schreiber e outros no governo estavam fazendo para unir as diversas facções. Depois de ouvir sobre as muitas atividades do Ministério de Assuntos Religiosos para alcançar esse objetivo, o Rebe o incentivou a continuar fazendo mais e a não se contentar com o que já haviam conquistado.

Na hora de ir embora, o Rebe disse: “Seu nome é R. Geudalya Schreiber. O Rei David diz no Tehilim 55:15: ‘Entramos na casa de D’us com uma multidão’. A palavra hebraica para multidão — ReGueSH — é o acrônimo do seu nome, R. Gedalya Schreiber.”

Segundo o Rabino Schreiber: “Quando saí da sala, eu era uma pessoa diferente. Este encontro com o Rebe me deu força de propósito, e o espírito e a percepção do Rebe me guiaram por toda a minha vida.”13

Enxergando os Outros por Quem Eles São

Um exemplo final do uso do lashon tov pelo Rebe para impactar positivamente todos aqueles que encontrava era sua maneira de fazer com que cada pessoa se sentisse especial e única — desde lembrar os pequenos detalhes de uma interação específica até fornecer orientação específica com base nos interesses ou circunstâncias individuais de cada pessoa. Nos casos a seguir, podemos ver várias maneiras pelas quais o Rebe tratava cada pessoa como uma alma singular.

Tocando o Shofar

Em março de 1992, no último domingo em que o Rebe distribuiu dólares, o Juiz Jerome Hornblass, da Suprema Corte do Estado de Nova York, veio ver o Rebe,14 com quem já havia tido múltiplas interações ao longo dos anos.

Ao se aproximar, o Rebe ergueu os olhos e disse: “Oh, tekias shofar”, uma referência ao toque do shofar em Rosh Hashaná. Essa saudação não fez sentido para o Juiz Hornblass até que, mais tarde, ele conheceu o Rabino Zev Katz, gabai da sinagoga do 770 da Eastern Parkway.

O Rabino Katz disse a ele: “Talvez você se lembre de mim. Minha mãe estava internada no Hospital Memorial Sloan Kettering no último Rosh Hashaná, e você veio tocar o shofar no quarto dela.”

De repente, a ficha caiu: “Por acaso, você contou isso ao Rebe?”

“Sim, eu contei”, respondeu o Rabino Katz.

“Quando você contou a ele?”, perguntou o juiz.

“Logo depois de Rosh Hashaná”, respondeu.

De todas as pessoas que conheceu e das histórias que ouviu naquele tempo, o Rebe se lembrou do Juiz Hornblass e de seu ato de bondade, e não ia deixar isso passar despercebido.

Coisas Preciosas

A esposa de um distinto rabino de Nova York foi até o Rebe em um domingo para receber um dólar para caridade. O Rebe a cumprimentou calorosamente, dizendo: “É tão bom te ver. Você não vem aqui há algum tempo, mas é assim com as coisas realmente preciosas. Só as vemos de vez em quando.”15

D’us Te Ama Mmais

Em mais um exemplo do Rebe elevando os outros ao reconhecer sua centelha especial ou atributo da alma, certa vez, durante a Fila do Dólar, ele pediu a um rabino que explicasse a um convertido que o rabino havia trazido consigo para receber uma bênção que ele [o convertido] era “mais amado por D’us do que você ou eu.”16

Talvez o Rebe estivesse aludindo ao fato de que a Torá nos ordena a “amar o nosso próximo” apenas uma vez, mas nos instrui a “amar o convertido” pelo menos 32 vezes.

Sempre sensível aos sentimentos dos outros, nesta história o Rebe faz questão de elevar o espírito de um indivíduo que poderia ter se sentido excluído e, de alguma forma, como um estranho. Ao destacar que, aos olhos de D’us, o convertido era talvez ainda mais privilegiado do que outros, em virtude dos sacrifícios que fizera por sua fé, o Rebe o fazia saber que ele era verdadeiramente merecedor da mais alta honra e reconhecimento.

Podemos ver, em todas as histórias acima, que são como uma gota no oceano, o compromisso do Rebe com o bem-estar espiritual. Em cada interação, ele buscava constantemente uma maneira de elogiar, inspirar ou reconhecer o talento, a força ou o potencial especial de cada pessoa. Essa era uma expressão direta da crença do Rebe de que falar positivamente com ou sobre os outros manifesta e fortalece suas qualidades inerentes.