Saudações e bênçãos,

Recebi sua carta com algum atraso. Nela você escreve sobre a incerteza que sente a respeito de um compromisso com o judaísmo, visto que você pensa que uma vida de acordo com a Torá e mitsvot é restritiva, e limita o indivíduo em criatividade pessoal, particularmente na área de raciocínio e escolha para si mesmo, etc.; que é então difícil conciliar tal compromisso com a idéia de liberdade pessoal.

Francamente, esta atitude é de certo modo surpreendente, vinda de uma pessoa que raciocina. Suponho que a dificuldade aqui deve-se ao entendimento superficial do significado de “aceitação do jugo da Torá e mitsvot,” porque a palavra “jugo” sugere restrição.

Na verdade, há muitas coisas na vida diária que a pessoa aceita e segue sem questionar, mesmo se ele ou ela é um intelectual dotado, de mente inclinada a pesquisar. Como você está na faculdade, e estudou ciência, etc., certamente sabe que alguém não inicia o estudo em física e tecnologia desde a base, verificando tudo através de pesquisa pessoal e experimentação. Por exemplo, uma pessoa embarca num avião sem primeiro ter pesquisado aerodinâmica, etc., para verificar se é seguro voar nele, e se o avião o levará até seu destino aproximadamente na hora aprazada.

Podemos usar um exemplo da área da saúde física. Existem coisas bem estabelecidas como sendo úteis ou prejudiciais à saúde. Ninguém sai experimentando tudo pessoalmente para verificar a eficácia de uma droga qualquer. Mesmo se a pessoa tem forte inclinação para pesquisa e experimentação, certamente escolherá áreas que não tenham sido testadas previamente. Esta atitude geralmente aceita é perfeitamente lógica e compreensível. Visto que peritos pesquisaram amplamente estas áreas e determinaram o que é bom e o que é daninho à saúde física, ou estabeleceram os métodos que possibilitam maiores avanços tecnológicos, seria, na melhor das hipóteses, perda de tempo tentar novamente todas as experiências desde o início. Além disso, nada nos assegura que alguém não cometa algum erro, e chegue a conclusões erradas, com efeitos desastrosos, como já aconteceu em certos casos.

O que foi exposto acima a respeito da saúde física também se aplica a saúde espiritual, e como a neshamá pode atingir a perfeição e a plenitude. Além disso, saúde física está geralmente relacionada com saúde espiritual, principalmente quando se trata de judeus.

O Criador do homem, que é também o Criador e Mestre de todo o mundo, certamente tem as melhores qualificações que se poderia esperar de qualquer autoridade, para saber o que é bom para o homem e para o mundo no qual ele vive. Em Sua bondade, D’us nos proveu com resultados finais e completos, fazendo-nos saber que se uma pessoa conduzir sua vida de uma certa maneira, então terá uma neshamá saudável em um corpo são, e isso será bom para ela, tanto neste mundo como no mundo Vindouro. D’us deixou algumas áreas nas quais uma pessoa pode tentar suas próprias experimentações, em outros aspectos que não interferem com as regras estabelecidas por Ele.

Em outras palavras, é bem provável que, se um ser humano viver bastante, e tiver as necessárias habilidades para fazer todos os tipos de experiência sem distração e interferência, sem erro, ele sem dúvida chegaria à mesma conclusão que já encontramos na Torá que D’us nos deu, a saber, a necessidade de observar Shabat, comer alimentos casher, etc. Mas, conforme mencionado acima, D’us em Sua infinita bondade – e está na natureza de D’us fazer o bem – desejou nos poupar a todos de problemas, bem como da possibilidade de erro, e nos deu os resultados de antemão, pois o benefício tanto para a pessoa que tem inclinação e capacidade de pesquisa, como para aquela que não a tem.

A expressão “jugo” em relação à aceitação da Torá e mitsvot na vida diária é para ser entendida no sentido de que a natureza humana faz necessário que se aja em imperativos. Pois, natureza humana e a Yetser Hará são de tal forma que um indivíduo poderia facilmente sucumbir à tentação. A tentação é doce no princípio, porém amarga no fim. Mas a natureza humana é tal que um indivíduo pode desprezar as conseqüências amargas por causa da gratificação inicial.

Observamos, por exemplo, que crianças, e às vezes até adultos, são advertidos que exagerar em certas comidas poderá ser prejudicial e mais tarde os tornará doentes, e que por um período de tempo eles não poderão comer nada; mesmo assim eles rejeitam os avisos para satisfazer seu apetite ou paixão imediatos. De maneira similar, D’us nos deu o “jugo” da Torá e mitsvot, dizendo-nos que se alguém as entende ou não, qualquer que seja a tentação, a pessoa deve cumprir os mandamentos de D’us sem questioná-los.

Há um ponto adicional, e este é o aspecto mais essencial do conceito do jugo da Torá e mitsvot. Embora, como mencionado acima, a Torá e mitsvot tenham sido concedidas para o benefício do homem, tanto nesta vida como na vida Eterna, há uma qualidade infinitamente mais grandiosa com a qual D’us dotou a Torá e mitsvot. Esta é a qualidade de unir o homem com D’us, a criatura com o Criador, que de outra forma nada teriam em comum. Pois, dando ao homem um conjunto de mitsvot para cumprir na vida cotidiana, D’us tornou possível ao homem unir-se ao seu Criador, e transcender as limitações de um ser limitado, vivendo num mundo limitado. A Torá e mitsvot constituem a ponte que passa sobre o abismo infinito separando o Criador da criatura, possibilitando ao ser humano elevar-se e aproximar-se da Divindade. É claro que esta qualidade pode ser conseguida apenas se a pessoa observa a Torá e mitsvot não pela recompensa que advirá para o corpo, ou para a alma, ou ambos, mas simplesmente porque são a vontade de D’us, bendito seja Ele. É também por esta razão que o texto da berachá que um judeu faz antes de cumprir uma mitsvá não menciona a qualidade da mitsvá, mas ao contrário, o fato de que “Ele nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou.”

Finalmente, gostaria de dizer que o fato de que você tem algumas dúvidas e incertezas não deve desencorajá-lo de forma alguma. De fato, a Torá deseja que a pessoa utilize todas as suas habilidades, incluindo a mente e a inteligência, ao serviço de D’us desde que a abordagem seja a correta, i.e., a aceitação da Torá e mitsvot em primeiro lugar. É natural e até mesmo desejável que alguém deva entender tudo que está ao alcance de sua capacidade mental. No seu caso, isto é ainda mais importante, porque você tem oportunidade de influenciar e beneficiar outras pessoas jovens que possuem a mesma capacidade intelectual que você.

Muito mais pode ser dito com relação a um assunto tão profundo, mas creio que as linhas acima, embora limitadas em quantidade, têm conteúdo suficiente para iluminar os verdadeiros aspectos deste problema. Além disso, se ainda desejar discutir esse assunto com mais profundidade, certamente tem amigos entre os Anash de Londres que sentir-se-ão contentes em esclarecê-lo.

Com bênçãos,