Estes três níveis de relacionamento entre marido e mulher refletem os três níveis gerais de relacionamento entre D'us e o homem.

Um tsadic (o justo consumado) é alguém tão completamente devotado a D'us que nunca se considera como uma entidade separada ou individual. Sim, sua observância da Torá e dos mandamentos está repleta da intenção de aderir e tornar-se unido a D'us, cumprindo Sua vontade, e vivencia a Divindade com amor e temor. Mesmo assim, atribui tudo à infinita graça e providência de D'us. Como dizem nossos Sábios (Ética dos Pais 3:7): "Dê (i.e., atribua) a Ele tudo que Lhe pertence, pois você e tudo que é seu pertencem a Ele."

D'us reage atribuindo orgulhosamente todo o bem na realidade ao mérito do tsadic. De fato, como foi mencionado acima, Seu motivo ao criar o mundo foi o prazer que Ele derivaria das boas ações dos justos.

O segundo nível de relacionamento corresponde à consciência do benoni (servo "intermediário" de D'us).

Em todas as formas de comportamento - pensamento, palavra e ação - o benoni renuncia ao estilo de vida alimentado pela imaginação não retificada e assim, está livre do pecado, mas seu motivos ainda não são totalmente puros; não abriu mão de sua individualidade. Está empenhado em ajudar D'us a levar o mundo à perfeição, cumprindo Sua vontade com alegria, porém permanece cônscio de que está agindo também para seu próprio bem.

Nossos Sábios interpretam a frase que conclui o versículo: "Cumprirás os mandamentos, as regras, e as leis que Eu te ordeno hoje a cumprir" (Devarim 7:11) como implicando: "hoje [neste mundo] cumpri-los, e amanhã [no Mundo Vindouro] receber a recompensa" (Eruvin 22a; Avodá Zará 3a).

O benoni interpreta isso como significando que, embora o desafio deste mundo ("hoje") seja cumprir fielmente os mandamentos de D'us, em retorno, a pessoa certamente herdará ("amanhã") a recompensa do Mundo Vindouro.

Um tsadic, por outro lado, entende este ensinamento como significando que a pessoa deveria "hoje" estar preocupada apenas com o "hoje" e suas tarefas, não se preocupando com o "amanhã" e suas recompensas. Pois na verdade, "uma hora de teshuvá [retorno a D'us através da auto-retificação] e boas ações neste mundo representa mais que toda a vida no Mundo Vindouro" (Ética dos Pais 4:17), pois neste mundo a pessoa pode unir-se totalmente a D'us ao cumprir Sua vontade. O serviço do tsadic a D'us é sem nenhum interesse. Seu desejo incondicional de servir e tornar-se um com Ele obstrui qualquer preocupação com o recebimento de uma recompensa, mesmo aquela do Mundo Vindouro.

Rabi Shneur Zalman de Liadi ilustra esta idéia do seguinte modo (Ma'amarei Admor Hazaken Haketsarim, p. 461):

O Midrash (Shir Hashirim Rabbá 1:31) relata a história de uma mulher que estava casada há muitos anos, mas não tinha filhos. O marido, por isso, decidiu divorciar-se dela. Procurou Rabi Shimeon bar Yochai, de abençoada memória, e este lhe respondeu que assim como celebraram o casamento com júbilo, assim também deveriam celebrar o rompimento com alegria.

O marido preparou uma grande festa, e a certa altura disse à mulher que escolhesse as possessões que desejasse para si, assegurando-lhe que nada recusaria a ela.

O que fez ela? Serviu-lhe tanto vinho que ele ficou bêbado e foi dormir, e a mulher disse então aos servos que o levassem com a cama para o quarto dela.

Na manhã seguinte, quando ele acordou e achou-se na casa dela, perguntou-lhe por que havia sido levado para lá - não deixara claro que pretendia divorciar-se dela? A mulher replicou: "Você não falou que eu poderia pegar aquilo que desejasse? Bem, não quero ouro nem prata, nem pedras preciosas, nem pérolas; tudo que desejo é você. Você é o único objeto de meu desejo."

Ouvindo isso, o marido tornou-se novamente apaixonado pela esposa, e tomou-a de volta. E pelo mérito dessa ação, o Todo Poderoso, bendito seja, abençoou-os com filhos.

Assim é com o serviço de D'us. Como foi declarado (Cântico dos Cânticos 8:2): "Servir-te-ei vinho aromático, a fragrância de minhas romãs" - isso refere-se ao fato de que o menos valioso de Israel é tão cheio de méritos acumulados por cumprir os mandamentos de D'us como uma romã é cheia de sementes. A noiva, Israel, servindo o noivo, D'us, significa despertá-Lo para descer e habitar entre nós, pois assim fazendo, estamos na verdade dizendo a Ele: "Quem tenho eu no céu, e eu nada desejo além de Ti na terra" (Salmos 73:25). Isso significa: Não desejo nenhum bem ou deleite, seja no elevado Jardim do Éden, seja no Jardim do Éden inferior; nada desejo além de Ti.

Neste mérito, a pessoa "carregará" progênie espiritual - um filho e uma filha, i.e., amor e temor a D'us. [Amor e temor a D'us são considerados progênie espiritual, visto que são o "rebento" da meditação intelectual].

E também no plano físico, "ele dará frutos e [merecerá] longa vida" (Yeshayáhu 53:10).