A Cabalá e o Chassidismo ensinam que, além da compreensão comum da Torá que compartilha com todos os judeus, cada indivíduo tem uma conexão somente sua com (ou um ângulo que ele conecta com) a Torá, diferente de qualquer outro judeu. Assim, a obrigação do judeu de aprender a Torá não consiste apenas da exigência de dominar certos tipos e quantidades de informação, mas a exigência de revelar também quaisquer percepções que sua perspectiva única da Torá lhe proporciona. Ao identificar-se com sua fonte única na Divindade, o judeu pode revelar sua conexão ímpar com a Torá, e a partir daí revelar sua porção da Torá.

Quando isso acontece, o indivíduo judeu e seu mentor compartilham uma parcela da experiência de Moshê, o conduíte humano através do qual a Torá foi introduzida ao mundo. A profecia de Moshê foi a mais perfeita e transparente de todos os profetas. Nas palavras de nossos Sábios: a Divina Presença falou através da garganta de Moshê. Um aspecto central do futuro messiânico é que nele, toda a humanidade atingirá este nível de união com D'us: Eu derramarei Meu espírito em toda carne; seus filhos e filhas profetizarão (Yoel 3:1).

Mesmo alguém que não tenha ainda atingido este grau de comunhão com D'us pode ainda beneficiar-se da habilidade da palavra para revelar a essência interior e impenetrada da alma Divina. Ele faz isso através da palavra espontânea e pura.

No pensamento chassídico, a palavra é vista como a do meio das três vestes ou veículos de expressão disponível para a alma. A veste mais refinada e abstrata é o pensamento, e a mais externa e concreta é a ação. O caminho geralmente seguido por uma idéia originada na mente é seqüencialmente através destas três vestes: pensamos a idéia, falamos sobre ela e finalmente a colocamos em ação.

Assim, geralmente pensamos e usamos a palavra como uma forma de expressar as idéias já processadas e pensadas em nossa mente consciente. Como tal, a palavra, aparentemente, não poderia revelar mais a outra pessoa que nosso mundo interior do pensamento. O mundo do pensamento consciente, entretanto, é bastante limitado em relação aos vastos reinos do pensamento inconsciente que constituem a mente subconsciente. A palavra, assim, pareceria estar restrita a expressar as idéias limitadas da mente consciente.

A verdade, entretanto, é que a fala não está ligada de nenhuma maneira específica ao pensamento; é uma veste independente que funciona por si própria. Assim como, às vezes, não falamos sobre nossas idéias mas simplesmente pensamos sobre elas e depois agimos a partir delas, contornando a veste da palavra, portanto podemos às vezes contornar o pensamento consciente e expressar com a palavra uma idéia originando-se nos níveis pré-conscientes da mente. Este tipo de discurso é espontâneo e sem ensaio, em contraste ao tipo de discurso bem pensado e deliberado que expressa cuidadosamente as idéias, editadas e censuradas pela mente consciente através da faculdade do pensamento consciente. Nestes casos de discurso espontâneo, as idéias expressas são os pensamentos profundos e subconscientes que não foram processados ou refinados pela mente consciente.

Como todos sabemos, tais expressões espontâneas da mente subconsciente podem, e ocasionalmente escorregam, através do processo de censura da mente consciente e afloram por distração no decorrer da conversa, muitas vezes para nosso constrangimento. Para que a faculdade da fala expresse os profundos recessos da mente de maneira mais uniforme, entretanto, a pessoa deve ser persuadida a abaixar sua guarda. Isso raramente pode ser conseguido diretamente e com o consentimento consciente da pessoa; geralmente é tarefa do terapeuta ou confidente relaxá-la e fazê-la sentir-se suficientemente à vontade e confiante para permitir que a sentinela de sua mente consciente seja aplacada em um estado temporariamente adormecido. A consciência da pessoa então, muda para um estado mais natural e espontâneo, conforme ela despe a armadura psicológica que normalmente usa a fim de proteger a imagem que deseja preservar para si e para os outros.

Quando isso é feito, a pessoa pode começar a articular suas percepções singulares na Torá, tanto quanto alguém que atingiu o nível de comunhão com D'us descrito nos capítulos anteriores.