Por Rabino Simon Jacobson
D'us nos criou como seres físicos num mundo físico. Criou um mundo no qual pudéssemos ser independentes e optar livremente, um mundo no qual as realidades superiores do espírito são obscurecidas e a realidade física torna-se mais importante.

Em um certo sentido, porém, há duas realidades ocorrendo simultaneamente. Na terminologia cabalista e chassídica, uma realidade é chamada daas elyon, a opinião do Alto (o ponto de vista espiritual), e a outra realidade é chamada daas tachton, a opinião inferior (o ponto de vista físico). Estas perspectivas são talvez mais bem descritas como a opinião "de dentro para fora" e de "fora para dentro," respectivamente.

Vemos o universo de fora para dentro. Quando conhecemos pessoas, a primeira coisa que nos chama a atenção são seus aspectos externos. Depois estudamos sua linguagem corporal e tentamos, por meio da comunicação e outros métodos, penetrar a superfície para descobrir o que há no seu interior. A única existência na terra que realmente vivenciamos de dentro para fora somos nós mesmos. Não precisamos olhar no espelho para saber como nos sentimos. A Torá e a Cabalá dizem que este fenômeno é verdadeiro com todo o universo. D'us fez um mundo que é de dentro para fora e pediu-nos para revelar sua Divindade transformando-a em "de fora para dentro."

Ora, se estamos contemplando a vida sob uma perspectiva de fora para dentro, aquilo que é espiritual, mais interno, pode facilmente ser mal interpretado como sendo nada. Mas sob a perspectiva de dentro para fora, ocorre exatamente o oposto: aquilo que está ocorrendo no exterior realmente não é nada. Sob esta perspectiva, aquilo que chamamos de nada é realmente algo (o alguma coisa da realidade espiritual), e aquilo que chamamos de alguma coisa (as realizações externas do mundo material) é relativamente nada.

O Shabat é o dia que nos revela o nada de alguma coisa e a alguma coisa do nada. Quando nos sentamos à mesa do Shabat e temos de iniciar uma discussão que não seja sobre o mercado de ações, esportes ou fofocas, somos forçados a ir mais fundo e descobrir nosso verdadeiro eu. Temos a oportunidade de sentir a beleza da família, passar tempo com nossos filhos, falar sobre coisas que realmente são importantes, e nos relacionar com D'us em canções, estudo e prece. Aquilo que emerge é uma realidade de dentro para fora, uma realidade do nada que realmente é alguma coisa.