Por Professor Jonathan Sachs, Rabino Chefe da Inglaterra
É a linha mais pungente na Torá. D’us acaba de criar um mundo de ordem e beleza. Então Ele vê os seres humanos, Adam e Eva, e depois Caim, começando a destruir aquela ordem, até que na época da geração do Dilúvio, o mundo está repleto de violência. E sobre isso está escrito: "E D’us Se arrependeu de ter colocado o homem sobre a terra, e isso O desgostou profundamente."

Esta linha tem me assombrado nestes últimos dias.Lamentamos pelas vítimas de Beslan, os mortos, os feridos e os desaparecidos, as famílias abaladas, as vidas interrompidas.
Mas certamente nossa dor é ainda mais profunda pela humanidade em si, por termos caído tão baixo – porque um novo tipo de violência penetrou em nosso mundo: não violência pelo lucro, como no crime; não a violência contra os oponentes, como na guerra; mas a violência contra os inocentes, funcionários de escritórios como no Onze de Setembro, pessoas em férias, como no caso de Bali, e agora contra a própria inocência, crianças em seu primeiro dia de volta às aulas.

Esta é a violência sem propósito, que não ajuda nenhuma causa, não tem vitórias, seja o que for que os criminosos digam a eles mesmos.

Nestes últimos anos, temos ouvido falar muito sobre armas de destruição em massa, nucleares, químicas e biológicas. Porém o tempo todo temos olhado na direção errada. Estes crimes do terror não envolveram armamento sofisticado.

Onze de Setembro foi feito por meio de aviões; Beslan com rifles e explosivos. Não se trata de como foram feitos, mas por que foram feitos. Foram perpetrados como gestos simbólicos, planejados para chamar a atenção das câmeras de TV do mundo, na mais total indiferença com as vidas destruídas neste processo. A maior arma de destruição em massa é o coração humano.
Conhecemos agora o desafio que a humanidade enfrenta no século 21: a democratização da violência. No passado, somente países podiam promover guerras. Atualmente qualquer grupo pode, desde que sua imaginação seja suficientemente perversa, seu alvo inocente, sua escala espetacular. Este é um desafio que vai além da política e afeta as próprias raízes da condição humana.

Em nossas sinagogas, esta semana, estaremos lendo algumas palavras da Torá que falam conosco de maneira tão direta como o fizeram na primeira vez em que foram pronunciadas, talvez as únicas palavras com força suficiente para nos salvar de nós mesmos: "Este dia eu convoco céu e terra como testemunhas contra vocês, que Eu coloquei perante vocês vida e morte, bênção e maldição; portanto, escolham a vida, para que vocês e seus filhos possam viver."