Por Yosef Y. Jacobson
Um conselho médico
Uma mulher acompanhou o marido ao consultório médico. Após o exame, o médico chamou a mulher separadamente no consultório e disse: "Seu marido está passando por um problema de stress muito grave. Se a senhora não seguir meus conselhos, a saúde de seu marido se deteriorará e ele certamente morrerá."
"Todas as manhãs" - instruiu o médico - "prepare para ele um café da manhã saudável. Seja agradável o tempo todo. Para o almoço, faça uma refeição nutritiva. Ao jantar, prepare algo muito especial para ele. Tenha o jantar pronto, esperando por ele na mesa, quente, assim que ele chegar em casa após o trabalho. Não o sobrecarregue com tarefas domésticas. Não discuta seus problemas com ele, pois isso apenas aumentará seu stress. Não é permitido nenhum aborrecimento. A senhora deve também cumprimentá-lo pelo menos cinco ou seis vezes ao dia, dizendo como ele é inteligente e talentoso. E o mais importante, nunca discorde dele.
"Se puder fazer isso pelos próximos 10 meses a um ano" disse o médico - "creio que seu marido recuperará a saúde por completo."
Na volta para casa, o marido perguntou à mulher: "O que o doutor disse?"
Replicou ela: "Disse que você vai morrer."

A proposta
Há uma passagem talmúdica enigmática explicando a frase peculiar na Porção de Yitrô: "Eles (o povo judeu) ficaram ao pé da montanha (Sinai)1".
Qual o significado das palavras "ao pé da montanha"? O Talmud explica2 que os judeus na verdade estavam dentro da montanha. "D'us os envolveu com a montanha, como se esta fosse um tonel de cabeça para baixo, e Ele disse-lhes: 'Se vocês aceitarem a Torá, tudo bem; caso contrário, este será seu túmulo.'"
O evento no Sinai é visto como a cerimônia de casamento entre D'us e o povo judeu3. Imagine que você ouvisse um noivo que, no dia do casamento, colocasse a noiva debaixo de um elevador e declarasse: "Se você casar comigo, tudo bem. Caso contrário, o elevador cairá em sua cabeça." O que você sentiria por um noivo assim?
D'us não poderia ter encontrado uma maneira mais "romântica" de convencer a "noiva" a desposá-Lo?
O que é ainda mais intrigante é o fato de que, segundo a narrativa bíblica4, o povo judeu já tinha expressado sua disposição de aceitar a Torá antes deste acontecimento. Por que foi preciso que D'us os coagisse a algo com o qual já tinham concordado5?
Deixe-nos apresentar a explicação dada por um dos mais notáveis mestres espirituais de todos os tempos, o Báal Shem Tov6.

Dias insensíveis
Há dias em que estamos emocionalmente conectados com nossa espiritualidade interior e com a Divindade. Nestas ocasiões, somos inspirados a viver e amar profundamente.
Mas existem os dias em que nos sentimos afastados de nossa alma. Estamos emocionalmente insensíveis, sentindo que somos meramente criaturas egoístas e materialistas, procurando saciar nada mais que nossos desejos momentâneos. Simplesmente não temos disposição para D'us. Nestas ocasiões de alienação espiritual, freqüentemente sucumbimos ao comportamento mundano e egoísta. Como nos sentimos desconectados, agimos como se estivéssemos de fato desconectados.
Isso está errado. Quando D'us forçou o povo judeu a entrar no relacionamento - embora eles já tivessem concordado - Ele demonstrou a eles a verdade que o relacionamento não estava baseado no fato de que eles estavam conscientemente apaixonados a respeito dele. Em vez disso, o relacionamento era inerente e essencial à própria química deles7. O homem é uma criatura espiritual e divina por natureza. "Mesmo quando você não está com disposição para Mim" - D'us estava dizendo - "nosso relacionamento é tão forte como sempre foi. Aja desta forma."

Momentos vacilantes Na tradição judaica, o casamento de cada homem e mulher reflete o casamento cósmico entre D'us e Seu povo8. Há dias em que nos sentimos realmente gratos por nossos cônjuges, e sentimos um profundo amor por eles. Nestas ocasiões, ansiamos por dar o melhor de nós mesmos a nossos cônjuges, e tornar a vida deles mais feliz.
Mas outras vezes tornamo-nos frios e apáticos. Queremos apenas "ficar na nossa" e simplesmente não estamos com bom humor para o relacionamento.
Na maioria dos casos, poderia ser um triste erro agir baseado nestes sentimentos de afastamento. Pois a Cabalá ensina que9 marido e mulher são essencialmente "duas metades de uma única alma." Em seu âmago, eles são um. Assim, quando um casal contrai matrimônio, precisa recordar aquilo que D'us nos lembrou no dia de Seu casamento. Estejamos ou não de bom humor um para o outro, somos apenas um.
Tal compromisso poderia salvar muitos casamentos quando passam por tempos difíceis. Afinal, ele salvou o casamento entre D'us e os judeus.

Notas:
[1] Shemot 19:17
[2] Shabat 88a.
[3] Veja, por exemplo, Mishná Taanit 26b; Shemot Rabá, final da seção 15.
[4] Shemot 24:7.
[5] Esta questão é levantada por muitos comentaristas talmúdicos. Veja Tosfot, Ets Yossef, Pne Yehoshua, Shabat Shel Mi e Ben Yehoyada a Talmud Shabat ibid. Midrash Tanchumá Nôach, seção 3. Daat Zekenim Mibale Hatosafot sobre o Êxodo 19:17. Maharal Tifêret Yisrael cap. 32, Gur Aryê sobre o Êxodus ibid. e Or Chadash pág. 45.
[6] 1698-1760. Esta idéia foi transcrita pelo seu famoso discípulo, Rabi Yaacov Yossef de Pulna (Ben Porat Yossef Parashat Vayêshev, cf. Nesiv Mitsvoseca Nesiv Hatora 1:28). Para explicações alternativas veja nota mencionada no rodapé anterior, bem como Torá Or Meguilat Ester pág. 96c; 118c.
[7] Cf. Tanya capítulos 14, 18-19, 25, 28, 41, 44.
[8] Veja comentários ao Cântico dos Cânticos. Leis de Teshuvá de Maimônides, cap. 10.
[9] Zôhar Vayicrá. pág. 7b.