Pouco tempo depois de me mudar para Miami para me tornar diretor da escola Oholei Torah, em 1970, comecei a dar aulas de Torá nas noites de terça-feira. Uma pessoa que frequentava e às vezes apresentava essas aulas era um campeão de tênis local chamado David Lifshultz.
Um dia, David mencionou que jogava regularmente com o dono da Kennedy and Cohen, uma grande varejista regional de eletrodomésticos de grande porte. Seu nome era Mel Landow.
"Gostaria de ver se consigo colocar tefilin com ele", eu disse a David.
David tinha dúvidas se isso seria possível, mas me disse quando e onde encontrar Mel. Cheguei à quadra de tênis e, entre as partidas,o interrompi: "Que tal colocar tefilin?"
Mel recusou a princípio, mas propus uma aposta: "Se David ganhar a partida, você coloca tefilin."
Além de ser um dos grandes empreendedores do sul da Flórida, Mel era um excelente jogador de tênis, então aceitou.
"Dave, dê o seu melhor", eu gritava, e, claro, David o venceu. Logo após o jogo, Mel foi comigo até o meu carro, onde colocou tefilin. Algo o tocou nessa experiência, e ele também começou a frequentar minha aula de terça à noite. Costumávamos estudar as palestras do Rebe naquela aula, e Mel se apaixonou pelo Rebe e sua abordagem à educação. Mas, quando ofereci tefilin novamente, ele recusou. "Não é relevante para mim", ele dizia. "Não me fale sobre tefilin."
Então, um dia em 1972, quando nossa escola estava passando por dificuldades financeiras, Mel me chamou à sua casa. Ele disse que sua empresa estava abrindo capital e, com o pagamento, queria doar meio milhão de dólares para a construção de um novo prédio para uma escola judaica. Naquela época, uma quantia tão grande era inédita, e era apenas o começo do envolvimento de Mel Landow. Liguei para o Rebe imediatamente para dar a boa notícia.
Alguns dias depois, o secretário do Rebe, Rabino Hodakov, ligou. "Seria ótimo se você pudesse colocar tefilin com Mordechai Shaul Landow", disse ele, usando o nome hebraico de Mel.
"Isso é muito difícil de fazer." Comecei a desviar o assunto, mas então, de repente, ouvi a voz do Rebe, que estava ouvindo por um ramal. Pulei da cadeira; eu nunca o tinha ouvido ao telefone antes:
"Diga a ele que estou indo para Ohel." Ele estava se referindo ao local de descanso do Rebe Anterior, seu sogro, onde ele costumava ir para rezar. Rabino Hodakov explicou que eu deveria dizer a Mel que aquele seria um momento oportuno para ele colocar tefilin.
“Lindos tefilin", ouvi então o Rebe dizer, seguido pelo esclarecimento do Rabino Hodakov de que eu deveria me certificar de levar um belo par de tefilin para o Mel colocar.
Naquela época, só se vendiam tefilin de baixa qualidade em Miami, mas então ouvi a voz do Rebe novamente, sugerindo que eu usasse os meus próprios tefilin, mas com estojos bonitos.
Desliguei o telefone, fui à livraria judaica local, comprei um par de tefilin de sessenta dólares, coloquei os novos estojos nos meus tefilin e fui encontrar o Mel.
Ele estava jogando tênis.
"Sabe, Mel", comecei, "isso vai soar estranho, mas você gostaria de colocar tefilin hoje?"
"O que há de tão especial hoje?" ele perguntou.
Contei a ele sobre a ida do Rebe ao Ohel, acrescentando que o Rebe certamente rezaria por ele quando soubesse que Mel estava colocando tefilin. Ele concordou. Aliás, daquele dia em diante, começou a colocar tefilin todos os dias.
Em certo momento, decidi que Mel deveria conhecer o Rebe pessoalmente e marcamos um encontro. Mel trouxe alguns planos que vinha desenvolvendo para a escola em Miami, bem como para um grande projeto que queria construir em Israel. Esse empreendimento teria campos de golfe, clubes, quadras de tênis, instalações para convenções e o melhor spa do mundo; e o governo israelense lhe daria o terreno para fazer tudo isso. Na verdade, ele se encontraria com o ministro das finanças israelense, Pinchas Sapir, na manhã seguinte, e voaríamos de volta para Miami juntos naquela noite.
Enquanto esperávamos para entrar no escritório do Rebe, a hora do nosso voo se aproximava. Mel começou a perguntar a algumas das outras pessoas o que elas tinham vindo fazer. Depois de ouvir sobre como uma pessoa tinha esse problema comercial, e outra que tinha aquele problema de saúde, ele se virou para mim: "Sholom, vamos voltar. O Rebe tem tanta coisa para fazer. Não devemos incomodá-lo com nossas questões."
"Não", respondi. "Este não é o tipo de reunião que você perde se ficar tarde." Encontramos outro voo às 3 da manhã, passando por Atlanta, que nos levaria a Miami pela manhã, e então permanecemos.
Quando chegou a hora, fui ao escritório do Rebe junto com Mel, o apresentei e depois saí. Eu queria que ele ficasse sozinho com o Rebe.
"Vim lhe contar que faremos tudo certo em Israel", foi a primeira coisa que ele disse ao Rebe. "O povo judeu ficará ótimo."
O Rebe olhou para ele e disse: "Está tudo ótimo? E as centenas de milhares de crianças judias que estão perdidas nas ruas? E as que estão envolvidas com drogas?"
"Bem, Rebe", respondeu Mel, "deixe-me lhe dizer o que vou fazer em Israel." Ele então pegou suas plantas e mostrou ao Rebe.
"Deixe-me perguntar", disse o Rebe. "Quando você traz alguém para sua casa, você o leva para sua biblioteca e sua sala de estar, ou o leva para seu banheiro?"
"Para a biblioteca e a sala de estar, é claro."
"Então por que você está construindo banheiros em Israel?" O Rebe sentiu que havia coisas mais importantes para fazer na Terra Santa do que construir um spa.
Ele ficou lá por mais de uma hora e saiu em choque. Acabamos passando o resto da noite falando sobre o Rebe, antes de chegarmos a Miami pela manhã.
Naquela tarde, recebi um telefonema do Rabino Hodakov, que tinha uma mensagem do Rebe para Mel: "Conheci um judeu a quem D'us concedeu poderes que nem eu possuo. Por meio deles, ele trará centenas de milhares de crianças judias de volta às suas raízes. Normalmente, não se vêem os alicerces de uma construção, mas aqui, eu vi alicerces fortes e profundos."
No dia seguinte, uma carta do Rebe chegou por entrega especial. Começava assim:
“...Eu me perguntava quais seriam suas reações à minha maneira ‘antiamericana’ de recebê-lo. Pois, o costume americano aceito, se não me engano, é cumprimentar alguém com uma chuva de cumprimentos e elogios... No entanto, em vez de verbalizar longamente minha apreciação, eu... imediatamente o desafiei com novos e formidáveis projetos...
“Senti-me impelido a usar o precioso tempo à nossa disposição para discutir com você aqueles assuntos... de vital importância... Além disso, eu esperava que você aceitasse minhas sugestões com o espírito certo, precisamente porque você já teve um começo magnífico...”
Desde aquele início magnífico, milhares de crianças aprenderam na escola que Mel Landow patrocinou e apoiou ao longo dos anos, muitas das quais se tornaram líderes de comunidades.
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