Carta do Rabi Menachem Mendel Schneerson, o Lubavitcher Rebe
Com a Graça de D'us, 5 de Nissan, 5735

Bênção e paz,

Acuso o recebimento de sua correspondência e confio que tenha recebido as lembranças que enviei à senhora por meio de seu irmão...

Devo reiterar o que já lhe disse com relação a confiança (bitachon) em D'us, de que Ele faz tudo para o bem. Não é fácil aceitar o passamento de um ente querido próximo, mas uma vez que a Torá, chamada a Torá da bondade e a Torá da vida, nosso guia para a vida, estabelece limites para os períodos de luto, está claro que quando o tempo termina não é bom estendê-lo - não apenas por perturbar a vida que deve seguir em frente aqui na Terra, mas também porque não apetece à alma que está no Mundo da Verdade.

Uma outra questão, que acredito ter mencionado em nossa conversa, mas aparentemente não tão enfaticamente, como percebo de sua carta, é esta: seria contrário ao simples bom senso presumir que doença, acidentes ou similares, afetariam a alma, pois tais fatos físicos podem influir apenas no corpo físico e sua união com a alma, mas com certeza não na alma em si. Fica óbvio que o relacionamento entre as pessoas, especialmente entre pais e filhos, é espiritual, na essência e conteúdo, transcendendo tempo e espaço - cujas qualidades não estão sujeitas à influência de acidentes, doenças corporais, etc.

Segue-se que no passamento de alguém próximo, pela vontade de D'us, os que aqui ficaram não mais podem vê-lo com seus olhos ou ouvi-lo com seus ouvidos; mas a alma, no Mundo da Verdade, pode ver e ouvir. E quando percebe que seus parentes estão por demais perturbados por sua ausência física, a alma entristece; em oposição, quando percebe, após o período de luto prescrito pela Torá, que a vida normal e produtiva foi retomada, pode descansar em paz e em contentamento.

Desnecessário dizer que, para que o acima seja aceito não apenas intelectualmente, mas também implementado no cotidiano, na prática, é preciso estar ocupado, de preferência, com assuntos de interesse e satisfação "pessoais". Como também mencionei em nossa conversa, cada judeu tem a grata e edificante tarefa de difundir a luz no mundo pela promoção do judaísmo; particularmente, como em seu caso, quando pode ser de grande ajuda e inspiração para filhos e netos, que olham para a senhora e seu marido em busca de encorajamento, sabedoria, etc.

Eis aqui também a resposta para sua pergunta: o que se pode fazer pela alma de seu ente querido? Difundir o judaísmo com eficácia, demonstrar a simples fé judaica em D'us e em Sua benevolente Providência, praticar as boas ações que precisam ser feitas, com confiança e paz de espírito - isto gratifica verdadeiramente a alma no Mundo da Verdade, além de cumprir sua missão de vida mais pessoal e elevada como filha das Matriarcas Sara, Rivca, Rachel e Lea e, assim, servir como exemplo inspirador a ser imitado por outros.

É possível ampliar ainda mais o acima exposto, mas conhecendo o passado e tradição de sua família, acredito que isto basta. No entanto, cumpre-me adicionar que se deve tomar cuidado com o yêtser hará (má inclinação), que é muito ardiloso e sabe que certas pessoas não podem ser abordadas diretamente e sem disfarces. Assim, as tenta e engana, disfarçando-se sob o manto de piedade e emoções, etc. dizendo: "Sabe, D'us prescreveu um período de luto, que mostra o certo a fazer; então por que não ser mais religioso e estender o período?" Deste modo, pode conseguir desviar a atenção da pessoa do fato de que no final do referido tempo, a Torá exige que o judeu sirva a D'us com alegria. O yêtser hará até mesmo encorajará a doar tsedacá em memória da alma, estudar Torá e cumprir mitsvot, mas cada um destes atos estará associado com tristeza e dor. Mas, como afirmado, este é exatamente oposto ao objetivo, que é causar prazer e gratificação à alma.

Possa D'us conceder-lhe que, uma vez que estamos nos aproximando da Festa da Liberdade incluindo também a libertação de tudo o que distrai o judeu de servir a D'us com toda dedicação e alegria, que assim seja com a senhora, em meio a nosso povo, e que venha a ser uma fonte de inspiração e força para seu marido, filhos e netos, e todos a sua volta.

Desejando à senhora e a toda sua família chag casher vessamêach.

Com bênçãos,

(Assinatura do Rebe)