Por Chana Weisberg
A mãe volta-se para o filho adolescente e pergunta: "O que está te aborrecendo?" O garoto responde com um desconsolado encolher de ombros: "Deixa pra lá."
Um marido pergunta à mulher: "Eu fiz alguma coisa para te aborrecer? Há algo de errado?" Ela responde com o rosto desapontado: "Deixa pra lá…"
Um pai questiona a filha: "Terminou o dever de casa? Estudou para a prova?" A filha aumenta o volume nos seus fones de ouvido e resmunga: "Deixa pra lá."
Isso foi ouvido numa conversa: O que devemos fazer a respeito do terrorismo? Sobre as crianças à míngua na África? Sobre o aquecimento global? "Deixa pra lá".
Para mim, nada encerra tanto o espírito dos tempos como esse onipresente "Deixa pra lá". Somos uma Geração "Deixa Pra Lá" que vive pelo lema do "Viva e deixe viver"; nosso primeiro mandamento é "Terás a mente aberta para a moral das outras pessoas", ou de forma alternativa, do seu desejo de ser deficiente no aspecto moral. Nossa mente aberta é louvada como tolerante, mas para mim o mais apropriado é apatia.
Percebi que quando pergunto aos meus filhos o que querem para o jantar, nunca ouço "Deixa pra lá". Serei especificamente informada das comidas que eles gostam e não gostam, e como preferem que seja preparada. Porém assim que se trata de algo além de nossas necessidades mais imediatas, torna-se um esforço grande demais expressar uma opinião firme, formular um pensamento bem fundamentado, ou intervir com ajuda prática. Portanto, contentamo-nos com um "deixa pra lá".
Esse espírito se instalou em todas as facetas de nossa sociedade – na política, nas nossas escolas, no local de trabalho, nos relacionamentos, até na nossa maneira de vestir. Jovens e adultos usam punhos puídos, jeans rasgados, roupas de baixo aparecendo ou calças quase caindo. Tudo aquilo que proclame "Deixa pra lá" (ironicamente, gasta-se muito tempo e dinheiro para conseguir essa aparência de indiferença casual.)
"Deixa pra lá" significa que eu acho que você na verdade não se importa sinceramente. Mesmo que você esteja preocupado o suficiente para perguntar, não creio que envidará o esforço necessário para mudar a situação ou ajudar-me a melhorar minhas circunstâncias. Então, vamos ser sinceros: se você não se importa com isso e eu certamente também não me importo, então por que sequer nos incomodamos de discutir?
O adolescente então se enfada em silêncio e explora todos os tipos de buscas daninhas para esquecer sua angústia. O casal se junta aos 50% da população casada no tribunal de divórcios porque não podia se incomodar com o esforço necessário para resolver seus conflitos. E nossos filhos continuam a sentir que sua educação é irrelevante.
Não estou certa de como essa cultura do "deixa pra lá" se tornou tão encravada em nossa sociedade. Talvez tenha começado como verdadeira tolerância para a prática de outras. Talvez o bombardeio da mídia falando de atrocidades e calamidades – naturais ou causadas pelo homem – tenha criado dentro de nós esse mecanismo de defesa para combater a sensação de absoluta impotência face a tanta tragédia. Ou talvez tenha acontecido com a velocidade espantosa do avanço tecnológico: com o mundo inteiro sendo nossa aldeia, sentimo-nos insignificantes no esquema geral das coisas.
Independentemente de suas causas, essa apatia cáustica precisa ser combatida desde a raiz, começando com os primeiros e mais importantes anos da vida dos nossos filhos. Devemos transmitir dois valores básicos aos nossos filhos, valores que o Judaísmo tem defendido desde tempos imemoriais: A Torá nos ensina que quando D'us criou o primeiro ser humano, Adam, Ele o criou como um indivíduo único (ao contrário de todas as plantas ou espécies animais). O motivo, explicam nossos Sábios, é que D'us queria nos ensinar a importância de todo ser humano; que toda pessoa é de fato um mundo inteiro.
Por outro lado, a humanidade foi criada depois de todas as criaturas, no sexto dia da Criação. Nossos Sábios explicam que isso foi para nos ensinar responsabilidade para com nosso mundo. Se um ser humano age com ideais e moral, reconhecendo sua responsabilidade com o restante da criação, ele é mais elevado que todas as criaturas. Se, no entanto, o homem despreza sua responsabilidade, ele cai abaixo até do inseto que rasteja sobre a terra.
Nosso desafio é inculcar em nossos filhos estas crenças essenciais, fundamentais:
*Você é importante. Você é um ser com infinito potencial. Você é um mundo inteiro, e pode causar impacto. Respeite a si mesmo. Respeite aquele que você pode ser. E aja de acordo com isso.
*Por melhor que você seja, sua grandeza somente é refletida ao entender que há coisas maiores que você, pelas quais vale a pena se sacrificar: valores e moral, comunidade e família. Sua felicidade pessoal não é um fim em si mesma, mas você deve ter um senso de responsabilidade pelo seu mundo.
Estes valores simples são o que nos distinguem como seres humanos. Eles são essenciais para nós acreditarmos, e para nossos filhos confiarem. Há coisas demais em jogo para que abandonemos nossos filhos à crueldade do mundo irreverente e irrelevante do "deixa pra lá".