No final dos anos de 1960, enquanto estudava na Yeshivá Chabad Torat Emet em Jerusalém, fui informado sobre um voo sendo organizado para visitar o Rebe Lubavitch nas Grandes Festas. Ficando super empolgado para passar essa época especial na presença do Rebe, logo me inscrevi.

Antes de partir para Nova York, fui visitar o Rebe Guerrer para informá-lo sobre minha viagem iminente. Embora sou e sempre tenha sido um chassid Chabad, tinha desenvolvido um relacionamento com o Rebe Guerrer, Rabi Yisrael Alter, um líder carismático que atraía estudantes da yeshivá de diferentes correntes do Judaísmo.

Ao saber do meu destino final, ele pediu-me para fazer-lhe um favor pessoal: “Por favor, transmita meus cumprimentos ao Rebe, e meus votos que ele seja inscrito para um ano bom.”

Quando cheguei a Nova York, tive a chance de encontrar o Rebe numa audiência privada. Ao final do encontro, após terminarmos de discutir meus assuntos pessoais, transmiti a mensagem do Rebe Guerrer. Assim que o Rebe ouviu as palavras – “meus votos que ele seja inscrito para um bom ano” – ele se levantou da cadeira e respondeu: “Amen! Que D'us conceda que as bênçãos que todos desejamos uns aos outros sejam cumpridas.”

Voltei a Jerusalém após a conclusão do mês de Tishrei, e no dia seguinte recebi uma mensagem de que o Rebe Guerrer estava me procurando. Fui visitá-lo após o término do Shabat. Quando entrei, ele ainda estava sentado com sua roupa do Shabat, seu rosto radiante; ele me cumprimentou valorosamente. Quando lhe informei que tinha cumprido suas instruções, ele disse: “Conte-me algo interessante que o Rebe ensinou a você.”

“Quer dizer algo que ele disse nas reuniões chassídicas?” perguntei.

“Não. Diga-me algo que ele disse durante as refeições das Grandes Festas,” ele especificou.

Eu podia dizer que ele estava esperando ouvir sobre algo muito específico. E, na verdade, eu não tive pressa para descrever isso.

O Rebe costumava fazer suas refeições junto com alguns dos chassidim mais idosos no apartamento de seu sogro, o Rebe Anterior, que tinha falecido dez anos antes. Durante a quebra de jejum após Yom Kipur, fiquei de pé do lado de fora da porta da sala de jantar para assistir o que ocorria lá dentro.

Foi isso então que descrevi para o Rebe Guerrer. Contei a ele que à cabeceira da mesa – o assento normalmente reservado para o Rebe Anterior – permanecia vazio. O genro mais velho, Rabi Shmaryahu Gurary, sentou-se de um lado, e o Rebe no outro, como faziam durante o a vida do Rebe Anterior.

Durante as Grandes Festas, o Rebe adotava o comportamento mais solene e até chorava – especialmente quando tocava o shofar. Agora, na conclusão do feriado, porém, ele parecia totalmente diferente, com o rosto reluzindo de alegria.

Presentes à refeição estavam vários rabinos importantes, alguns dos quais tinham vindo de Israel. O Rebe voltou-se a eles e disse: “Talvez vocês possam emitir uma lei rabínica decretando que Mashiach chegue imediatamente.”

Em resposta, o mais idoso deles disse humildemente: “Quem somos nós? Se o Rebe concorda que Mashiach deve chegar agora, então isso deveria ser o suficiente.”

De repente a face do Rebe mostrou-se abatida: Ele suspirou: “Você está esperando pela minha concordância…?”

Aparentemente um dos outros rabinos deve ter chutado este rabino por baixo da mesa porque ele subitamente se retratou: “Não, não. Concordamos. Mashiach deveria vir agora.” Mas obviamente era tarde demais’ o Rebe não pareceu reagir.

Enquanto eu estava relatando essa história percebi que o Rebe Guerrer, que tinha ouvido atentamente para não perder uma só palavra, tinha se tornado bastante agitado. Vi que seus olhos estavam vermelhos, com lágrimas. Fiquei realmente abalado; nunca o tinha visto dessa forma.

Continuei com minha história. Disse a ele que há vários dias, na noite de Sucot, eu novamente estava numa refeição festiva com o Rebe – dessa vez na sucá. Os rabinos de Israel também estavam ali. Eles começaram a discutir uma questão haláchica: Eram os alunos da yeshivá israelense – que normalmente observavam apenas um dia de Sucot em Israel – obrigados a adotar a prática da Diáspora de observar dois dias, quando passavam Sucot na América?

Antes que eles pudessem terminar de fazer a pergunta ao Rebe, o Rebe disse calmamente: “O segundo dia de Yom Tov? Por que, você poderia ter evitado completamente!” Como se para dizer que eles tinham imediatamente decretado a lei após Yom Kipur de que Mashiach deveria chegar agora, então o segundo dia da festa teria sido anulado, pois Mashiach teria chegado!

Os rabinos responderam proclamando que Mashiach deveria vir imediatamente, mas o Rebe os ignorou e mudou para outro assunto.

Enquanto eu concluía essa história, vi que duas lágrimas tinham rolando pela face do Rebe Guerrer. Ele disse: “Nu, que seja para o bem.”

Então ele ergueu os olhos para o teto e ficou daquela maneira envolto em pensamento por alguns minutos. Tomei isso como uma sugestão para eu deixar a sala.

Muitos anos depois, encontrei Rabi Pinchas Menachem, o irmão de Rabi Yisrael Alter. Quando lhe contei a história, ele disse: “Agora entendo. Recentemente visitei o Rebe de Lubavitch e antes de sair, ele me disse que eu deveria enviar cumprimentos ao meu irmão a quem ele conhece e ao meu irmão que ele não conhece. Presumi que o ‘irmão que ele conhece era meu irmão Rabi Simcha Bunim (que mais tarde se tornaria o próprio Rebe Guerrer) que ele tinha encontrado em muitas ocasiões, e ‘o irmão que ele não conhece’ significava meu outro irmão, Rabi Yisrael.

“Quando relatei os cumprimentos do Rebe ao meu irmão Rabi Yisrael, ele exclamou: ‘Foi isso que ele disse? O Rebe Lubavitch e eu nos conhecemos muito bem!” Fiquei confuso porque, para meu conhecimento, o Rebe e meu irmão jamais tinham se encontrado. Mas ao ouvir essa história tudo fez sentido. Se – quando você recontou a história – meu irmão derramou lágrimas, então ele e o Rebe de Lubavitch realmente se conheciam e entendiam um ao outro.”