Entrevista realizada com Rabino Shabsi Alpern
em novembro de 2010

Publicada em “Here’s My Story” em 19 de julho, 2018/ 7 de Menachem Av, quando a shlichut do Rabino Alpern completa 57 anos no Brasil

Cresci num lar Chabad – nossa família tinha sido Chabad durante gerações – e, obviamente, éramos muito conectados ao Rebe. Não acontecia nada em nossa família que o Rebe não soubesse, porque ele era como um pai para nós.

Pouco depois de o Rebe assumir a liderança de Chabad em 1951, eu precisei ter as amídalas extraídas. Obviamente, o Rebe foi consultado, e ele pediu que o informássemos logo após a operação. Lembro-me claramente da minha mãe, que era uma mulher decidida, correndo no calor do dia do consultório do médico ao 770 da Eastern Parkway para contar ao Rebe que tudo tinha ido bem.

Após receber ordenação rabínica da yeshiva Chabad em Nova York em 1960, fiquei noivo de minha primeira esposa, Esther, de abençoada memória. Naquela época, se um casal jovem tivesse se comprometido a ir como emissários do Rebe, ele celebrava o casamento. Estávamos planejando ser emissários do Rebe, e esperávamos que ele viria para recitar as bênçãos debaixo da nossa chupá.
Mas quando fomos ver o Rebe duas semanas antes do evento, ele nos disse: “Vai haver uma mudança sobre minha participação em casamentos.”

Obviamente, eu entendi – “mudança” significava que ele iria parar de fazer aquilo. Ao ouvir isso, não sei de onde consegui coragem para protestar: “Mas seremos os emissários do Rebe!”

Ele respondeu: “Tzuden darf ich shtayn unter de shteingen tzu bentchen? – Preciso ficar debaixo da chupá para poder abençoar?” Em outras palavras, o Rebe estava dizendo que iria nos abençoar como casal mesmo sem estar fisicamente presente em nosso casamento. E foi isso o que aconteceu.

Chegamos ao Brasil em julho de 1961, trabalhando durante os dois primeiros anos no Rio de Janeiro, e depois, por orientação do Rebe, em S. Paulo, onde me tornei o diretor da escola judaica diária.

Durante todo esse tempo, minha esposa não engravidou. Fomos a um especialista que examinou a ela e a mim, e ele concluiu que não podíamos ter filhos. Quando recebemos esse veredicto, decidimos que minha esposa deveria ir a Nova York para ver o Rebe. Juntar o dinheiro para a viagem não era coisa fácil, então, pois eu ganhava duzentos e cinquenta dólares por mês. Mas conseguimos guardar dinheiro suficiente para a passagem.

Quando ela chegou ao Rebe, ele leu o prognóstico do médico, mas não fez comentários a respeito. Em vez disso, ele disse à minha esposa: “Quero que você faça palestras para mulheres judias nessas quatro cidades – Worcester, Boston, Springfield e Providence.”

Minha esposa seguiu as instruções do Rebe. Viajou para as quatro cidades que ele tinha citado e fez palestras para mulheres. Quando voltou para casa, engravidou. Graças a D'us temos agora quatro filhos, que não posso deixar de associar com as quatro cidades que o Rebe pediu que ela visitasse para inspirar as mulheres judias ali.
Trabalhando no Brasil, sempre sentíamos o poder das bênçãos do Rebe e a sabedoria de seus conselhos. Por exemplo, na escola que eu dirigia, os pais de uma das classes estavam insistindo que a aula do Talmud fosse conduzida em yidish.

Essas crianças tinha oito anos, e tudo que sabiam era o português, o idioma do Brasil. Precisar aprender o Talmud já era bastante difícil, as fazê-lo em yidish era demais para pedir a elas. Estavam se rebelando e perguntei ao Rebe o que fazer. Ele respondeu: “Ensine em qualquer idioma que lhes permita aprender melhor e aprender mais.”

Seguindo sua orientação, mudei o sistema para ensinar o Talmud em português e, como resultado, o menino mais problemático da escola se tornou o melhor aluno. Ele não era o único; outros também foram influenciados positivamente. Para imitar quão bem o Rebe se relacionava com crianças, eu fazia tudo para assegurar que as crianças me vissem como seu irmão mais velho. Todo dia eu ficava no portão quando a escola abria, e recebia cada um dos alunos com um sorriso.

Após cerca de dez anos me concentrando em educação judaica, também abri um Beit Chabad em S. Paulo. O Rebe deu-me uma bênção para isso e, como resultado de sua bênção, os doadores chegaram e pudemos construir. Isso aconteceu em 1973.

O Beit Chabad foi aberto ao público, o que significa que não-judeus também vinham de vez em quando. Em uma ocasião, um casal abordou-me após minha palestra semanal. Eles disseram que tinham uma filha chamada Ângela, que tinha tumores na cabeça e precisava de uma bênção para a recuperação. Eu disse que iria pedir ao Rebe, e enviamos uma carta para Nova York.

Após cerca de um mês, eles me informaram que sua filha tinha tido uma remissão totalmente espontânea. Presumi que isso era devido à bênção do Rebe, mas deixei de notificá-lo, presumindo que ele tinha muitas outras coisas em sua mente.

Somente cinco meses depois entendi o meu erro. Eu estava visitando Nova York e, quando entrei na sede Chabad no décimo dia da minha viagem, recebi um pedaço de papel com a letra do Rebe, escrito em hebraico: “O que está acontecendo com a menina? Como ela está passando?”

O Rebe queria saber o que acontecia com as pessoas pelas quais ele rezava. Ele se preocupava, porém eu tinha negligenciado em lhe informar que suas bênçãos e preces tinham dado frutos; que ela tinha se recuperado!

É claro que fiz um relato completo, com desculpas pela minha negligência. Quando retornei ao Brasil, informei à mãe de Ângela que o Rebe tinha perguntado sobre ela.

A mãe ficou contente e disse: “É impressionante para mim saber que o Rebe perguntou sobre minha filha no próprio dia do seu aniversário de doze anos!”

Há um pós-escrito a essa história. Sete anos depois, eu estava tentando alugar um espaço para nossa organização judaica jovem. Quando toquei a campainha do dono da casa, fui recebido por Ângela, agora uma jovem saudável, que começou a gritar: “Mamãe, mamãe, veja quem está aqui!” Seus pais eram donos daquela propriedade e insistiram em nos dar um desconto de cinquenta por cento no aluguel.

Mas não é esse o motivo pelo qual estou contando essa história. Mas sim por que muitas pessoas me perguntam: “Antes que o Rebe falecesse, por que ele não nos disse o que vai acontecer com o povo judeu?”

Eu sempre respondo: “Se o Rebe pensou sobre Ângela, uma menina brasileira não-judia, durante cinco meses, você pode estar certo de que ele pensava sobre o povo judeu. Portanto não se  preocupe – ele ainda está pensando e cuidando bem de nós a todo momento.”

Publicada em “Here’s My Story” em 19 de julho, 2018/ 7 de Menachem Av, quando a shlichut do Rabino Alpern completa 57 anos no Brasil

Cresci num lar Chabad – nossa família tinha sido Chabad durante gerações – e, obviamente, éramos muito conectados ao Rebe. Não acontecia nada em nossa família que o Rebe não soubesse, porque ele era como um pai para nós.

Pouco depois de o Rebe assumir a liderança de Chabad em 1951, eu precisei ter as amídalas extraídas. Obviamente, o Rebe foi consultado, e ele pediu que o informássemos logo após a operação. Lembro-me claramente da minha mãe, que era uma mulher decidida, correndo no calor do dia do consultório do médico ao 770 da Eastern Parkway para contar ao Rebe que tudo tinha ido bem.

Após receber ordenação rabínica da yeshiva Chabad em Nova York em 1960, fiquei noivo de minha primeira esposa, Esther, de abençoada memória. Naquela época, se um casal jovem tivesse se comprometido a ir como emissários do Rebe, ele celebrava o casamento. Estávamos planejando ser emissários do Rebe, e esperávamos que ele viria para recitar as bênçãos debaixo da nossa chupá.
Mas quando fomos ver o Rebe duas semanas antes do evento, ele nos disse: “Vai haver uma mudança sobre minha participação em casamentos.”

Obviamente, eu entendi – “mudança” significava que ele iria parar de fazer aquilo. Ao ouvir isso, não sei de onde consegui coragem para protestar: “Mas seremos os emissários do Rebe!”

Ele respondeu: “Tzuden darf ich shtayn unter de shteingen tzu bentchen? – Preciso ficar debaixo da chupá para poder abençoar?” Em outras palavras, o Rebe estava dizendo que iria nos abençoar como casal mesmo sem estar fisicamente presente em nosso casamento. E foi isso o que aconteceu.

Chegamos ao Brasil em julho de 1961, trabalhando durante os dois primeiros anos no Rio de Janeiro, e depois, por orientação do Rebe, em S. Paulo, onde me tornei o diretor da escola judaica diária.

Durante todo esse tempo, minha esposa não engravidou. Fomos a um especialista que examinou a ela e a mim, e ele concluiu que não podíamos ter filhos. Quando recebemos esse veredicto, decidimos que minha esposa deveria ir a Nova York para ver o Rebe. Juntar o dinheiro para a viagem não era coisa fácil, então, pois eu ganhava duzentos e cinquenta dólares por mês. Mas conseguimos guardar dinheiro suficiente para a passagem.

Quando ela chegou ao Rebe, ele leu o prognóstico do médico, mas não fez comentários a respeito. Em vez disso, ele disse à minha esposa: “Quero que você faça palestras para mulheres judias nessas quatro cidades – Worcester, Boston, Springfield e Providence.”

Minha esposa seguiu as instruções do Rebe. Viajou para as quatro cidades que ele tinha citado e fez palestras para mulheres. Quando voltou para casa, engravidou. Graças a D'us temos agora quatro filhos, que não posso deixar de associar com as quatro cidades que o Rebe pediu que ela visitasse para inspirar as mulheres judias ali.
Trabalhando no Brasil, sempre sentíamos o poder das bênçãos do Rebe e a sabedoria de seus conselhos. Por exemplo, na escola que eu dirigia, os pais de uma das classes estavam insistindo que a aula do Talmud fosse conduzida em yidish.

Essas crianças tinha oito anos, e tudo que sabiam era o português, o idioma do Brasil. Precisar aprender o Talmud já era bastante difícil, as fazê-lo em yidish era demais para pedir a elas. Estavam se rebelando e perguntei ao Rebe o que fazer. Ele respondeu: “Ensine em qualquer idioma que lhes permita aprender melhor e aprender mais.”

Seguindo sua orientação, mudei o sistema para ensinar o Talmud em português e, como resultado, o menino mais problemático da escola se tornou o melhor aluno. Ele não era o único; outros também foram influenciados positivamente. Para imitar quão bem o Rebe se relacionava com crianças, eu fazia tudo para assegurar que as crianças me vissem como seu irmão mais velho. Todo dia eu ficava no portão quando a escola abria, e recebia cada um dos alunos com um sorriso.

Após cerca de dez anos me concentrando em educação judaica, também abri um Beit Chabad em S. Paulo. O Rebe deu-me uma bênção para isso e, como resultado de sua bênção, os doadores chegaram e pudemos construir. Isso aconteceu em 1973.

O Beit Chabad foi aberto ao público, o que significa que não-judeus também vinham de vez em quando. Em uma ocasião, um casal abordou-me após minha palestra semanal. Eles disseram que tinham uma filha chamada Ângela, que tinha tumores na cabeça e precisava de uma bênção para a recuperação. Eu disse que iria pedir ao Rebe, e enviamos uma carta para Nova York.

Após cerca de um mês, eles me informaram que sua filha tinha tido uma remissão totalmente espontânea. Presumi que isso era devido à bênção do Rebe, mas deixei de notificá-lo, presumindo que ele tinha muitas outras coisas em sua mente.

Somente cinco meses depois entendi o meu erro. Eu estava visitando Nova York e, quando entrei na sede Chabad no décimo dia da minha viagem, recebi um pedaço de papel com a letra do Rebe, escrito em hebraico: “O que está acontecendo com a menina? Como ela está passando?”

O Rebe queria saber o que acontecia com as pessoas pelas quais ele rezava. Ele se preocupava, porém eu tinha negligenciado em lhe informar que suas bênçãos e preces tinham dado frutos; que ela tinha se recuperado!

É claro que fiz um relato completo, com desculpas pela minha negligência. Quando retornei ao Brasil, informei à mãe de Ângela que o Rebe tinha perguntado sobre ela.

A mãe ficou contente e disse: “É impressionante para mim saber que o Rebe perguntou sobre minha filha no próprio dia do seu aniversário de doze anos!”

Há um pós-escrito a essa história. Sete anos depois, eu estava tentando alugar um espaço para nossa organização judaica jovem. Quando toquei a campainha do dono da casa, fui recebido por Ângela, agora uma jovem saudável, que começou a gritar: “Mamãe, mamãe, veja quem está aqui!” Seus pais eram donos daquela propriedade e insistiram em nos dar um desconto de cinquenta por cento no aluguel.

Mas não é esse o motivo pelo qual estou contando essa história. Mas sim por que muitas pessoas me perguntam: “Antes que o Rebe falecesse, por que ele não nos disse o que vai acontecer com o povo judeu?”

Eu sempre respondo: “Se o Rebe pensou sobre Ângela, uma menina brasileira não-judia, durante cinco meses, você pode estar certo de que ele pensava sobre o povo judeu. Portanto não se preocupe – ele ainda está pensando e cuidando bem de nós a todo momento.”