Embora fôssemos uma família ortodoxa moderna, em 1954 , pouco antes de eu completar dezesseis anos, meu pai matriculou-me na yeshivá Chabad em Nova York. Como era costume na yeshivá, no dia do meu aniversário, fui enviado para receber uma bênção do Rebe. Foi pouco tempo depois de eu ter entrado na yeshivá; eu nunca tinha encontrado o Rebe antes.

Eu estava para entrar no escritório, e fui informado que aquele dia – 11 de Nissan – era também o aniversário do Rebe. Então quando entrei na sala, levantei a mão e disse: “Feliz Aniversário, Rebe!”

Eu não sabia como alguém deveria agir na frente do Rebe. Não sabia nada – mal sabia quem era o Rebe! Foi somente mais tarde que aprendi algo mais sobre ele.

Naquele encontro, o Rebe falou comigo como um igual. Eu era apenas um adolescente que nada sabia, mas ele conversou comigo como um amigo, e me senti muito à vontade com ele. Conversamos por cerca de meia hora e, durante aquele tempo, discutimos muitos assuntos. Contei a ele sobre minha vida e meus problemas. Ao final ele disse que gostaria de ajudar-me.

Naqueles tempos, eu gaguejava terrivelmente, A única vez em que não gaguejava era quando estava cantando. Mas eu não acreditava que havia uma cura para meu problema, portanto disse: “Você não pode me ajudar.”

“Talvez não,” ele respondeu. “Mas posso tentar.” E então ele me deu uma bênção e sugeriu que eu procurasse um fonoaudiólogo.

Preciso dizer uma coisa a você: está escrito na Torá sobre Moshê que nunca houve alguém como ele em Israel, porém me arrisco a dizer que o Rebe chega perto. Como Moshê, ele também era muito humilde, oferecendo ajuda.

Eu estava cético sobre o poder de sua bênção, e não segui seu conselho de procurar um terapeuta. Olhei para ele – um homem relativamente jovem com uma barba preta, somente três anos em sua posição de Rebe – e pensei: “O que ele sabe?”

Permaneci na yeshivá durante menos de um mês, decidindo que não era o que eu queria. E levou dois anos até novamente ver o Rebe. Meu pai estava ficando mais e mais envolvido com Chabad então, e ele foi para uma audiência com o Rebe e me levou junto.

Antes de entrarmos no escritório do Rebe, meu pai disse-me para ficar atrás dele e não dizer nada durante o encontro. Mas quando entramos, o Rebe se curvou sobre a mesa para que pudesse ver atrás do meu pai e me perguntou: “Você foi?” referindo-se ao fonoaudiólogo. Fiquei surpreso ao ver que, durante o tempo que não nos vimos, e no qual certamente falou com milhares de pessoas, ainda se lembrava da nossa conversa.

Eu ainda não tinha ido a um terapeuta. Nesse ínterim, eu me tornei um professor e descobri que, quando estava ensinando, não gaguejava, embora o fizesse no restante do tempo.

As coisas finalmente mudaram quando meu filho mais novo desenvolveu um problema da fala aos quatorze anos. Levei-o para um terapeuta que disse que suas cordas vocais não eram bem desenvolvidas, e que, quando ele amadurecesse, o problema iria desaparecer – o que de fato aconteceu.

O encontro com o terapeuta do meu filho levou-me a perguntar se havia ajuda para uma condição como a minha, e ele me aconselhou a procurar um professor na Universidade de Toronto. Quando perguntei a ele: “Pode ajudar-me?”, ele respondeu: “Claro que posso.”

E isso me abalou por ver como sua atitude era tão diferente daquela do Rebe, que tinha dito: “Talvez não… mas posso tentar.”

Passei dois anos em terapia da fala – fazia exercícios de respiração, falava mais lentamente, e por fim, consegui falar fluentemente. Quando percebi que tinha superado o problema que fora tamanha fonte de tristeza durante a minha vida, fiquei repleto de gratidão para com o Rebe porque ele tinha sugerido essa solução desde a primeira vez que nos encontramos, embora na época eu não tivesse lhe ouvido. Portanto decidi ir a Nova York e agradecer pessoalmente ao Rebe.

Muitos anos tinham se passado desde o nosso último encontro. Mas assim que entrei na sua sala, o Rebe disse: “Estou contente por vê-lo novamente.” Após encontrar milhares de pessoas, ele ainda se lembrava de mim!

Eu disse ao Rebe sobre meu progresso com a terapia e o que o professor de Toronto tinha me dito – que quando eu falasse fluentemente, minha vida iria mudar.

O Rebe disse: “E algo mais… espere e verá.”

Ele estava certo. Quando eu gaguejava, tendia a colocar a culpa pelos meus problemas nas pessoas ao redor que riam de mim. Mas quando eu parei de gaguejar, tinha de assumir responsabilidade pelo meu comportamento.

Quando a audiência terminou, o Rebe me perguntou: “Há mais alguma coisa que você deseja falar?” Eu disse: “O senhor me deu uma bênção na última vez que estive aqui; pode dar-me outra agora?”

Ele respondeu: “Você deverá ter sucesso e bênção… seja o que for que fizer, que seja para o bem.” Então ele se levantou e levou-me até a porta.

Eu estava tão abalado pela emoção que não sei o que me dominava – curvei-me e beijei sua face. Eu disse: “Nunca vou poder retribuir a você,” e ele respondeu: “Seja bom e gentil com seus irmãos judeus.”

Eu estava chorando quando saí dali.