Crescendo na década de 1960, eu viajava com minha família para visitar o Rebe todos os anos em Simchat Torá. Morávamos em Cleveland, onde eu frequentava a Academia Hebraica. Não era uma escola Chabad, mas crescemos em um lar muito chassídico, com uma profunda admiração pelo Rebe. Meu pai, o Rabino Zalman Kazen, nos ensinava Chassidismo, ele adorava estudar os discursos do Rebe conosco,e aprendíamos melodias chassídicas. Mas nada disso se comparava à experiência de participar dos farbrengens do Rebe.
Todos os anos, em Sucot, viajávamos para Nova York, uma viagem de trem de doze horas, para passar a segunda metade da festa lá. Duas noites antes de Simchat Torá, em Hoshana Rabá, recebíamos lekach– o tradicional bolo de mel – do Rebe. Depois, em Simchat Torá, havia um farbrengen noturno, onde o Rebe ensinava a todos uma nova canção; nos reuníamos e ouvíamos atentamente enquanto o Rebe cantava, e então os chassidim cantavam depois dele. Era uma experiência muito inspiradora.
Mas foi somente depois de terminar a escola, quando fui estudar em um seminário, que desenvolvi uma conexão mais profunda e pessoal com o Rebe. Tudo começou com a yechidus, minha primeira audiência pessoal, que tive antes de ir para o exterior.
Eu havia escrito uma carta ao Rebe antes, perguntando se deveria ir para um seminário em Nova York ou em Israel, e na audiência, o Rebe respondeu que eu deveria ir para Nova York ou para a França. Então, tive minha resposta imediatamente: se o Rebe mencionou a França por iniciativa própria, provavelmente era porque queria que eu fosse para lá.
No seminário Beth Rivka em Yerres, um subúrbio de Paris, pela primeira vez na vida, comecei a estudar chassidut seriamente, e isso me transformou. Eu tinha me saído bem na escola e estudado bastante Torá, além de vários comentários bíblicos, mas agora percebi o quão pouco eu sabia e o quanto ainda tinha para aprender. Estudar os discursos do Rebe e o que ele dizia ao mundo me deu um forte senso de fé e altruísmo e desenvolveu em mim o desejo de ajudar. Em 1976, depois do seminário e de me casar, acabei fazendo exatamente isso, junto com meu marido, Rabino Yossy Goldman.
Tínhamos dois filhos e morávamos em Nova York quando meu marido perguntou ao Rebe para onde deveríamos ir em shlichut, como emissários do Rebe. Recebemos várias propostas de emprego e escrevemos sobre a possibilidade de irmos para a Califórnia, Missouri e Joanesburgo, na África do Sul, para onde o amigo do meu marido dos tempos da yeshivá, o rabino Mendel Lipskar, havia se mudado dois anos antes e nos convidado para irmos com ele.
Naquela época, nem todos recebiam instruções diretas sobre para onde ir em missão como emissários do Rebe, mas o Rebe enfatizou "Joanesburgo", dando-nos uma resposta clara de que essa era a nossa missão de vida, a missão da nossa alma.
O Rebe também indicou que eu precisava estar em sintonia com meu marido. O Rebe se importava muito com os casais que enviava, não apenas com os homens, mas também com as mulheres. E, portanto, o Rebe queria ter certeza de que ambos estávamos de acordo e que trabalharíamos em parceria para levar sua mensagem, os ensinamentos da Chassidut e da Torá de D’us ao mundo.
A resposta, é claro, foi que eu estava totalmente de acordo. Cresci com muita fé, que foi ainda mais fortalecida por estar perto do Rebe, então eu queria fazer parte de sua incrível visão para o mundo.
Quando nos mudamos para a África do Sul, estávamos durante os anos sombrios do apartheid, quando o governo não queria que rabinos viessem ao país para falar sobre moralidade. Também foi difícil pessoalmente; Eu não conhecia ninguém, e as opções de cashrut eram tão limitadas que eu tinha que fazer meu próprio pão. Mas as bênçãos do Rebe sempre foram encorajadoras, e o crescimento da comunidade Chabad ali nos últimos cinquenta anos tem sido inacreditável.
Ao longo dos anos, nossa família também cresceu. Quando eu estava me preparando para dar à luz meu décimo filho, em 1991, meu médico me disse que o bebê estava em posição transversa (de lado) em vez de cefálico, e que eu teria que fazer uma cesariana. Isso era algo que eu absolutamente não queria aceitar. "Eu já tive nove partos normais e não vou ser cortada agora!", protestei.
"Em quarenta anos, nunca pedi uma segunda opinião", disse ele, "mas para você, vou chamar outro médico."
O segundo médico examinou e confirmou que o bebê estava em posição transversa. Eles tentaram virar o bebê repetidamente, mas ele não se mexia. “Não há como dar à luz assim. Teremos que fazer uma cesariana”, confirmou ele.
Ora, no início daquele ano, o Rebe havia declarado 1991 – o ano 5751, segundo o calendário hebraico – um “ano de milagres”. As letras hebraicas usadas para escrever 5751 eram um acrônimo para “Tehei Shnat Arenu Nifla’ot”, que se traduz como “Que seja um ano de maravilhas”, e durante a Guerra do Golfo, naquele mesmo ano, os iraquianos dispararam 39 mísseis contra Israel sem matar uma única pessoa. Se o Rebe disse que aquele seria um ano de milagres, eu estava convencida de que ali aconteceria mais um milagre.
O segundo medico assim como o primeiro, era judeu, olhou para meu marido, e perguntou. “Por que você não liga para Nova York?” Claramente, ele se referia ao Rebe, e obviamente tinha alguma experiência com as intervenções do Rebe em assuntos médicos.
Eu já estava em trabalho de parto avançado naquele momento, e a única razão pela qual meu marido ainda não havia ligado para o Rebe era porque era 1h da manhã na África do Sul e a central telefônica do hospital já havia sido fechada há muito tempo; os celulares ainda não haviam sido inventados.
O médico, no entanto, usou suas conexões para providenciar a reabertura da central telefônica para que meu marido pudesse fazer uma ligação internacional para Nova York. Meu marido contatou seu pai, Reb Shimon Goldman, que morava em Crown Heights e que imediatamente correu para o 770.
Naquele momento, o Rebe estava voltando de uma visita ao local de descanso do Rebe Anterior, então meu sogro passou a mensagem para o Rabino Leibel Groner, secretário do Rebe. Logo, o Rebe respondeu: “Já que o médico sugeriu que me ligassem, espero que ele não guarde rancor se eu aconselhar que ouçamos a mulher em trabalho de parto e esperemos.”
Quando meu marido voltou com essa mensagem, o segundo médico estava por perto. “Seu médico saiu, e as enfermeiras também, então deixe-me examiná-la”, ofereceu ele. Ele a examinou – e o bebê havia se virado sozinho! Foi um verdadeiro milagre. Nessa fase do trabalho de parto, o bebê nunca se vira. O médico nunca tinha visto nada parecido.
Em pouco tempo, nosso filho nasceu de parto normal.
Dois anos depois, uma amiga me contou que, por causa dessa história, aquele segundo médico se tornou um observador assíduo do Shabat. Quanto ao meu filho, antes do nascimento, estávamos pensando em dar a ele o nome do falecido tio do meu marido, Nissen, mas eu não tinha certeza. Depois desse milagre – a palavra hebraica para milagre, que também está relacionada ao nome Nissen – nós soubemos. Foi um milagre incrível, e ele se tornou um menino maravilhoso, que agora é um rabino muito especial, servindo como sheliach no campus da Universidade da Cidade do Cabo.
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