Em 1969, quando eu servia na Força Aérea Israelense, durante os tempos difíceis após a Guerra dos Seis Dias, quando os soldados não tinham muita comida, lembro-me de um jipe parar e alguém me entregar um pacote. Um bilhete no pacote dizia: “Purim Sameach– Feliz Purim – do Rebe de Lubavitch”.

Lembro-me de ter me perguntar, assim como todos os soldados que receberam o mesmo pacote, “Quem é esse Rebe de Lubavitch? Por que ele se importa tanto conosco a ponto de nos entregar doces no meio do deserto?” Devo dizer que fiquei tocado e impressionado.

Em 1971, fui enviado ao Canal de Suez para trazer soldados feridos de volta ao hospital no norte. Fiz isso dia após dia, e foi realmente muito difícil ver tantos feridos gravemente. Um dia, meu comboio encontrou duas pessoas do Chabad que nos pediram para colocar tefilin. Sim, eu o fiz, e quando recitei a oração Shemá – “Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso D’us, o Senhor é um” – fiquei muito emocionado e comecei a chorar. A partir daquele momento, começou minha jornada de retorno ao judaísmo e a D’us.

Quando terminei meu serviço militar, fui para Nova York, onde conheci um senhor muito simpático do Chabad chamado Shraga Zalmanov, que me apresentou ao Rebe. Isso foi em 1977. Visitei o Rebe algumas vezes e, em uma dessas ocasiões, dei a ele um livro de ensinamentos místicos escrito por um avô do meu primo, o Rabino Yehudah Fatiya, que escreveu um famoso comentário sobre a obra-prima cabalística do século 16, o Sefer Etz Chayim. O Rebe respondeu com uma bela carta agradecendo-me por este livro e também por outro livro do Rabino Eliezer Papa, mais conhecido como Pele Yoetz, que eu havia publicado em memória do meu pai.

Em um dos meus encontros com o Rebe, ele me perguntou o que eu estava fazendo pela comunidade judaica. E ele me falou sobre o mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Ele disse: “Por que o coração do ser humano fica do lado esquerdo? Tudo de bom no judaísmo está do lado direito, o lado que representa a bondade. Colocamos o tefilin com a mão direita, apertamos a mão de alguém com a mão direita, seguramos o rolo da Torá do lado direito, etc., então por que o coração fica do lado esquerdo?”

E então ele me deu a resposta: “Porque quando você está diante de outro judeu, seu coração está do lado direito dele e do lado direito da mão. Pois seu coração não bate por você, mas pelo outro, pelo próximo a quem você deve amar como a si mesmo.”

Eu entendi então que a mensagem de “ve’ahavta lereyacha kamocha – ame o seu próximo como a si mesmo” é fazer com que seu coração bata pelos outros, fazer com que sua vida seja centrada nas necessidades dos outros. Quando você faz isso, então seu coração está do lado direito.

Essa mensagem realmente me tocou, e eu a adotei como o centro da minha filosofia de vida. Desde então, minha missão tem sido alcançar o coração de cada judeu que encontro.

Após ter sucesso nos negócios em Chicago, voltei para Israel e fundei duas yeshivot importantes. Uma delas se chama Aish HaTalmud; é uma yeshivá com quase 200 meninos matriculados. A outra se chama Torat Moshe, com cerca de 95 meninos. Também fundei quatro kolelim, grupos de estudo para homens casados, com quase 120 inscritos. Além disso, fundei uma organização para apoiar famílias carentes durante Rosh Hashaná e Pessach. São pessoas com pouca renda, e nós as ajudamos com comida e dinheiro.

Tudo isso por causa das palavras do Rebe, de que a chave é ajudar os outros, e isso mudou minha perspectiva de vida e moldaram minha missão.

Há mais um episódio pessoal envolvendo o Rebe que gostaria de relatar. Isso aconteceu na década de 1990, quando eu estava visitando os Estados Unidos com minha esposa, que estava grávida na época. Fomos visitar o Rebe quando ele estava distribuindo dólares para caridade, e ele nos deu a bênção de costume. Mas, quando estávamos saindo, ele chamou minha esposa de volta e lhe deu mais dois dólares. Não sabíamos o porquê, até algumas semanas depois, quando minha esposa fez um ultrassom e descobrimos que ela estava grávida de gêmeos. Então, percebemos que o Rebe estava nos dando uma pista.

Eles nasceram no mês hebraico de Elul, e a circuncisão deles foi no dia 25 daquele mês, o dia em que celebramos o nascimento do mundo. Eles foram chamados de Mordechai Eliyahu e Yosef Chaim. Esse foi um grande evento para nós e sentimos uma conexão com aquela bênção tão especial do Rebe.

No dia em que o Rebe faleceu, eu estava em Los Angeles e tentei muito conseguir uma passagem para Nova York para o funeral, mas não consegui; cheguei um dia depois. Era um domingo, se bem me lembro, e foi um dia difícil. Eu simplesmente não conseguia me acostumar com a ideia de que o Rebe não estava mais entre nós. Senti uma perda terrível.

Meu consolo é que seus ensinamentos vivem conosco e através de nós, e espero ter feito a minha parte para colocar em prática o mandamento da Torá de “amar o próximo como a si mesmo”, conforme o Rebe me ensinou.