Comecei minha jornada rumo à observância da Torá em Melbourne, Austrália, onde me conectei com chassidim Chabad. Após algum tempo eles sentiram que, para que eu progredisse em meu caminho espiritual, precisava me matricular numa yeshivá no exterior – talvez nos Estados Unidos, Inglaterra ou Israel.

Escrevi sobre isso ao Rebe, que respondeu que eu deveria ir para Israel – ele foi bem categórico de que deveria ser Israel e não outro local. Então, é claro, fiz como ele aconselhou.

Em 1962 fui para Israel, onde estudei durante mais de um ano na Yeshivá Tomchei Temimim em Kfar Chabad, e então casei-me com Devorah e me mudei para Bnei Brak. Depois de algum tempo, o Rebe recomendou que eu baseasse meu sustento no conhecimento de Inglês. Isso mais tarde se concretizou ao dirigir um programa falado em inglês para aqueles que chegavam de um local semelhante ao meu e tinham tido pouca educação anterior em Judaísmo.

Após a Guerra dos Seis Dias, houve um enorme despertar de judeus em países de língua inglesa que queriam vir para Israel, se conectar com o Judaísmo e estudar Torá na yeshivá. Mas os professores não sabiam como lidar com eles porque não tinham experiência com esse tipo de aluno que carecia de conhecimento judaico básico.

No outono de 1967, o Rabino Nachum Trebnik, diretor da Tomchei Temimim, foi passar as Grandes Festas em Nova York e relatou sua conversa com o Rebe à administração da yeshivá. O Rebe aconselhou que um programa especial fosse aberto para esses jovens e para recomendar alguém que falasse inglês com alguma experiência em yeshivá para cuidar deles. O Rebe me indicou para liderar este programa.

O Rabino Trebnik foi bastante meticuloso para repetir exatamente aquilo que o Rebe tinha dito a ele, e pouco depois, fui instruído a aceitar essa missão.

Demorou um pouco para estabelecer o programa, mas então os alunos, repletos de desejo por Torá e espiritualidade, começaram a vir. Eles não eram alunos estilo padrão de yeshivá. Usavam cabelos longos – até mesmo rabos de cavalo – e vestiam jeans e camisetas, não exatamente o que combinava com o estilo de roupas da yeshivá. Mas ninguém os repreendeu, pois todos sabiam que o Rebe queria este programa.

Após dirigir o programa por algum tempo, fui a Nova York em 1969 para discutir meu progresso com o Rebe.

Na minha cabeça estava a preocupação constante de que, antes de fazer este trabalho, eu conseguia rezar com profunda concentração, mas agora minhas responsabilidades na yeshivá estavam atrapalhando meu próprio crescimento espiritual.

A resposta do Rebe foi que minha missão atual – aproximar meus alunos da Torá – deveria ser minha meta principal. Ele então deu-me um exemplo do Talmud que relata a história de Rabi Shmuel bar Shilat, descrito como o mais notável dos professores.

Um dia, o grande sábio Rav encontrou Rabino Shmuel bar Shilat em seu jardim e, surpreso por vê-lo fora da sala de aula, perguntou: “Você abandonou sua obrigação e negligenciou seus alunos?”

O Rabino Shmuel bar Shilat respondeu: “Já faz treze anos que não vejo meu jardim, e até mesmo agora, enquanto estou aqui, ainda estou pensando neles.”

À medida que o Rebe me contava essa história, um pensamento me passou pela mente: “Isso é o fim para mim. A partir de agora, somente os alunos importam – não sou mais importante.” Então, o Rebe parou de falar de repente e olhou para o teto. Isso era surpreendente porque raramente o Rebe se distraía do assunto em questão. Mas, ele pausou no meio, e após um momento, abordou meus pensamentos em primeiro lugar. Ele disse: “Mas ainda precisamos encontrar uma solução,” querendo dizer: ”você não pode sair se sentindo assim.”

E então o Rebe começou a falar sobre rezar bastante. Ele disse que o Rabino Yochanan é citado no Talmud como tendo dito: “Se apenas uma pessoa rezasse o dia inteiro.” O Rebe afirmou que Rabino Yochanan meramente disse “se apenas”, mas ele não deu uma diretiva de que a pessoa deveria rezar o dia inteiro. Mas sim, ele estava tentando expressar a importância da prece e dizendo às pessoas para rezarem com maior cavaná, intenção.

“Se uma pessoa fosse rezar o dia inteiro, quem iria cuidar de outros assuntos tão relevantes?” perguntou o Rebe. “O que iria acontecer com os alunos? Quem tomaria conta deles?”

O Rebe então sugeriu que eu recitasse várias passagens do Sidur lentamente, com grande intensidade. O restante das preces poderia ser recitado num ritmo mais regular. Mas eu deveria dobrar a página quando parasse minha prece intensa para que, após vários dias recitando essa passagem com profunda concentração, eu pudesse continuar para a próxima. Dessa maneira, no decorrer de um tempo, eu teria recitado o serviço de prece inteiro com profunda intenção.

“Mesmo que possa lhe parecer um pouco difícil”, acrescentou o Rebe, “pois você também deverá se preparar para as suas aulas... Um professor que transmitirá uma aula deve se preparar muito, muito bem, para que tenha completo domínio da matéria que vai transmitir aos seus alunos.”

O Rebe me lembrou que quando meu serviço de prece sofre devido às minhas obrigações de ensinar, eu ainda tenho o Shabat para cumprir isso, acrescentando que “se alguém reza adequadamente no Shabat isso ilumina sua semana inteira.”

Foi isso que o Rebe me disse, e seu conselho se tornou a base de toda minha abordagem de ensino.

Mas após alguns anos lecionando, comecei a sentir que os administradores de Tomchei Temimim não estavam tão felizes com os estudantes não conformistas no meu programa. Então fui ver o Rebe para discutir sobre a instalação de uma instituição separada para eles, fora da yeshivá.

Mas o Rebe não concordou. Ele disse para eu não sair de Tomchei Temimim. Falou que deveríamos levar nosso programa na direção dos jovens que estavam fazendo teshuvá, retornando ao Judaísmo, que estavam prontos a aceitar o programa exigente de estudo de uma yeshivá, não necessariamente aqueles que estavam no nível de primeiro grau, por assim dizer. Ele queria que nós oferecêssemos uma real experiência de yeshivá para esses alunos. E ele me instruiu: “Ich vil ir zoit hdeven chasidishe bochurim un chasidishe yungerleit – quero que você os nutra para serem jovens chassídicos.”

“Se você fizer isso,” insistiu o Rebe, “será a perfeição de Tomchei Temimim.”

Mais cedo na conversa, ele tinha chamado meu programa de “a glória de Tomchei Temimim.” Mas agora ele disse: “será a perfeição de Tomchei Temimim” – aquelas foram as próprias palavras que ele usou, o que indica quão fortemente ele se sentia a respeito. (Você deve entender: Tomchei Temimim foi fundada pelo quinto Rebe Chabad nos anos 1800, e contou com muitos chassidim de elite entre seus alunos, e aqui o Rebe estava chamando meu programa “a perfeição”!)

Obviamente, o programa continuou em Tomchei Temimim com classes separadas em inglês e serviços de tefilá, prece, separados. Como o Rebe previu, isso permitiu aos meus alunos apreciar a autêntica experiência da yeshivá, enquanto se beneficiavam do seu próprio estudo e círculo de amigos.

No decorrer dos anos, centenas de estudantes passaram pelo programa, e a maioria deles estabeleceu lares chassídicos e alguns deles foram servir no mundo como emissários Chabad, cumprindo a ampla visão do Rebe.