Quando jovem eu buscava uma formação em arte na Escola de Desenho de Rhode Island, e fui influenciado pela cultura dos Anos Sessenta. Somente quando saí da escola e fui apresentado a Chabad as coisas começaram a mudar para mim. Isso aconteceu em 1972 quando eu tinha vinte anos.

A certa altura depois que me matriculei em Tiferet Bachurim, a yeshivá Chabad em Morristown, Nova Jersey, surgiu uma oportunidade para mim e alguns dos meus colegas de termos uma audiência privada com o Rebe. Nós nos preparamos aumentando nossos estudos de Torá, e entramos um a um. Lembro-me de estar muito ansioso e não sabia o que esperar até que passei pelo limiar do estúdio do Rebe. É difícil para mim descrever o que senti porque para mim parecia uma realidade diferente. E eu pensei: “Tenho de aceitar essa sensação espiritual e incorporá-la de alguma forma na minha arte.”

Quando eu estava de pé perto da entrada da sala, inseguro sobre o que fazer a seguir, o Rebe disse: “Aproxime-se.” Então fui direto até a mesa do Rebe e entreguei-lhe a carta que tinha escrito com minhas perguntas, e também coloquei sobre sua mesa três pequenas amostras da minha arte porque eu queria que ele me aconselhasse sobre o que eu deveria fazer com meu talento artístico. Eu pensava que talvez deveria me tornar um escriba, pois era bom em caligrafia hebraica, e acreditava que se ficasse religioso essa era provavelmente uma profissão mais adequada do que me tornar um pintor.

Mas o Rebe tinha outra ideia. Ele disse que eu deveria considerar em fazer contratos de casamento iluminados, ketubot, que tinham sido o tema da arte judaica durante muitos séculos. Perguntei a ele se eu poderia também ilustrar livros infantis e o Rebe aprovou, desde que isso não interferisse com meu padrão de estudos na yeshivá. A essa altura eu estava tão empolgado por que ele estava me dando a luz verde para expressar meu talento, que exclamei Baruch Hashem (graças a D'us) em voz alta três vezes.

Quando chegou a hora de sair e eu estava perto da porta, o Rebe me chamou de volta e perguntou sobre as amostras de arte que eu tinha esquecido sobre sua mesa.

“Esses são para mim?”

“Se quiser e gostar deles…” respondi, um tanto aturdido.

Ele pegou cada um e então escolheu uma pequena aquarela de uma cena de inverno na Rússia, mostrando uma pequena sinagoga com uma Estrela de David no topo e uma lua crescente ao fundo. Quando ele disse: “Vou guardar esse,” eu fique tão feliz.

Novamente comecei a sair, mas novamente o Rebe me chamou de volta. “Este é um original?” ele perguntou. Respondi que era, e o Rebe disse: “Não posso guardar um original, mas quando fizer uma cópia por favor envie uma para mim.”

Obviamente, mandei imprimir e a enviei ao Rebe. E, em seguida, sempre que eu fazia impressões de edição limitada da minha obra, enviava uma ao Rebe.

Ora, eu não esperava isso, mas o Rebe se provou sendo um crítico de arte. Lembro-me de enviar a ele minha primeira litografia, que é uma forma complicada de arte fina exigindo muito trabalho manual antes de imprimir. É chamada “A Aldeia dos Menchniks” e mostra minúsculos judeus levando suas vidas – é uma pintura muito movimentada com uma miríade de coisas acontecendo.

Após entregá-la, recebi uma resposta do Rebe dizendo que “se pode ser feita facilmente” algumas poucas coisas deveriam ser mudadas. O Rebe percebeu que havia itens pintados que estão relacionados a cada um dos três pilares espirituais sobre os quais, segundo a Mishná, o mundo se apóia. Ele pediu que eu removesse esses itens para seus locais apropriados.

O Rebe tinha notado que, no canto inferior esquerdo, há uma pequena casa chamada “Fundo de Empréstimo Grátis”e outra chamada “Hotel Hospitalidade”, e ele pediu que sua locação fosse mudada para a direita, pois esses são atos de bondade, o pilar que corresponde à direita. O Rebe queria que a sinagoga fosse mudada para a esquerda, pois a sinagoga simboliza serviço divino, o segundo pilar que pertence ao lado esquerdo. E ele sugeriu que a yeshivá e os livros de Torá fossem colocados no centro. Havia também uma fábrica que fazia dreidels, mas o Rebe pediu que em vez disso fizesse velas de Shabat.

Os impressos já tinham sido feitos e eu não poderia mudá-los. Mas depois disso, aprendi uma lição – sempre iria enviar ao Rebe uma prova para que qualquer mudança que ele recomendasse fosse feita. E, obviamente, incorporei aquilo que ele tinha sugerido nos futuros quadros.

Outro trabalho meu que o Rebe comentou foi um chamado “A Grande Feira de Mitsvá”. Mostrava um parque judaico de diversões com corredores feitos de mitsvot. O Rebe notou que a mitsvá de Sucot – o lulav e etrog – estavam faltando. Mais tarde, quando publiquei um livro com aquele título, assegurei que houvesse uma ilustração de uma tenda na feira dedicada a lulav e etrog, e a outra das sugestões do Rebe: uma loja de presentes chamada “Ahavat Yisrael”. Isso, é claro, fazia total sentido porque um presente é uma forma de expressar amor.

Como minha arte se tornou um pouco mais conhecida, fui convidado para exibi-la, e a certa altura organizei exposições em oito diferentes Beit Chabad na Califórnia. Eu era muito jovem nessa época e calculei mal por quanto eu iria vender, portanto na terceira exposição eu já tinha vendido quase tudo. O que eu iria exibir na quarta?

Tentei pintar algumas coisas novas à noite, mas não deu muito certo, e tive de pegar emprestado de volta as obras que já tinha vendido apenas para ter algo para mostrar. Ao final da viagem, eu estava exausto pelo stress e voltei para casa doente por causa de toda aquela experiência.

Quando escrevi ao Rebe pedindo conselho sobre como evitar tamanha ansiedade no futuro, ele respondeu que eu deveria meditar sobre o conceito da Divina Providência e que deveria colocar em minhas exibições o seguinte: uma caixa de caridade, os Cinco Livros de Moshê, o Livro dos Salmos, e um Sidur, livro de preces. Ele disse também que antes de todas exposições, eu deveria doar para caridade “dezoito vezes dezoito centavos” (pois o número dezoito simboliza vida).

Fiz exatamente isso, e o conselho do Rebe salvou-me muitas vezes. Com frequência exibições – especialmente em eventos internacionais, onde a pessoa tem de lidar com costumes, taxas, leis de importação e oficiais corruptos – podem ser muito estressantes. Então há exibições onde mal aparece alguém, ou aquelas onde muitas pessoas vêm, mas ninguém compra nada. Mas não importa o que acontece, meditar sobre a Divina Providência e doar para caridade até antes de ter um lucro ajuda a fortalecer minha fé de que D'us está assistindo e cuidando do meu sustento. E isso dispensa bastante ansiedade e me preenche com mais paz.