Gostaria de partilhar a história da bênção do Rebe que resultou em meu tio – irmão da minha mãe – ser libertado da União Soviética.

A família inteira da minha mãe tinha perecido no Holocausto, com a exceção de seu irmão mais velho, Hershel (Grisha). Ele tinha se juntado ao movimento judaico, mas foi apanhado e sentenciado ao trabalho escravo na Sibéria. Ironicamente, essa sentença horrível na verdade salvou sua vida, embora sua esposa e filha fossem mortas pelos nazistas.

Após a morte de Stalin em 1953, Hershel foi libertado da prisão. Ele casou novamente e mudou-se para Rostov, onde ganhava um magro sustento como carpinteiro. Assim que minha mãe soube onde ele estava, começou a enviar-lhe alguns itens que eram difíceis de conseguir durante a era soviética.

O desejo ardente de minha mãe era se reunir com seu irmão, o único sobrevivente da família. Ela resolveu fazer tudo que pudesse para obter vistos para ele e sua família entrarem no Canadá. No entanto, todos os seus esforços foram em vão. O maior problema era que, na época, e emigração da Rússia era severamente restrita pelas autoridades soviéticas.

Era quase impossível para alguém partir, muito menos um judeu que tinha sido previamente preso por “atividades contra-revolucionárias”. A Cortina de Ferro estava firmemente fechada, e Hershel preso atrás dela.

O coração da minha mãe estava partido porque seu querido irmão estava tão longe, num local onde havia pouca oportunidade para ele ;evar uma vida judaica adequada ou educar seus filhos para viverem orgulhosa e abertamente como judeus.

Sentindo seu sofrimento, resolvi conseguir uma bênção do Rebe para a libertação do meu tio. Durante uma audiência pessoal em 1970, reuni a coragem para fazer algo que não era habitual para um chassid: pedi ao Rebe para dar sua convicção – além de uma bênção – de que meu tio deixaria a Rússia. A princípio, o Rebe não respondeu ao meu pedido e falou comigo sobre outros assuntos. Mas persisti e pedi uma segunda vez, novamente sem ter uma resposta.

Em prol da minha mãe, fiz o pedido pela terceira vez. Então, o Rebe respondeu. Olhou para mim, seus olhos penetrando nos meus, e disse: “Eles irão sair. Mas você não pode revelar isso a ninguém.”

Sem pensar duas vezes, prometi que não revelaria.

Saí do escritório do Rebe voando nas alturas – estava encantado por que minha mãe veria seu irmão novamente e seu sofrimento iria cessar. E me senti obrigado a partilhar a notícia com ela. Pensei que embora o Rebe tivesse pedido que eu não revelasse isso a ninguém, minha mãe não era apenas “ninguém”. Então, assim que a vi, contei a ela. Logo em seguida, porém, senti um profundo arrependimento e comecei a temer que minha revelação talvez fosse diminuir a certeza do Rebe, pois ele tinha declarado especificamente que não deveria ser partilhado com ninguém.

Passou cerca de um ano, e meu tio ainda não tinha permissão de deixar a Rússia. Então novamente toquei no assunto da sua libertação com o Rebe, mas dessa vez, simplesmente pedi uma bênção, não a garantia de que eu tinha buscado na minha audiência anterior.

O Rebe não disse nada sobre meu erro em respeitar a condição que ele tinha imposto previamente, e com um grande sorriso, deu uma linda bênção de que meu tio teria permissão de partir. Então perguntei ao Rebe o que eu deveria fazer para apressar o cumprimento dessa bênção.

Ele respondeu: “Az men geit, geit men tzu di hechste – Quando alguém procura algo, deve ir ao topo.” Entendi que isso significava que eu deveria ir ao topo oficial, e no Canadá o topo significava Primeiro Ministro Pierre Trudeau. Escrevi imediatamente uma carta ao Primeiro Ministro Trudeau sobre a situação de meu tio. Logo depois, recebi uma resposta dizendo que o assunto estava sendo passado ao Secretário de Estado para Relações Exteriores, Sr. Mitchell Sharp. Meu irmão e eu começamos imediatamente a nos corresponder com seu escritório, fazendo numerosas visitas a Otawa. Finalmente, fomos informados que nossos esforços tinha sido bem sucedidos e que meu tio receberia um visto para entrar no Canadá.

Informamos ao meu tio que seu visto canadense estava pronto e que ele deveria pedir um visto de saída da Rússia. Ele foi ao escritório de imigração porém não apenas seu pedido foi negado, como foi ameaçado de ser enviado de volta para a Sibéria. Meus primos, que eram estudantes universitários, também foram aconselhados a se dissociar do seu pai.

Meu tio ficou tão abalado por esses eventos que enviou um telegrama para minha mãe, pedindo a ela para não tentar novamente. Quando recebemos essa horrível notícia, ficamos devastados.

E então caiu a ficha – eu não estava seguindo as instruções do Rebe para a carta. Ele tinha me dito para ir ao topo; em vez disso eu tinha lidado com funcionários num nível mais baixo.

Imediatamente fiz contato com o escritório do Primeiro Ministro novamente, mas dessa vez pedi sua intervenção pessoal. Em resposta, fomos informados que o Primeiro Ministro Trudeau concordava com nosso pedido, além das centenas que ele tinha recebido, para pedir pessoalmente ao Premiê Soviético Alexei Kosygin – que na época estava num viagem ao Canadá – para libertar meu tio e outros dois.

Pouco tempo depois, meu tio foi chamado pelas autoridades. Ele foi, temendo o pior. Mas veja só, ele teve uma surpresa. O oficial comunista o tratou respeitosamente, até mesmo oferecendo-lhe café e cigarros, tendo recebido uma ordem direta de Moscou de que deveria emitir um visto de saída incondicional. O oficial disse ao meu tio que durante todos seus anos de serviço com o escritório de imigração, ele nunca tinha tido uma decisão mudada. Ele estava perplexo e muito intrigado. “Você tem conexões muito altas,” ele concluiu.

Pouco depois, para nossa grande alegria, meu tio chegou ao Canadá com sua família, E obviamente, a primeira coisa que ele queria fazer era ver o Rebe. Durante aquela audiência, ele pediu a bênção do Rebe para que o irmão de sua esposa e a família também pudessem sair. O Rebe disse com um sorriso: “Eles irão sair, mas por meio de milagres ‘menores’ dos que você passou.” E certamente, eles também receberam permissão para sair e imigraram para Israel.

Após se instalarem no Canadá – onde meu tio viveu até o restante dos seus dias , e onde seus filhos se casaram com judias observantes – fomos convidados a Ottawa para um encontro com o Primeiro Ministro.

Quando o Primeiro Ministro Pierre Trudeau entrou, fui até ele e o abracei e beijei. A foto daquele abraço saiu na primeira página do jornal mais importante de Montreal na época – o Montrel Star – o Primeiro Ministro sendo abraçado e beijado por um rabino chassídico.

O Rebe sempre dizia que um milagre acontece através da natureza. No caso de um médico curando um paciente, o médico é necessário para que o milagre aconteça. Neste caso, o “topo” foi necessário. O Primeiro Ministro Pierre Trudeau cumpriu aquele papel e ao fazê-lo, desempenhou uma parte na realização da bênção do Rebe.