Meu pai, o rabino Meir Amsel, nasceu em Neudorf, na Eslováquia. Quando menino, sua mãe o acordava às 4h da manhã, amarrava uma lanterna em seu peito e o mandava estudar Torá na sinagoga local, que era bem simples, onde havia apenas um professor para todos os sete meninos da aldeia.

Por causa da Primeira Guerra Mundial, a família fugiu para a cidade vizinha de Košice, onde, sob a orientação dos principais rabinos da cidade, ele pôde se dedicar à sua profunda paixão pelo estudo da Torá. Nós, crianças, nunca o vimos sem um livro da Torá nas mãos – ele dormia com um volume do Talmud e acordava com ele – e possuía vasto conhecimento em todas as áreas da Torá.

Após a Segunda Guerra Mundial, meu pai veio para os Estados Unidos e fundou uma revista mensal chamada HaMaor. Ele tinha uma escrita primorosa, um domínio excepcional da língua hebraica e um profundo conhecimento dos assuntos da atualidade, especialmente aqueles relacionados ao mundo judaico. Dedicada ao discurso da Torá e à aplicação prática da lei judaica, cada edição da Revista HaMaor abordava questões da esfera religiosa judaica que necessitavam de atenção.

Como resultado disso, ele desenvolveu relações próximas com muitas das grandes figuras rabínicas da América, desde o Rebe de Lubavitch até o Rabino Eliezer Silver, o Rabino Moshe Feinstein, o Rabino J. B. Soloveitchik, o Rabino Aharon Kotler, bem como o Rebe de Satmar, o Rebe de Bobov e o Rebe de Bluzhever. Todos eles eram assinantes, colaboradores e amigos que o apreciavam e admiravam seu conhecimento da Torá.

Quando eu era criança, meu pai levava eu e meu irmão com ele para visitar os diferentes sábios e rebes que ele visitava. E de 1951, ano em que nasci, até depois do meu Bar Mitsvá, moramos em Crown Heights, perto do 770, onde íamos com frequência.

Quando meu pai caminhava pela rua, aproveitava o tempo para refletir sobre assuntos relacionados ao estudo da Torá, com a mente em todos os lugares, menos na calçada à sua frente. Certa vez, ele caminhava em direção ao 770 para Shacharit, as orações da manhã e, sem que ele soubesse, o Rebe estava logo à sua frente. Se tivesse percebido, teria diminuído o passo para dar mais espaço ao Rebe, mas, ao chegar à porta do 770, viu o Rebe segurando a porta aberta para ele. Ele parou, mas, para sua surpresa, o Rebe convidou meu pai a entrar primeiro! É claro que meu pai recusou, mas o Rebe insistiu: “Você está segurando tefilin. Você deve ir primeiro.”

Apesar dos pedidos do meu pai, o Rebe recusou-se a escrever responsa para o HaMaor, explicando que esse era o campo de atuação do Rabino Zalman Shimon Dvorkin, a principal autoridade haláchica da comunidade Lubavitch.

Em vez disso, ele submetia artigos — editados especificamente para o HaMaor e republicados recentemente em uma coletânea separada — contendo seus ensinamentos sobre a porção semanal da Torá ou sobre uma festa que estava próxima. São ensinamentos fascinantes, redigidos de forma que um rabino comum pudesse apreciar e compreender. Frequentemente, quando preciso discursar, consulto um exemplar antigo do HaMaor para referenciar o que o Rebe escreveu. Durante décadas, as primeiras quinze páginas de cada edição eram dedicadas a esses ensinamentos.

Junto com o artigo, o Rebe também enviava um cheque de US$ 1.500 ou US$ 2.000. Esses cheques sustentavam meu pai por mais um mês, especialmente quando a revista se envolvia em diversas controvérsias haláchicas e algumas pessoas retiravam seus anúncios. Assim, por cerca de trinta anos, o Rebe foi o principal financiador da revista.

Em 1965, viver em Crown Heights, nossa região, tornou-se muito difícil; era quase impossível atravessar o bairro sem ser assaltado ou atacado. Então, meu pai decidiu se mudar. Ele encontrou um prédio antigo à venda em Borough Park, na esquina da Rua 50 com a Avenida 18, e decidiu transformar o térreo em uma sinagoga e um mikve, enquanto nós moraríamos em um apartamento no andar de cima. Muitos dos artigos que meu pai escrevia eram sobre mikve e, naquela época, ele sentia que essa prática – as leis da Pureza Familiar – não estava sendo observada de acordo com os padrões e a seriedade que merecia. O problema era que ele não tinha dinheiro e precisava de 23 mil dólares, então pediu ajuda aos amigos.

“Rebe”, disse ele, “preciso de dinheiro.”

O Rebe lhe deu US$ 5.000 e uma bênção para sucesso: “Seu prédio fica na esquina da 50ª com a 18ª”, comentou. “Isso representa os 50 Portões da Compreensão [Cabalística] e Chai [vida]!” Depois disso, meu pai procurou seu próximo amigo, o Rebe de Satmar, que contribuiu com mais US$ 5.000. O mikve permanece em uso até hoje!

Quando o Rebe começou a prática de distribuir dólares para que as pessoas doassem para a caridade, meu pai foi lá uma vez e o Rebe lhe deu um maço de cinquenta notas de um dólar. "Rabino Amsel", disse ele, "temos que te apoiar!"

Ainda guardo essas notas hoje e consegui dar um dólar daquele maço para cada um dos meus filhos e netos. Quando passarmos de cinquenta, se D’us quiser, aí sim nos preocuparemos com isso.

Sempre que meu pai tinha uma audiência com o Rebe, ela durava horas. O Rebe disse a ele certa vez que gostava desses encontros porque eles podiam conversar confortavelmente. A maioria das pessoas que iam ao Rebe lhe contava seus problemas, " com você", comentou o Rebe, " consigo conversar sobre outros assuntos."

Meu pai nunca compartilhou suas conversas particulares conosco, mas em 1988, quando a esposa do Rebe faleceu, ele foi oferecer suas condolências, e essa conversa foi gravada. O Rebe estava visivelmente muito aflito naquele momento, e meu pai queria encorajá-lo. Ele sentia que, como líder do mundo judaico, o Rebe não podia se deixar abater pela depressão. Como suas conversas sempre envolviam a Torá, ele expressou esse sentimento citando o Tratado Yomá do Talmud, que afirma que, como o Sumo Sacerdote precisava ser casado para cumprir seus deveres em Yom Kipur, se sua esposa falecesse naquele dia, ele seria obrigado a se casar novamente… imediatamente. A isso, meu pai acrescentou que, como o serviço do Templo devia ser realizado com alegria, isso significava que um líder judeu podia e devia estar alegre mesmo em tais circunstâncias.

“Não quero discutir com você”, respondeu o Rebe, “mas há toda uma discussão talmúdica no Tratado Sanhedrin sobre como nunca se esquece a esposa da juventude”.

O Rebe explicou que é por isso que a Torá descreve como Yaacov ficou tão desolado com a perda de sua esposa Rachel. Ele ainda estava cercado por uma grande família, com outras três esposas e muitos outros filhos, mas isso não o consolou.

Em essência, o Rebe estava perguntando: como alguém poderia não ficar desolado em tais circunstâncias?

Tendo sido casado por quase sessenta anos, a Rebetsin era a “esposa da juventude” do Rebe, e sua morte foi uma perda enorme para ele. Poucas pessoas teriam recebido uma resposta como essa do Rebe, mas era assim que ele se relacionava com meu pai.