Meu nome ao nascer era Philip Jacobs, embora fosse mais conhecido como “Jacobs Flip/irreverente” no bairro predominantemente judaico onde cresci, no Brooklyn. Mas em 1967 – quando eu tinha 11 anos – nos mudamos para South Royalton, em Vermont, uma aldeia com uma população de apenas 900 pessoas, e éramos os únicos judeus da cidade. Havia uma corrente de anti-semitismo brotando ali, e senti um amargo sabor disso quando comecei a escola.

A administração do colégio não podia impedir as surras a que eu rotineiramente estava sujeito dentro e fora dos limites da escola, e ficou dolorosamente claro que eu tinha de aprender a me defender por mim mesmo. Então meus pais me matricularam para aulas de caratê com um professor sul coreano. Desde o início, treinei intensamente – cinco horas por dia, todos os dias da semana. Consegui meu cinturão negro aos 18 anos, e venci muitos torneios regionais incluindo título de Cinto Negro de Peso Pesado na Costa Leste da YMCA de 1976. Passei meus anos de colegial e faculdade treinando e competindo caratê com o plano de um dia lutar nas Olimpíadas.

Enquanto frequentava a Universidade de Vermont, conheci Rabi Shmuel Hecht, o emissário Chabad de lá, que logo me convidou para o jantar de Shabat em sua casa e repetia aquele convite toda semana. Ele me chamava de Fishel, do que ninguém me chamara antes. Ele dizia: “Fishel, a Rebetsin fez ótima comida para você, fez asas de frango que você tanto gosta…” Como eu poderia recusar? Após algum tempo, ele também me convidou para ir a sinagoga nas manhãs de sábado. Então comecei a ir ali também.

Formei-me na Faculdade em 1979 quando, com o encorajamento de Rabi Hecht, matriculei-me na yeshivá Hadar HaTorá em Crown Heights. Obviamente, estando tão perto do Bairro Chabad, eu via o Rebe todo dia quando ele vinha rezar Minchá. E eu fazia questão de ficar perto dele. Lembro do Rebe me olhando – direto nos meus olhos – e creio que ele devia estar lendo minha alma.

Mas, o movimentado bairro Chabad não era o melhor local para eu mergulhar nos meus estudos. Com a aprovação do Rebe, me transferi para a yeshivá em Kfar Chabad, Israel. Ali também não foi fácil para mim. Não sabia hebraico nem aramaico, o idioma do Talmud. Basicamente, eu não sabia nada.

Eu tinha começado uma nova vida, distante, e sozinho. E durante os primeiros dezoito meses, sofri horrivelmente, tanto emocional como fisicamente. Isso porque eu estava afastado de meu treinamento. Quando alguém se acostuma a tanto esforço físico, fica viciado nele. Eu precisava treinar todo dia durante três a quatro horas, mas não podia, devido ao horário da yeshivá. Tornei-me extremamente agitado e não estava absorvendo nada dos meus estudos.

Rabi Moshe Naparstek, meu mentor espiritual na yeshivá, viu o problema, e sugeriu que eu começasse a estudar o Tanya do Rebe Anterior de cor. “Grave as letras sagradas dentro de si mesmo,” disse ele. Naquela mesma noite, comecei a dedicar quatro horas diariamente, além do programa regular da yeshivá, àquela tarefa. Provou ser uma boa ideia porque canalizei meus anos de disciplina do caratê em estudo do Tanya ao pé da letra.

Mas, após três anos eu ainda não tinha progredido muito no programa geral de estudo, e já estava com vinte e cinco anos. Naquela altura – isso foi na época de Pessach, em 1981 – fui aos Estados Unidos, e tive uma audiência com o Rebe.

Lembro-me claramente que, na sua presença, eu senti como se o mundo inteiro estivesse parado. Não havia mundo lá fora. Fui removido de todos os meus problemas.

Eu tinha ido com minha mãe que, como boa mulher judia que era, não perdia tempo e logo foi abordando o assunto de casamento, um shiduch, para mim. O Rebe perguntou o que eu estava fazendo a esse respeito. Respondi que meus rabinos em Kfar Chabad recomendaram que eu começasse a procurar depois de Pessach. O Rebe respondeu: “Agora já é uma semana inteira depois de Pessach, e você ainda não fez nada a respeito?”

Respondi que não estava certo se deveria permanecer em Crown Heights ou voltar para Kfar Chabad, onde eu ainda estava no primeiro nível em estudos talmúdicos. “Você está planejando estudar para smichá?” perguntou o Rebe, referindo-se à ordenação rabínica. Expliquei que meus rabinos em Kfar Chabad achavam que a hora certa para eu começar este programa seria um ano depois de me casar. O Rebe não aprovou. Ele era da opinião de que eu deveria começar logo. Aqui eu ainda era um principiante, tendo problemas para entender o básico, porém o Rebe acreditava que eu poderia me tornar um rabino!

Quanto a encontrar uma esposa, ele recomendou que eu voltasse a Israel onde meus amigos casados iriam “encontrar para você um shiduch adequado… facilmente, no decorrer das coisas,” como ele disse.

Quando voltei a Kfar Chabad, disse a Rabi Naparstek o que acontecera e comecei logo meus estudos rabínicos.

Então, cerca de três semanas depois, um amigo casado veio me dizer que ele me encontrara um shiduch. Quando soube que a jovem era uma professora de estudos de Torá num seminário em Jerusalém, disse imediatamente: “O Rebe disse que eu encontraria um par de maneira fácil, natural através dos meus amigos casados e agora isso está acontecendo. É ela.” E foi ela. Agora estamos casados há 37 anos. Hoje temos sete filhos e quatorze netos.

Quanto aos meus estudos para ordenação rabínica, eles se mostraram extremamente difíceis. Levei dois anos para me tornar um rabino formado. Mas, além do meu diploma pelo sistema Chabad de yeshivá, também queria uma ordenação oficial do Rabinato Chefe de Israel. Escrevi ao Rebe pedindo sua bênção, que ele deu imediatamente. Mas, quando fiz o teste seis meses depois, fui reprovado. Tentei uma segunda vez e fui novamente reprovado. Após mais esforço e revisão, pedi um exame oral, e Rabi Dov Lior, o rabino chefe de Hebron, testou-me pessoalmente. Foram quatro testes, cada um por três horas. Em cada exemplo ele me deu a nota mais alta possível.

Com encorajamento do Rebe, continuei a estudar num kolel de pós-graduação, onde passei doze anos no total. Durante aquele período, completei as difíceis exigências para ensinar Talmud em escolas do segundo grau e para me tornar um advogado rabínico. Então comecei a publicar livros práticos sobre temas como as leis da pureza familiar e as leis do Shabat. Hoje, esses livros têm sido traduzidos para vários idiomas e são vendidos no mundo inteiro.

Realizei tudo que fiz na vida por causa da visão do Rebe. Quando eu estava lutando no nível básico em meus estudos, e ninguém acreditava que eu iria atingir algo academicamente, ele viu o meu potencial. Então, ele estava insistindo para eu buscar a ordenação rabínica. Ele via dentro de mim aquilo que ninguém mais via – nem mesmo eu enxergava isso. Por meio das suas bênçãos, tenho uma esposa perfeita, família, e vida. No que me diz respeito, devo tudo a ele.