Cresci em Crown Heights onde meu pai, Morris Milstein, dirigia uma conhecida drogaria – Milstein Pharmacy – na esquina da Troy com Lefferts.

Embora meu pai frequentasse as preces matinais todo dia, ele não era um homem religioso – ou seja, ele não usava um yarmulke, e sua farmácia ficava aberta sete dias por semana.

Na época, final dos anos 1950 e começo dos anos 1960, as farmácias não eram o que são hoje. Os remédios não vinham embalados em vidros prontos para serem tomados – tinham de ser preparados com um pilão e um moedor, e lembro-me de meu pai misturando fisicamente ingredientes para fazer comprimidos e cápsulas.

Meu pai funcionava basicamente como um médico com as pessoas o procurando para conselhos médicos, e ele praticamente morava na farmácia, onde minha mãe também trabalhava.

Embora não fôssemos Lubavitcher, no decorrer do tempo meu pai desenvolveu uma forte amizade com o Rebe, e minha mãe com a esposa do Rebe. A Rebetsin ia frequentemente à farmácia para comprar remédios – não necessariamente para ela ou para o Rebe, mas para outros. E ela e minha mãe iam ao mercado no carro da Rebetsin, muitas vezes me levando junto.

Meu pai apreciava longas conversas com o Rebe. Às vezes ele me levava junto mas sendo um menino pequeno, eu não estava interessado nas conversas deles – que geralmente eram sobre filosofia e negócios. Então eu ia lá fora para jogar bola. Mas depois que quebrei uma janela não tive mais permissão de ir.

Durante aquela época, o Rebe tentou conseguir que meu pai fechasse a loja no Shabat. Meu pai argumentou que as pessoas dependiam dele e que ao preparar remédios estava salvando vidas. Mas o Rebe dizia: “Você pode fechar no Shabat. Estes ano são casos de vida ou morte que não podem ser adiados até domingo. É importante para você fechar para sua essência judaica e seu bem estar espiritual.”

Obviamente, o sábado era o dia da semana mais movimentado para um farmacêutico. As pessoas estavam de folga e iam à loja fazer compras. Portanto meu pai não podia fechar, e o Rebe continuava a argumentar com ele sobre isso.

Então um italiano abriu uma farmácia a uma quadra na Albany com a Lefferts. Quando aquilo aconteceu o Rebe disse ao meu pai que agora ele não tinha desculpa porque a outra farmácia ficava aberta 24 horas – havia alguém no trabalho que poderia salvar vidas se fosse necessário.

“Mas e quanto ao meu sustento?” meu pai retrucou. “É no sábado que ganho meu dinheiro para a semana.”

O Rebe respondeu com uma carta na qual ele escreveu o seguinte:

“Quanto à questão de parnassá e o efeito imediato que pode ter no retorno da loja, quando ela é fechada no Shabat e Yom Tov, a coisa importante – não é a quantidade de dinheiro ganho, nem como vai ser usado. Pois qualquer pessoa lógica iria preferir ganhar menos mas usar os ganhos em coisas saudáveis e felizes, em vez de ganhar mais e gastar, D'us não o permita, com médicos e coisas semelhantes, quando não somente há uma despesa mas também o problema e o sofrimento envolvidos, D'us não o permita. Na análise final, a pessoa deveria ter em mente que o dinheiro ganho numa maneira contrária à Lei Divina não pode servir como um propósito útil e o ganho aparente pode somente ser ilusório, e até pior. Assim, sob qualquer ponto de vista que você olhar, religioso, moral ou econômico, não há justificativa para manter sua loja aberta no Shabat e Yom Tov, nem pode servir aos seus melhores interesses. Por outro lado, agir pela Lei Divina vai trazer a você bênçãos Divinas para boa saúde e prosperidade, tanto material quanto espiritualmente.”

O Rebe encerrou a carta com bênçãos para a festa de Pêssach e com essas palavras: “Que a época da nossa liberdade traga a você e aos seus uma plena medida de libertação de todas as dúvidas e ansiedades, e verdadeira liberdade no pleno sentido do termo…”

E aquilo finalmente convenceu meu pai a fechar a loja.

Quanto a mim, comecei a gravitar no Chabad com pouca idade. Na época em que eu era um adolescente, muitos judeus começaram a se mudar de Crown Heights e a sinagoga do meu pai, Yeshivá Reiness, tinha diminuído de quinhentos membros para apenas trinta. Mas Chabad estava crescendo. Comecei a ir lá aos sábados pela manhã quando o local ficava lotado com mil ou até talvez duas mil pessoas. Era um mar de gente – com todos usando um chapéu preto e paletó preto – e eu me destacava como um dedo inflamado com meu suéter vermelho ou jaqueta verde. E lembro-me claramente do Rebe me olhando e me reconhecendo.

Naqueles dias, o Rebe e a Rebetsin eram acessíveis e abordáveis. Lembro-me do calor que eles irradiavam, o que fazia uma criança como eu se sentir bem.

E descobri que suas vidas calorosas continuam vivas nas comunidades Chabad no mundo inteiro. Quando eu fiz aliyá para Israel, fui morar em Takoah onde me juntei à comunidade Chabad porque eles me fizeram sentir bem vindo.

Creio que Chabad é o âmago daquilo que o Judaísmo deveria ser. Para mim, isso é demonstrado pelo fato de que você pode entrar num local como Chabad de Takoah e se sentir à vontade não importa como está vestido. Todo aquele que chega é recebido com calor – o calor que eu me lembro como marca registrada do Rebe.