O povo de Israel viajou… e acamparam em Rephidim…
[Moshê] chamou o lugar de “Desafio e Conflito”, por causa do conflito do povo de Israel e do desafio de D'us dizendo: “D'us está ou não entre vós?”
Então veio Amalek e atacou Israel em Rephidim… (Shemot 17:1-8)

Lembra o que Amalek te fez na estrada, quando saíste do Egito. Ali ele te encontrou no caminho, e feriu todos os desfalecidos que ficavam atrás de ti, e tu estavas sedento e cansado; ele não temeu a D'us. Portanto… deves obliterar a lembrança de Amalek de debaixo dos céus. Não te esqueças. (Devarim 25:17-19)

O povo judeu tinha acabado de passar por uma das maiores manifestações de poder Divino da história. Dez pragas sobrenaturais tinham obrigado a nação mais poderosa da terra a libertá-los de sua servidão. O mar tinha se aberto perante eles, e o maná tinha chovido dos céus para alimentá-los. Como poderiam eles questionar “D'us está ou não entre nós?”

Como se deve reagir a Amalek? Como lidar com a apatia, o cinismo, a dúvida interior sem sentido? A fórmula que a Torá propõe está encerrada numa só palavra: Zachor – “Lembra.”

Porém assim é a natureza da dúvida. Há dúvida baseada numa busca racional. Há dúvida que surge de motivos e desejos subjetivos de quem duvida. Mas também há a dúvida pura e simples: irracional, mais poderosa que a razão. Dúvida que neutraliza os argumentos mais convincentes e as experiências mais inspiradoras com nada além de um cínico dar de ombros. Assim foi a dúvida que deixou o povo judeu suscetível ao ataque de Amalek. Amalek, na esfera espiritual, é a essência da indiferença sem base, irracional. Nas palavras do Midrash: a que o incidente de Amalek é comparável? A uma banheira de água fervendo na qual ninguém consegui entrar. Veio um malfeitor e pulou dentro dela. Embora ele ficasse queimado, esfriou-a para os outros.

Assim, também, Israel saiu do Egito, e D'us abriu o mar perante eles e afogou os egípcios dentro dele, e o medo deles caiu sobre todas as nações. Mas quando Amalek veio e os desafiou, embora ele recebesse deles o que lhe era devido, ele esfriou 1 a reverência das nações do mundo para elas. 2

E por isso que Amalek, e aquilo que ele representa, constitui o arquiinimigo do povo judeu e sua missão na vida. Como proclamou Moshê após a guerra contra Amalek: “D'us jurou pelo Seu trono; D'us está em guerra com Amalek por todas as gerações.” 3 A verdade pode refutar os argumentos lógicos oferecidos contra isto. A verdade pode prevalecer até sobre os desejos e anseios egoístas do homem, pois intrínseco na natureza do homem está o axioma de que “a mente governa o coração” – ou seja, que está dentro da pessoa a capacidade de avaliar plenamente uma verdade que está embebida em seu caráter e implementada em seu comportamento. Porém as capacidades racionais do homem são impotentes contra o desafio de um Amalek que salta dentro da banheira fervente, que ousadamente zomba da verdade e esfria os momentos mais inspirados do homem com nada além de um zombador “E daí?”

O Gargalo da garrafa
Amalek atacou Israel “na estrada, saindo do Egito”, quando eles estavam indo para o Monte Sinai para receber a Torá de D'us e o mandato como Seu povo. Aqui, também, a história espelha as obras interiores da alma: o momento do histórico ataque de Amalek descreve as circunstâncias internas sob as quais a pestilência da dúvida infundada ergue sua cabeça.

Na Hagadá de Pêssach dizemos: “Em toda geração a pessoa deve se ver como se tivesse pessoalmente saído de Mitzrayim”. Mitzrayim, a palavra hebraica para Egito, significa “canais estreitos”; no nível pessoal, isso se refere àquilo que o ensinamento chassídico chama de “estreiteza do pescoço” que se interpõe entre mente e coração.

Assim como fisicamente a mente e o coração estão ligados por uma passagem estreita, isso também ocorre no sentido espiritual-psicológico. Pois embora a mente possua uma superioridade inata sobre o coração, é uma tarefa difícil e desafiante uma pessoa exercer sua superioridade – dirigir e moldar seus sentimentos e desejos para ficar de acordo com aquilo que ele sabe ser o certo. Este é o “Êxodo de Mitzrayim” que cabe a toda e cada geração: o desafio individul de negociar os canais estreitos do seu “pescoço” interior, superar as tentações materiais, a subjetividade emocional, o ego e o auto-interesse que mina a autoridade da mente sobre o coração e impede sua influência sobre o caráter e comportamento da pessoa.

Enquanto a pessoa está ainda aprisionada dentro de seu mitzrayim pessoal, enfrenta muitos desafios à sua integridade. Enquanto ainda não conseguiu estabelecer sua mente como o eixo no qual tudo gira, seus traços e instintos básicos – como ganância, ira, a busca pelo poder e gratificação instantânea – podem conseguir tirar o melhor dele. Mas quando ele atinge seu “Êxodo” pessoal a partir dos estreitos canais de sua psique, quando estabelece seu conhecimento e compreensão da verdade como a força determinante de sua vida, a batalha está vencida. Ele pode se defrontar com ideias negativas e racionalizações, mas livre das distorções do auto-interesse, a verdade triunfará. Ele pode ser tentado por anseios e desejos negativos, mas se em sua vida a mente governa o coração, ela vai triunfar e os transformar.

Porém permanece um inimigo que ameaça também o indivíduo pós-Êxodo: Amalek. Amalek “conhece seu Amo e conscientemente se rebela contra Ele.” Amalek não desafia a verdade com argumentos, nem sequer com motivações egoístas; ele apenas as desconsidera. Para o axioma: “Faça a verdade porque é verdadeira”, Amalek diz: “E daí?” Armado com nada além de sua chutzpá, Amalek salta dentro da banheira fervente, contesta o incontestável. E ao fazê-lo, ele esfria seu impacto.

Além da Razão
Como se deve reagir a Amalek? Como lidar com a apatia, o cinismo, a dúvida interior sem sentido? A fórmula que a Torá propõe está encerrada numa só palavra: Zachor – “Lembra.”

Em seu Tanya, 4 Rabi Shneur Zalman de Liadi discute a fé em D'us que é inerente à alma judaica. A fé não é algo que deve ser atingido precisa apenas ser revelada, pois está entranhada no próprio tecido da essência da alma. A fé, continua Rabi Shneur Zalman, transcende a razão. Por meio da fé a pessoa entende a verdade infinita de D'us em sua totalidade, diferente da percepção atingida pela razão, que é definida e limitada pela natureza finita da mente humana.

Assim Rabi Shneur Zalman explica o fato surpreendente de que, no decorrer da história judaica, muitos milhares de judeus sacrificaram a vida para não renunciar à fé e ao seu vínculo com o Todo Poderoso – incluindo muitos que tinham pouco conhecimento consciente e apreciação de seu Judaísmo, e não o praticavam na vida diária. Em seu momento de verdade, quando perceberam que sua própria identidade como judeus estava em jogo, sua fé intrínseca – uma fé que não conhece limites ou equívocos – veio à tona, e dominou tudo.

Amalek é irracional e totalmente averso à razão: a resposta a Amalek é portanto supra-racional. A resposta do judeu a Amalek é lembrar: buscar as reservas de fé supra-racional da alma, uma fé que pode estar enterrada e esquecida sob uma massa de envolvimento e compromissos mundanos. Uma fé que, quando é lembrada, pode vencer todo desafio moral, seja racional ou não.