Por Rabi Dovid Aaron Neuman
Entrevistado em sua casa em novembro de 2013

Nasci em 1934 na aldeia de Vizhnitz, Romênia. Quando eu era pequeno, meus pais imigraram para Antuérpia, na Bélgica.A Bélgica tinha uma grande comunidade judaica – cerca de 50.000 judeus viviam em Antuérpia naquela época – e eles esperavam ter uma vida melhor ali.

Infelizmente, nossa estadia não durou muito. Em 1940, os alemães invadiram a Bélgica e imediatamente começaram a deportar e matar judeus. Todos então começaram a fugir. Cruzamos a fronteira para a França.

Eu tinha apenas seis anos na época, mas tinha idade suficiente para entender que estávamos fugindo para salvar nossas vidas. Fomos para Marselha onde minha avó materna – e também minha tia – moravam. Um grupo de chassidim Lubavitch morava ali, e fomos recebidos calorosamente. Porém oo problema era que não havia nada para nós ali. O que quero dizer é que com a guerra ocorrendo ali, não havia comida suficiente, nem abrigo adequado para todos os refugiados. Íamos de casa em casa, de um lugar para outro. Poucos meses depois os nazistas invadiram Paris, e a situação ficou ainda pior.

Em meio a todo esse caos e violência, minha família foi forçada a se separar. Somente depois da guerra tornei a vê-los novamente. Nesse ínterim, fui enviado a um orfanato em Marselha.

O orfanato abrigava cerca de quarenta ou talvez cinquenta crianças,muitas delas com apenas três ou quatro anos de idade. Algumas sabiam que seus pais tinham sido mortos; outras não sabiam o que tinha acontecido com sua mãe ou seu pai. Com frequência, podia ouvir crianças chorando, chamando pelos pais que não estavam ali para responder.

À medida que os dias passavam, a situação ficava mais e mais desesperada, e a comida cada vez mais escassa. Muitas vezes passávamos fome.

E então, no início do verão de 1941, um homem chegou para o resgate. Não sabíamos seu nome; apenas o chamávamos de “Monsieur”, que em francês significa “senhor”. Todo dia, Monsieur chegava com sacolas de pão – as longas baguetes francesas – e atum ou sardinhas, às vezes também com batatas. Ele permanecia ali até que todas as crianças tivessem comido.

Algumas das crianças eram tão revoltadas, que não queriam comer. Então ele as pegava no colo, contava uma história, cantava para elas, e as alimentava com a mão. Ele queria garantir que todas estariam alimentadas. Com algumas das crianças, ele se sentava perto delas no chão e as adulava para comerem, dando-lhes comida na boca com uma colher, se fosse preciso. Era como um pai para essas crianças tristes.

Ele sabia o nome de cada criança, embora elas não soubessem o dele. Nós o amávamos e esperávamos ansiosos pela sua chegada. Lembro-me que havia um menino que era ciumento. Ele também queria sentar no colo de Monsieur e ouvir canções e histórias. Então ele fingia não comer, para chamar sua atenção.

Monsieur voltava todo dia durante várias semanas. Eu diria que muitas das crianças que moravam no orfanato naquela época devem a vida a ele. Se não fosse por ele, eu, também, não estaria aqui.

Finalmente, a guerra terminou, e voltei para minha família. Deixamos a Europa e começamos uma vida nova. Em 1957, fui morar em Nova York, e foi então que meu tio sugeriu que eu conhecesse o Rebe de Lubavitch. Obviamente concordei e marcamos hora para uma audiência com o secretário do Rebe.

Na data aprazada, fui à sede de Lubavitch no 770 da Eastern Parkway e sentei-me para esperar. Li alguns Salmos e assisti ao desfile de homens e mulheres de todos os estilos de vida que tinham ido para ver o Rebe. Finalmente, fui avisado que chegara a minha vez, e entrei no escritório do Rebe.

Ele estava sorrindo, e imediatamente me saudou: “Dos iz Dovidele! – É Dovidele!”

Pensei: “Como ele sabe meu nome?” E então quase desmaiei. Eu estava olhando para Monsieur. O Rebe era Monsieur! E ele tinha me reconhecido antes que eu o reconhecesse. Era inacreditável.

Depois fiquei sabendo como ele foi para Marselha. Ele e a Rebetsin Chaya Mushka estavam tentando escapar da Europa nazista. Para conseguir os documentos necessários, ele estava viajando ida e volta entre Nice e Marselha. Ele deve ter sabido sobre o orfanato e o sofrimento das pobres crianças, e foi nos dar assistência.

Ouvi dizer que após o falecimento do Rebe, um notebook com sua escrita à mão foi encontrado. Essas notas abrangiam todo aspecto da Torá e mergulhavam na filosofia judaica, Cabalá e Talmud. Incrivelmente, muitas dessas notas foram escritas na mesma época em que o Rebe estivera na França, no início da guerra. Para mim é algo impressionante saber que mesmo entre todo aquele caos, ele permanecia devotado ao estudo de Torá.

Porém ainda mais impressionante para mim é que um erudito de tal magnitude iria – ao mesmo tempo – se ocupar em entregar sacolas de comida e pessoalmente alimentar pequenos órfãos. Ele jamais esqueceu que salvar vidas é o mais importante. E serei grato para sempre por ter ter me salvado e por causa dele, graças a D'us, tenho muitos filhos, netos e bisnetos.