Pergunta: Por favor, fale-nos sobre você e como foi parar na Irlanda.

Resposta: Meu marido, o rabino Zalman Shimon Lent, e eu viemos para a Irlanda pela primeira vez há 20 anos. Ele é de Manchester e eu de Londres. Tínhamos nos casado recentemente e morávamos em Nova York quando a comunidade judaica aqui em Dublin pediu ao rabino Moshe Kotlarsky, vice-presidente do Merkos L’Inyonei Chinuch — o braço educacional do movimento Chabad-Lubavitch — que os ajudasse a encontrar um rabino jovem adequado. Nós dois éramos do Reino Unido, então a Irlanda não é tão longe, e eu realmente não queria morar em um lugar onde não se falasse inglês, então pensamos que nos encaixaríamos bem. Vinte anos depois, nos tornamos parte integrante da vida judaica aqui. Meu marido é o rabino da sinagoga principal e o rabino-chefe interino de todo o país, e eu a única rebetsin na Emerald Isle, Ilha Esmeralda.

P: Você pode descrever a comunidade judaica na Irlanda?

R: Nunca houve uma grande presença judaica aqui — talvez 5 mil pessoas no seu auge. Há judeus aqui há centenas de anos, originalmente sefarditas, seguidos por judeus alemães e, finalmente, por uma onda de judeus do Leste Europeu, principalmente da Lituânia.

Os descendentes dos judeus lituanos formam a base da comunidade judaica estabelecida aqui hoje. A maioria deles é mais velha. Muitas crianças se mudaram do país ou se assimilaram em maior ou menor grau. E então, temos todos os tipos de pessoas que vêm para cá para trabalhar, particularmente na indústria de alta tecnologia como israelenses, ingleses, americanos, europeus.

A principal comunidade judaica está aqui na capital, Dublin, com pequenas comunidades em outras cidades como Cork, Limerick e Waterford, que antes tinham congregações ativas, mas foram reduzidas a apenas um punhado de indivíduos.

Moramos bem ao lado da nossa sinagoga, que está localizada em uma área suburbana de classe média, onde muitos outros judeus moram.

Muitos na unida comunidade judaica da Irlanda fazem parte da congregação dos Lents.
Muitos na unida comunidade judaica da Irlanda fazem parte da congregação dos Lents.

P: Que tipo de comodidades existem?

R Muitos produtos nos supermercados irlandeses são provenientes do Reino Unido, então há uma boa quantidade de produtos casher disponíveis aqui. Há uma loja em Dublin que oferece uma linha completa de queijos, carnes e outros produtos. Temos uma padaria casher, que meu marido supervisiona, e é basicamente isso. Também há um serviço de catering casher, e meu marido supervisiona uma fábrica de pão. Ele é o rabino da grande sinagoga, que é semelhante às Sinagogas Unidas na Inglaterra. Graças a D’us, há serviços diários, com um público maior vindo para o Shabat e feriados.

P: Há um mikve?

R: Quando chegamos, a comunidade financiou nossa posição com a renda da venda de uma bela e antiga sinagoga no centro da cidade, que não era mais necessária. Havia um mikve nessa sinagoga, construído em 1915. Quando o prédio foi vendido, um novo mikve foi construído em Terenure, no terreno da sinagoga remanescente, onde servimos. Há alguns anos, ele foi lindamente reformado. Graças a D’us, várias mulheres o utilizam regularmente.

Com uma de suas filhas na Ilha Esmeralda
Com uma de suas filhas na Ilha Esmeralda

P: Você mencionou shochatim Chabad que vivem na Irlanda. Pode me contar mais?

R: Após o Holocausto, a Irlanda concordou em fornecer carne casher aos judeus que viviam em campos de pessoas deslocadas na Europa, mas precisavam de shochatim (abatedores casher treinados). Um grupo de famílias Chabad se mudou para a Irlanda para suprir essa necessidade.

Até hoje, há alguns homens e mulheres Chabad de meia-idade no Brooklyn e em outros lugares que nasceram na Irlanda. O rabino Zalman Shimon Dworkin, que mais tarde se tornou a principal autoridade haláchica da comunidade internacional Chabad, também estava aqui. No Museu Judaico daqui, você pode ver uma lata de carne com sua supervisão casher. Acontece que meu marido também se chama Zalman Shimon, então ele é o segundo rabino Chabad na Irlanda com esse nome!

P: Quantos anos têm seus filhos e o que eles estudam?

R: Graças a D’us, temos filhos de diferentes idades. Nossa filha mais velha está em Nova York fazendo seminário, e nosso filho mais novo mora conosco. Temos uma pequena escola judaica, onde eu lecionava e meu marido ainda leciona. Nossos filhos frequentam essa escola até os 11 anos, mais ou menos, quando os enviamos para morar com parentes na Inglaterra e eles passam a frequentar escolas com um programa judaico mais robusto.

A Irlanda possui uma rica história, incluindo a judaica.
A Irlanda possui uma rica história, incluindo a judaica.

P: Você sabia que isso ia acontecer em algum momento: como está o clima por aí e como as coisas estão sendo afetadas pelo Brexit?

R: Caso seus leitores não saibam, a Irlanda não faz parte do Reino Unido, mas compartilhamos uma fronteira com a Irlanda do Norte, que faz. Há motivos para acreditar que o Brexit atrairá pessoas para a Irlanda, que então se tornará o único país de língua inglesa na União Europeia. Mas acho que teremos que esperar para ver. O Brexit também pode nos impactar negativamente em termos de facilidade para encontrar comida casher.

Também estamos acompanhando atentamente nossas próprias eleições parlamentares, onde o Sinn Féin, associado ao IRA e extremamente anti-Israel, governo, mas certamente estamos monitorando a situação.

P: O antissemitismo é um problema na Irlanda?

R: Tendo lutado contra o Reino Unido durante muito tempo como um país oprimido que recorreu ao terror para atingir seus objetivos, muitos irlandeses se identificam fortemente com os palestinos, e existe um forte sentimento anti-Israel. No entanto, há muito pouco antissemitismo aqui, e me sinto mais segura aqui do que quando visito Nova York.

P: Você costuma ir frequentemente para Nova York?

R: Vivendo em uma comunidade judaica relativamente pequena, considero extremamente revigorante participar da conferência anual das Emissárias Chabad-Lubavitch, que acontece todos os anos no Brooklyn. É uma oportunidade de troca, de conversar com pessoas que compartilham experiências, objetivos e são fontes de inspiração.

As crianças mais novas da família Lent estudam na escola judaica local.
As crianças mais novas da família Lent estudam na escola judaica local.

P: Você se sente sozinha na Irlanda?

R: Temos uma comunidade adorável e estamos rodeadas de ótimos amigos. No entanto, é verdade que não há muitas mulheres aqui que compartilhem minha história de vida. Quando chegamos, usávamos internet discada para e-mail e as ligações telefônicas para a Inglaterra já eram bem acessíveis. Graças a D’us, com o WhatsApp e tudo mais, é muito fácil manter contato com nossas famílias, que estão espalhadas pelo mundo todo. Também não estamos muito longe do Reino Unido, então não é difícil nem caro para visitar a família.

P: Após 20 anos de shlichut, o que lhe inspira?

R: As pessoas me inspiram. Quando alguém me manda uma mensagem ou me conta — às vezes, anos depois — como algo que eu fiz ou disse impactou essa pessoa, isso torna tudo o que eu faço mais significativo e gratificante.

Por exemplo, uma amiga minha estava em luto (shivá), e eu levei comida para que ela e sua família pudessem jantar juntos na sexta-feira à noite, o que eles fizeram. Mais tarde, ela me contou que eles gostaram tanto da refeição de Shabat que decidiram repeti-la regularmente. Vemos pessoas se aproximando, aprendendo mais e inspirando outras. E o que poderia ser mais inspirador do que isso?

A família Lent no bar mitsvá de um de seus filhos, junto com os pais da Sra. Lent, os Drs. Tali e Kate Miriam Loewenthal.
A família Lent no bar mitsvá de um de seus filhos, junto com os pais da Sra. Lent, os Drs. Tali e Kate Miriam Loewenthal.