Viver uma vida espiritualmente comprometida obviamente não significa que devemos renunciar a todos os prazeres mundanos e viver uma vida cheia de sofrimento e dor; pois, como enfatizam os ensinamentos chassídicos, a autoflagelação não é o ideal nem o objetivo. No entanto, é necessário saber o que é verdadeiramente importante e o que é apenas secundário. Um “bezerro de ouro” não deve ser feito de dinheiro, cinema e coisas semelhantes — certamente você percebe que elas têm apenas valor secundário, ou talvez até mesmo sejam completamente vazias.
Quando você se apega aos ensinamentos da Torá em seu dia a dia — particularmente em seus pensamentos, palavras e ações — você “conquista o seu mundo”.1
— Para um grupo de meninas adolescentes, 1954
O Rebe tinha uma firme convicção: um estilo de vida ancorado em ideais divinos e práticas espirituais é o mais propício à estabilidade emocional.
O Iceberg
“Isso foi explicado em nossa Torá”, diz uma carta de 1965, e também foi confirmado pela ciência moderna — que uma camada superficial pode encobrir uma característica ou qualidade essencial. Ou, para usar a terminologia moderna, o subconsciente pode ser sobreposto pela mente consciente. Nesse caso, os conflitos são inevitáveis, pois a essência do homem está ligada às camadas internas profundas e não à “cobertura” superficial, que está sujeita a mudanças e à influência de forças externas. 3”
Baseando-se em ensinamentos judaicos ancestrais, o Rebe sustentava que nossos pensamentos conscientes são apenas a ponta do iceberg. Abaixo deles, existe um mundo infinitamente mais vasto e poderoso, repleto de impulsos suprarracionais subconscientes. Embora geralmente não sintamos nosso subconsciente, ele define quem somos, por uma razão simples:
Nosso eu consciente é vulnerável a influências transitórias. Como todos sabemos por experiência própria, nossas opiniões e comportamentos frequentemente mudam devido a novas circunstâncias e pressões sociais. Essa versão maleável de nós mesmos dificilmente pode ser chamada de quem realmente somos. Mas nosso eu interior, subconsciente, é diferente. Ele permanece inerentemente imperturbável pelo mundo exterior. Está além das notícias, além das outras pessoas, além de qualquer flutuação — é o nosso eu inato e consistente.
Portanto, quando cedemos às pressões do mundo exterior e nos afastamos de nossos desejos mais íntimos, naturalmente nos sentimos desorientados e divididos.
A pesquisa científica e a psicologia moderna têm, em grande parte, confirmado a noção geral de um eu subconsciente. No entanto, ao definir o que de fato reside abaixo da nossa superfície, a sabedoria judaica difere significativamente das teorias do início da era moderna, especialmente as de Sigmund Freud.
Em uma carta a um cientista da NASA, o Rebe destacou como um ensinamento de Maimônides4 em sua obra-prima, Mishnê Torá, articula o que se tornou um pilar da psicologia moderna: que os seres humanos são compostos de camadas conscientes e subconscientes, e que as exigências da sociedade muitas vezes fazem com que nosso eu consciente se comporte de maneiras que conflitam com nossos desejos subconscientes inatos. Ele então explicou:
[No entanto,] nada do que foi dito acima pode ser interpretado como confirmação de outros aspectos da teoria freudiana, segundo a qual a psique humana é governada principalmente pela libido, pelo desejo sexual, etc. Pois essas ideias são contrárias às da Torá, cuja visão é a de que o ser humano é essencialmente bom (como no ensinamento de Maimônides, acima). A única semelhança reside na ideia geral de que a natureza humana é composta por um substrato e várias camadas.5
Freud via o ser humano através de uma lente materialista e evolucionista. Ele presumia que os impulsos mais básicos de uma pessoa fossem geralmente os mesmos que os de um animal — evitar toda dor e buscar prazer ilimitado. Na concepção de Freud, o choque tectônico entre esses impulsos insaciáveis e as normas sociais cria uma tensão inevitável no centro da experiência humana, que só pode ser administrada, jamais reconciliada.
O Rebe acreditava em algo completamente diferente. Citando as obras de Maimônides e dos mestres chassídicos, ele ensinou que o núcleo subconsciente de um ser humano é, na verdade, sua centelha Divina essencial e eterna. Independentemente de nossos pensamentos conscientes, independentemente de nossos comportamentos manifestos, por baixo de tudo isso reside uma alma inabalável que anseia por conexão Divina, que anseia por se unir aos outros, que anseia por fazer o que é justo e evitar tudo o que é errado.
Sim, as muitas pressões da vida às vezes nos levam a suprimir nossos impulsos divinos subconscientes e, em vez disso, a trilhar um caminho hedonista ou imoral, resultando em dolorosos conflitos internos. Mas podemos resolver essa dissonância permitindo que nosso eu consciente, nossos pensamentos e ações cotidianos, reflita e se alinhe com nosso eu mais profundo, oculto sob todos os escombros. Portanto, o Rebe via um estilo de vida imbuído de espiritualidade como a única maneira de sermos fiéis a nós mesmos e unos com nossa essência. Para alcançar a sensação de plenitude que almejamos, devemos permitir que nossa alma Divina tenha um lar tangível em nosso dia a dia. Quando conectamos nosso frágil eu exterior ao nosso núcleo interior imutável, uma sensação serena de harmonia pode repousar sobre nós.
Novas tendências na psicologia têm se aproximado da perspectiva dos místicos judeus defendida pelo Rebe.
Mudança de Atitudes
“Ao examinar mais atentamente”, afirma uma carta de 1960 sobre Freud, encontra-se, de fato, muitas lacunas em sua teoria e, na verdade, é notável que muitos de seus discípulos mais proeminentes tenham se afastado de suas teorias e estabelecido as suas próprias. E embora possam divergir entre si, todos têm algo em comum: a negação da abordagem básica de Freud. Basta mencionar Jung, Adler e, mais recentemente, Frankl.
É especialmente interessante que o Dr. Viktor Frankl, professor da Universidade de Viena, faça do propósito de vida a pedra angular de seu sistema psicanalítico.6
De fato, uma das principais áreas em que Jung e Frankl romperam com seu mestre foi ao postular que a espiritualidade e a religião contribuem profundamente para o bem-estar emocional.
“Tratei centenas de pacientes”, escreveu Jung. “Entre aqueles que estão na segunda metade da vida — isto é, acima dos trinta e cinco anos — não houve um sequer cujo problema, em última análise, não tenha sido o de encontrar uma perspectiva religiosa na vida. Pode-se afirmar com segurança que todos eles adoeceram porque perderam aquilo que as religiões vivas de todas as épocas deram aos seus seguidores, e nenhum deles foi verdadeiramente curado sem recuperar sua perspectiva religiosa.”7
Frankl respondeu de forma semelhante a uma pergunta sobre seus pensamentos a respeito da religião:
“Em contraste com o sistema de psicanálise de Freud, a logoterapia [a forma de psicoterapia de Frankl] vê o homem como um ser dominado não por um impulso de prazer, nem por uma vontade de poder, mas sim por uma vontade de encontrar sentido. Portanto, a logoterapia vê uma pessoa lutando por uma vida o mais significativa possível ou estando frustrada.
“E é aqui que a religião entra em cena. O homem, ou uma grande parte essencial da população humana, vai um passo além e também busca um significado último. Um indivíduo religioso não se contenta apenas em encontrar uma tarefa significativa para realizar. Ele ou ela vai além, incluindo também a consciência de um doador de tarefas — que é a Divindade.”8
O Rebe elogiou as ideias de Frankl sobre a essência do homem e a importância da espiritualidade no bem-estar emocional. Ele encorajou pessoalmente Frankl a não desistir de suas teorias inovadoras, apesar do ridículo que enfrentava,9 e frequentemente incentivava outros psicólogos a se familiarizarem com os escritos inovadores de Frankl.10
“Gostaria de aproveitar esta oportunidade”, conclui uma carta à Dra. Stern-Miraz, profissional de saúde mental em Haifa, Israel, “para acrescentar mais um ponto, embora este seja da sua área: a melhora do estado de saúde de [nome omitido] ilustra (se é que é preciso comprovar) o grande poder da fé — especialmente a fé expressa em ações práticas, trabalho comunitário, observância de mitsvot, etc. — para promover a tranquilidade emocional de uma pessoa, reduzir e, às vezes, até eliminar seus conflitos internos, bem como [aliviar] as queixas que ela possa ter sobre o ambiente ao seu redor, e assim por diante.
“Tenho me interessado particularmente pelos escritos do Dr. Frankl (de Viena) sobre este assunto. Para minha surpresa, no entanto, parece que sua abordagem ainda não foi devidamente divulgada e apreciada…
“Com respeito e votos de sucesso em seu trabalho para curar os enfermos e guiá-los efetivamente para uma vida saudável — uma vida digna de ser chamada de ‘vida’.11 ”
* Nos anos subsequentes, a abordagem de Frankl de fato ganhou amplo reconhecimento. Sua obra seminal, "Em Busca de Sentido", foi traduzida para mais de cinquenta idiomas e foi considerada pela Biblioteca do Congresso como um dos dez livros mais influentes dos Estados Unidos.
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