A primeira impressão do círculo de discípulos reunidos sobre Rabi DovBer de Mezeritch não foi muito encorajadora para Rabi Shneur Zalman. Ele tinha esperado uma grande academia repleta de personalidades brilhantes, eruditos e sábios. Em vez disso, encontrou um grupo de pessoas discretas que, à primeira vista, pareciam possuir pouco que valesse a pena pesquisar. Também não foi particularmente inspirado pelas piedosas admoestações que o Maguid de Mezeritch endereçava à multidão que se reunia em sua sinagoga.

Ele estava se preparando para sair, quando seus olhos se abriram para a verdadeira natureza do mestre e seu círculo mais chegado. Rabi Shneur Zalman tinha decidido prestar seus respeitos ao Maguid antes de voltar para Liozna. Ele entrou na casa do mestre e ficou no meio da multidão, quando Rabi DovBer o avistou. Seus olhos se fixaram nas profundezas do abismo da própria alma de Shneur Zalman, explorando e avaliando cada uma de suas qualidades.

Após alguns minutos de um silêncio repleto de significado, o mestre não apenas lhe disse o que estava em sua mente, mas sem sequer ter sido indagado, deu a Shneur Zalman respostas simples, mas convincentes a algumas perguntas que o jovem erudito tinha preparado para assegurar-se do valor do mestre. Profundamente impressionado, Rabi Shneur Zalman implorou para ser admitido no seleto círculo de discípulos de Rabi DovBer.

Agora um novo mundo se desenrolava perante os olhos ávidos do erudito vindo de Liozna, à medida que ele absorvia as palestras diárias do Maguid sobre os ensinamentos do Báal Shem Tov. Na companhia de rabinos de grande renome, ele mergulhava no âmbito das relações sagradas que unem D’us, Israel, a Torá e o mundo em um sistema insolúvel de escopo universal.

O filho de Rabi DovBer, Rabi Abraham, que pela sua santa conduta mereceu o título de “o Anjo” (Malach), foi seu guia até essa esfera elevada de sabedoria e conhecimento. Por sua vez, Rabi Shneur Zalman instruiu-o no âmbito da Halachá – a parte mais importante da literatura talmúdica e rabínica sobre a Lei Judaica.
Assim, o jovem Rav absorveu os fundamentos do Chassidismo e satisfez a ânsia de sua alma que o tinha afastado de seu lar e da família.

Ele jamais se arrependeu de ter escolhido Mezeritch em vez de Vilna. A princípio, Rabi Shneur Zalman desfrutou pouco prestígio entre os seguidores estabelecidos do Maguid, até que certo dia Rabi DovBer revelou as extraordinárias qualidades do Rav, e revelou-o como uma “luz em Israel”. Ele instruiu Rabi Shneur Zalman, então com vinte e cinco anos, a reescrever o Código da Lei Judaica de maneira a incluir as decisões mais recentes.

Mal tinham se passado duzentos anos desde que Rabi Yossef Caro publicara sua obra prima, o Shulchan Aruch, e durante todo esse período gerações de codificadores e comentaristas judeus – chamados “Acharonim” – tinham acrescentado e elucidado aquilo que teria sido a palavra definitiva na discussão da Lei Judaica.

Rabi Shneur Zalman deu total consideração a esses duzentos anos de comentários no Shulchan Aruch, e por meio de cuidadosa edição ele apresentou o Código da Lei Judaica de forma precisa e acessível. Essa, obviamente, foi uma tarefa das mais difíceis. Porém, a obra foi cumprida de maneira tão magistral, que Shneur Zalman foi certa vez aclamado como um dos maiores eruditos de seu tempo, não apenas pelo mundo chassídico, mas por eruditos de todas as esferas.