Para uma pessoa, identificar sua alma gêmea depende de sentir que compartilham a raiz da alma. Este é o tipo mais fundamental de discernimento que existe.

Normalmente, o amor nasce no coração somente após o lampejo inicial e embrionário de discernimento ter, através de meditação deliberada, amadurecido no recesso da mente até transformar-se em numa idéia completamente desenvolvida, e ter sido assimilado na perspectiva da pessoa. Assim como a gestação física precisa de tempo, assim também este processo, pois a mentalidade que prevalecia antes da introdução do novo discernimento deve atracar-se com ele. Como a mente e seus padrões de pensamento não são plenamente refinados e ajustados, a introdução de um novo elemento de verdade requer que a estrutura mental anterior seja inteiramente reavaliada e reconstruída à sua luz, e isso demanda tempo.

Porém, excepcionalmente a pessoa pode viver o amor "à primeira vista"; o amor pode aparecer simultaneamente com o discernimento inicial, sem o lapso de tempo tipicamente requerido para que se desenvolva e dê frutos. Isso pode acontecer em uma destas maneiras:

Se o amor é caracterizado pelo auto-desconhecimento e auto-desorientação (bitul) que acompanham o lampejo de discernimento, é meramente vivido como uma "emoção" no sentido convencional da palavra. Pode, assim, reluzir com o brilho do puro discernimento original. A essência de tal amor-vivência pode ser considerada como encerrada no olho da mente - como se o coração tivesse "subido" até os olhos.

De forma alternativa, a semente do amor pode desenvolver-se no útero da mente antes de nascer no coração, porém sem requerer o costumeiro longo período de tempo, ou na verdade tempo algum. Neste caso, a emoção do amor é sentida como um atributo do coração, mas a mente da pessoa é tão refinada que a emoção flui livre e naturalmente através dela. O "eu" não produz "fricção" para retardar o nascimento das emoções originadas na mente.

Comparamos o nascimento do amor do discernimento embrionário depositado e nutrido no útero da mente à concepção e nascimento de um filho, e ainda comparamos o amor à primeira vista a conceber e dar à luz sem um período de gestação interposto. Esta ausência de um período de gestação será a norma no futuro.

Na Era Messiânica, tanto o relacionamento entre marido e mulher como aquele entre D'us e o povo judeu serão um constante amor à primeira vista. Paradoxalmente, este contínuo estado de paixão romântica estará plenamente integrado ao amor estabelecido e assentado que caracteriza os relacionamentos maduros.

A antecipação do Mundo Vindouro neste mundo é o Shabat (Talmud Berachot 57b). O Shabat está essencialmente acima da consciência de tempo normal dos seis dias da criação. Durante os seis dias da semana (que correspondem às seis emoções do coração), a realidade está consciente e concentrada em si mesma. No Shabat, a consciência da realidade criada retorna à sua fonte no Plano Divino, e as emoções ascendem ao nível da visão da mente. D'us vivencia novamente o amor à primeira vista, como fez antes da Criação. E como o mundo está continuamente sendo criado a partir da consciência de D'us, no Shabat nós também somos capazes de vivenciar o amor à primeira vista. Podemos ambos reconquistar nossa inspiração com a vida em geral, e nos apaixonar novamente por nosso cônjuge.

A essência da experiência do Shabat é então o primeiro nível de amor à primeira vista. O segundo nível de amor à primeira vista é a bênção que Shabat concede à semana vindoura.

Por isso, quando o amor à primeira vista não é vivenciado no contexto da santidade do Shabat e sua bênção para a próxima semana, é um tipo de natimorto prematuro. Este tipo de amor à primeira vista é análogo à aparência de um Mashiach (Messias) prematuro. Nossos Sábios nos ensinam que para que venha o verdadeiro Mashiach, devemos cumprir dois Shabatot. Uma interpretação disso é que precisamos cumprir um Shabat e projetar sua luz sobre os dias da semana vindoura, preparando assim toda a realidade para o próximo Shabat. Estes dois Shabatot correspondem às duas manifestações de amor à primeira vista que descrevemos.