Acabei de voltar de entregar meu carro ao serviço de socorro mecânico do bairro onde moro. Enquanto meu carro era rebocado, vi de relance jovens, adolescentes voluntários, caminhando em direção a quatro vans brancas e empurrando jovens com necessidades especiais em cadeiras de rodas. As lágrimas ficaram presas na minha garganta e não pude deixar de me aproximar um pouco mais da cena.

Minha filha de dezesseis anos tem estado ocupada nas últimas semanas ajudando a preparar um acampamento especial que é administrado inteiramente pelos jovens da nossa comunidade para crianças de Ilan (uma organização que cuida de jovens com deficiências severas). O momento chegou: os campistas estão aqui!

Para estes noventa voluntários adolescentes, este é o ponto alto das ferias de verão. Eles se dedicam 24 horas por dia, durante seis dias, a trinta crianças especiais – para dar às suas famílias o descanso que merecem e para dar a estas crianças o melhor momento das suas vidas. Durante 24 horas por dia, dois voluntários ficam vinculados a cada adolescente com deficiência física. A maioria deles precisa de ajuda para ir ao banheiro, comer, tomar banho e até sentar. Alguns deles usam fraldas. Muitos não conseguem se comunicar com clareza.

Pais de filhos adolescentes em todo o mundo estremecem quando se trata das férias de verão, sem saber como as crianças permanecerão ocupadas e seguras. Mas e se canalizássemos a incrível energia dos nossos filhos para um uso positivo? Em vez de procurar maneiras de entreter nossos adolescentes, poderíamos ajudá-los a criar projetos valiosos e doar-se a outras pessoas.

Ainda estou emocionado ao ver jovens de quinze, dezesseis, dezessete anos tão entusiasmados em levar essas crianças com necessidades especiais aos apartamentos que eles limparam, decoraram e adaptaram para seus convidados de honra. Alguns adolescentes trabalham na cozinha: descascam, picam e preparam três refeições por dia. Alguns se encarregam da logística dos passeios e atividades planejadas para a semana de diversão. Outros são responsáveis pela limpeza dos banheiros e dos apartamentos, e pela limpeza do refeitório após cada refeição.

Depois, há os conselheiros do acampamento. Cada jovem de dezesseis ou dezessete anos, junto com uma assistente de quinze anos, recebe uma criança para cuidar durante toda a semana.

Da experiência do ano passado, lembro-me de como as crianças trabalharam arduamente, de como lutaram emocionalmente tentando comunicar e cuidar fisicamente de crianças tão severamente desafiadas. Tanto amor e união como uma equipe, e tantos desafios a serem superados para ajudar aos que mais precisam.

É isso que torna os seres humanos sensíveis e generosos. Quando sentimos que as nossas competências e esforços são necessários, que podemos contribuir de forma real para tornar este mundo um lugar melhor e mais amoroso; algo muda por dentro. Deixamos de pensar: "o que isso traz para mim?" para "o que posso fazer para ajudar outra pessoa?"

Hodaya, minha filha de dezesseis anos, entrou ontem à noite, depois da meia-noite, após o primeiro dia de acampamento e sentou-se na minha cama. Ela estava tão exausta que mal conseguia falar. Mas ela contou o nome de sua campista e como uma outra campista ficou presa no círculo onde elas a colocam para poder lhe dar banho. Tentaram de tudo para ajudá-la. Foi um verdadeiro desafio e um pouco assustador, mas todas engoliram seus medos e trabalharam juntas para ajudar a aliviar o desconforto de sua deficiência. Ouvi com admiração a coragem e os recursos que esses adolescentes encontraram. Ela me disse: "Ima, este trabalho é uma lição para a vida. Você não pode tomar nada como garantido. Quando entro no chuveiro, sinto-me muito grata por poder tomar banho sozinha."

Quando olho para o verão passado, lembro-me de como foi difícil para os meus dois adolescentes voluntários; suas lágrimas de exaustão, a luta para trocar a fralda de um jovem de dezoito anos, as emoções cruas de alegria e dor compartilhadas. Mas o que mais se destaca são os olhos brilhantes, olhos que expressam gratidão por terem sido abençoados com braços e pernas, gratidão por poder ir além da sua zona de conforto para dar aos outros; o conhecimento de que dar é uma parte tão importante da vida e constrói recursos internos que eles nunca imaginaram possuir; sentimento de união e reconhecimento do que pode ser realizado trabalhando em equipe; e uma satisfação tão profunda pela oportunidade de afetar a vida de outras pessoas.

Em hebraico, a Língua Sagrada, dar (natan), é escrita da mesma forma de trás para frente e de frente para trás. Inerente às palavras hebraicas está a essência da ideia que elas transmitem. É comum pensar que se doarmos nosso tempo, dinheiro, conselhos ou bens, estamos abrindo mão de algo nosso. Contudo, a palavra hebraica natandemonstra o verdadeiro conceito de dar. Quando damos, recebemos de volta. A maioria desses voluntários dirá que receberam dez vezes mais do que deram. As duas semanas de verão: uma em que preparam e planejam intensamente o acampamento e a segunda em que o administram, são o ponto auge do ano.

Não seria maravilhoso se, em vez de procurar maneiras de entreter nossos adolescentes e mantê-los longe de problemas, fizéssemos um brainstorming com eles sobre como criar canais para capacitá-los a experimentar a alegria de dar?

No processo, nossos filhos descobririam seus pontos fortes, talentos e qualidades de liderança interiores e experimentariam a incrível alegria de dar. Nenhuma sala de aula, nenhuma palestra pode ensinar isso. É o maior presente que podemos dar aos nossos filhos.

Agradeço aos jovens do Golan por me ensinarem esta lição e por encorajar a todos a fazer o mesmo, expandindo as nossas células doadoras.