Por Yanki Tauber - baseado nos ensinamentos do Lubavitcher Rebe
A coisa mais fácil a fazer seria conseguir o divórcio e seguir o próprio caminho na vida, mas os judeus são famosos por sua recusa em aceitar a solução mais fácil.

Ela é volúvel e impulsiva, as emoções sempre numa gangorra, pontuada por explosões de inspirada criatividade. Ocasionalmente, sua personalidade luminosa cintila como a lua cheia; também freqüentes, no entanto, são os períodos de tenebrosa disfunção. O resto do tempo ela vacila entre estes extremos, de modo que pode-se encontrá-la em gentil declínio ou nos estertores de uma dolorosa recuperação.

Ele é impassível, confiável, tão regular quanto o nascer do sol todas as manhãs. Levanta-se cedo para pegar o metrô e está sempre em casa a tempo para o jantar. No trabalho é eficiente, produtivo e defensor intransigente da política da empresa. Seu olhar firme repousa benevolente sobre a superfície efervescente da vida de sua esposa.

Como pode se esperar, o casamento deles não é fácil. Suas vidas não seguem no mesmo compasso. Pode-se ver com freqüência ele abrindo caminho, e ela seguindo atrás languidamente; outras vezes é ele que tarda, enquanto ela é impelida por uma de suas explosões momentâneas. Mas eles se apegam a isso. Uma vez a cada dezenove anos seus esforços são recompensados. Suas disparatadas trajetórias de vida se fundem, e eles desfrutam um momento de harmonia.

A primeira ordem que a recém-nascida nação de Israel ouviu quando se preparava para deixar o Egito não foi para se circuncidar, proclamar um Estado ou assar matsot. Deveriam formular o calendário judaico. O tempo, afinal, é nosso recurso mais precioso; na verdade, é tudo que temos. Mais que qualquer outra coisa, a maneira de quantificarmos e sentirmos o tempo define quem e o quê somos. E os judeus têm aquele que é provavelmente o calendário mais complexo conhecido pelo homem. O que torna o calendário judaico tão complicado é sua insistência em reconciliar o ciclo lunar com o solar em um único sistema. O ciclo lunar de 29,5 dias é a base para a unidade de tempo que chamamos "mês"; o ciclo solar de 365,25 dias produz o ciclo anual de estações a que denominamos "ano". O problema é que estes dois ciclos não são compatíveis entre si - doze meses lunares totalizam 354 dias, onze menos que um ano solar.

Portanto, a maioria dos calendários adota um desses sistemas e vai em frente. O calendário lunar muçulmano, por exemplo, ignora completamente o ciclo solar. E o calendário solar gregoriano (o calendário "secular" que tornou-se padrão universal) é completamente dissociado do tempo lunar.

Porém na primeira mitsvá a ser ordenada ao povo de Israel, D'us instruiu Moshê a basear o calendário judaico nas fases da lua, mas torná-lo consistente com as estações solares. A única forma de conciliar estas duas trajetórias de tempo diversas (sem comprometer a integridade de qualquer um dos sistemas) é criar um ciclo de dezenove anos que inclua seis tipos diferentes de anos: o ano judaico consiste de 12 ou 13 meses, e tem 353, 354, 355, 383, 384 ou 385 dias de duração.

No terceiro ano do ciclo de dezenove anos (pelo qual o "ano" lunar caiu 33 dias depois do solar) é adicionado um mês extra, que quase, mas não completamente, fecha a lacuna. No sexto ano, o processo é repetido. No oitavo ano, um décimo terceiro mês realmente estabelece o ano lunar alguns dias à frente. Mas não por muito tempo. Logo ele mais uma vez fica para trás. Somente no encerramento do décimo nono ano os dois ciclos de tempo convergem.

Por que tornar as coisas tão complicadas? Por que a vida judaica é impulsionada pela determinação de fazer um casamento entre estes dois cônjuges improváveis?

O tempo judaico é basicamente lunar, ligado à subida e descida mensais da lua. Como a lua, passamos por épocas de declínio, até mesmo por momentos de escuridão, para depois elevarmo-nos à luminosa plenitude. Vivemos nossa vida com a lua porque desejamos aproveitar as qualidades distintas da energia lunar: sua coragem e criatividade, sua capacidade de recuperação e renascimento.

Porém estamos igualmente determinados a incorporar em nossa vida a certeza e a continuidade do sol. A vida deve ser criativa, mas deve também estar baseada em verdades inequívocas; a vida trata da perpétua reinvenção do ser, mas também da lealdade e consistência.

Tentar conciliar ambas as correntes de tempo simultaneamente não é tarefa fácil. A coisa mais simples a fazer seria conseguir um divórcio e cada um seguir seu caminho pela vida. Mas os judeus são notórios pela sua recusa em aceitar a solução mais fácil.